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- Carta aos Romanos (17)

O dom do Espírito (II)

A cosmologia revelada (8,18-27)

Deus reserva a sua Glória à criatura humana que vive a sua imolação. Vale a pena vivê-la, diante da vantagem que é oferecida. A própria criação “anseia pela revelação dos filhos de Deus” (v.19). A glorificação do homem a arrasta para a mesma condição. Sujeita à lei da vaidade, destinada à corrupção, dela é resgatada pelo homem que, libertado da corrupção e da morte em virtude do Espírito, na liberdade do mesmo Espírito chega à Glória como filho. Do Espírito nós temos as primícias. Como criaturas por Ele renovadas aspiramos à redenção do nosso corpo, porque é somente por ela que alcançamos a nossa glorificação. Para isso, deve ser aplicado o esquema exposto em Rm 5: superar a tentação, viver a tribulação na virtude comprovada, até coroar a vida de fé com uma esperança que não será confundida, porque o Espírito terá feito desabrochar os seus frutos: amor, alegria, paz, etc (Gl 5,22).

Pelo que o Evangelho de Paulo apresenta, resulta que o homem, livre da escravidão dos vícios, pode cultivar as virtudes do seu espírito, na força do Espírito. Isto significa acompanhar Cristo modelo de obediência e imolação com a certeza de chegar “à gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (8,21). Isto já é vida eterna, santificação, embora, ainda exija o esforço de dominar os impulsos da carne. Contudo, “os sofrimentos do tempo presente não tem proporção alguma com a glória que há de revelar-se em nós” (v. 18). Participaremos da vida trinitária, à semelhança da Humanidade de Jesus glorificado, do qual nos tornamos imagem, segundo o Plano do Pai (v.28s). Entendemos, agora, porque era preciso que “o Cristo sofresse para entrar na glória” (Lc 24,26).
A Glória é, por nós, alcançada somente quando vivemos a perfeita condição criatural, que implica a obediência e a imolação. Cristo mereceu para nós essa condição. Dela nos revestimos pelo Batismo, chamados a preservá-la e cultivá-la pela Eucaristia, que nos torna sempre mais capazes do testemunho nas tribulações.

Em união com Cristo temos a função de mediar a louvação que parte da criação e sobe até Deus. Com a sua Ressurreição, Cristo já, em princípio, resgatou o cosmo da lei de vaidade.
Agora, esse processo se atua através do homem que, resgatado na sua imagem, deve proceder de glória em glória. Nós “possuímos as primícias do Espírito” (v.23). O melhor do que poderia ser dado à criação foi dado a nós. Mas o nosso corpo está ainda sujeito à lei da vaidade, arriscado a cair no pecado se não lutamos para a nossa salvação com “a couraça da fé e caridade” e “o capacete da esperança” (1Tss 5,8). O nosso anseio para a Glória poderia transformar-se em anseios pelos efêmeros valores do homem carnal, esquecidos da tarefa de conseguir a redenção do nosso corpo e a filiação divina de forma definitiva. Por isso o fiel deve “completar na sua carne o que falta à Paixão de Cristo” (Cl 1,24), porque é pelo sofrimento da luta que aumenta a esperança. Caso surjam tribulações, elas são a condição ideal para tornar nossa esperança quase que uma certeza, porque é na virtude comprovada, obtida pela paciência nas tribulações, que o Espírito é “largamente difundido em nossos corações” (5,3-5).

Rm 8, 26-27 descreve a ação do Espírito no processo de crescimento da criatura até à glorificação. Doado como primícias, o Espírito supre a fraqueza da carne, a partir da mediação que ele atua junto ao Pai, pedindo aquilo de que precisamos, porque nós nem sabemos o que pedir. A sua súplica são gemidos inenarráveis, algo sublime, próprio da natureza da divindade. O Pai entende, na sua infinita percepção das mentes, o sentido dos pedidos do Espírito. Há uma identidade de intenções entre o Pai e o Espírito. O Espírito pede segundo o Desígnio do Pai que “por livre decisão de sua vontade nos predestinou a sermos seus filhos adotivos no Amado” (Ef 1,5s).

A resposta de Deus é plena. Mas o fiel deve ser encontrado no amor, porque somente os que respondem aos desígnios de Deus são os beneficiados.

Perguntas para uma reflexão:

1ª) De que maneira o cosmo é associado ao destino de glória do homem?
2ª) Quais são os passos que o homem deve realizar para responder à ação do Espírito?
3ª) Qual é a importância da virtude teologal da esperança que é alcançada somente pela perseverança nas tribulações?

Pe. Fernando Capra/CRSP

 
 
 

VEJA NO MÊS DE SETEMBRO/2010:


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