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Vamos conhecer a Bíblia |SETEMBRO


- Apocalipse 3 (4)

Igreja (continuação da edição anterior)

S. João apresenta-nos, por um lado, o demônio submetendo a Igreja a toda espécie de ataques; por outro, a Igreja continuando a purificar-se e a santificar-se em união sempre mais íntima com Deus. A Igreja assume dois aspectos correspondentes a duas fases: Igreja militante e sofredora na fase terrena, Igreja triunfante e bem aventurada na fase celeste.
O autor exprime em números esses dois estados da Igreja, numa matemática que intenciona ser mais qualitativa do que quantitativa: enquanto militante, a Igreja é submetida a uma prova de três anos e meio, período de tempo breve e imperfeito; triunfante, a Igreja gozará por mil anos, isto é, por período indefinido, “um dia de Deus”.

No pensamento joanino não há sucessão entre as duas fases de vida da Igreja, mas antes continuidade, ou melhor, coexistência; e a glória celeste será apenas o desabrochar da vida da graça, já designada por João como vida eterna.

Cristo é o centro de unidade de toda a Igreja, militante e triunfante. Ele está presente e opera no meio das suas Igrejas (Ap 1,13), figuradas pelos sete candelabros de ouro (Ap 1,20; 2,1), como havia prometido: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). De cada comunidade ele conhece méritos e pecados, e para cada uma tem palavras de louvor ou de censura. Enquanto na Antiga Aliança a esposa de Javé era Israel (Jr 2,2-3), Na Nova Aliança a esposa do Cordeiro é a Igreja ( Ap 14,1; 19,6-9; 21,2.9).

A Igreja , novo Israel de Deus, exatamente por ter sido remida pelo sangue do Cordeiro, herdou a missão do antigo Israel, missão de ser um reino de sacerdotes: “...porque foste imolado e com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação, e os fizestes para o nosso Deus reino de sacerdotes” (Ap 5,9s; cf. Ex 19,6). É por isso que o encargo principal de toda a Igreja deve ser o de louvar a Deus e servi-lo (Ap 22,3-4; cf.7,12; 14,1-3). Assim se explica a importância que João dá à descrição da liturgia celeste representada com os símbolos e as figura da antiga liturgia.

Jesus se descreve com veste sacerdotal (Ap 1,13), ou sob a figura do Cordeiro imolado (Ap 5,6ss), aludindo ao sacrifício diário do templo. São numerosas as imagens tomadas dos utensílios e das cerimônias do templo ou da sinagoga: os sete candelabros de ouro (Ap 1,12ss), a arca da aliança no seu templo (Ap 11,19), o anjo com o turíbulo de ouro alimentado pelo fogo do altar (Ap 8,3-5), os sete anjos com as sete trombetas (Ap 8,6), o templo enchido pela fumaça da majestade de Deus (Ap 15,8), e a taças de ouro (Ap 15,7).

Ao descrever o trono de Deus e a corte celeste, João não só relata as formas litúrgicas, mas descreve também as cerimônias: “Os vinte e quatro presbíteros prostravam-se...adoravam... e atiravam suas coroas diante do trono ...” (Ap 4,8-11). Assim, ao abrir-se o livro selado, diz-se que os vinte e quatro anciãos trazem “cada qual uma harpa e taças de ouro cheias de perfume, que são as orações dos santos” (Ap 5,8).

Junto com as fórmulas e cerimônias encontram-se também hinos: ao abrir-se o livro selado canta-se um cântico “novo” (Ap 5,9); outro “cântico novo” executam-no os 144.000 do monte Sião (Ap 14,3); os vencedores da besta cantam, no entanto, “o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro” (Ap 15,2-4). Relatam-se, enfim, os “aleluias” de júbilo cantados quando “chegaram as bodas do Cordeiro, e a esposa se ornou”( Ap 19,1-8).

A liturgia da terra pode continuar e continua de fato também no céu, porque já sabemos tratar-se de um a só e mesma Igreja.

Fiéis e bem aventurados ajudam a cumprir o “mistério de Deus” (Ap 10,7), isto é, o reino de Deus esperado pelo messianismo judaico e inaugurado por Cristo em nós. O cristão concretiza esse reino e inaugura sem cessar os últimos tempos. O clamor do Espírito, da esposa e de quem escuta (Ap 22,17) não é um desejo messiânico, porque já possuímos em Cristo o essencial desse reino e desse mistério: trata-se de um desejo escatológico.

Tal reino e mistério, de fato, não alcançaram a sua extensão universal e o seu último cumprimento. Mas chegará a ira de Deus e o momento do mortos serem julgados, o momento de dar a recompensa aos seus servos, os profetas, e aos santos e aos que temem o seu nome, pequenos e grandes, o momento de aniquilar os destruidores da terra (Ap 11,18): então acabará todo desejo porque desde esse momento “o reino do mundo passou ao nosso Deus e ao seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos. Amém” (Ap 11,15).

Anjos

Os Anjos intervêm em muitas ocasiões ao longo do livro.
Etimologicamente, o termo “anjo” significa mensageiro; essa função de transmitir uma mensagem divina aos homens está amplamente destacada. No começo João conhece por meio de um Anjo quanto vai acontecer (Ap 1,1), e no fim será também um Anjo que lhe mostrará as últimas visões da Jerusalém celestial (Ap 22,6.16). Por vezes um Anjo transmite a sua mensagem a outros Anjos (cf. Ap 7,2; 8,2-11,15), ou proclama o Evangelho a todos os homens e anuncia as ameaças e os castigos de Deus (cf. Ap 14,6-9; 16,1-17; 19,17).

Os Anjos são apresentados também como aqueles que protegem os homens. Assim aparecem nos quatro ângulos da terra, sujeitando os ventos para que não danifiquem os homens (Ap 7,1), ou de pé nas portas da Cidade Sagrada em atitude de vigilância (cf. Ap 21,12).

Quanto aos Anjos das Igrejas (cf. Ap 1,20; 2,1.8.12.18; 3,7.14) consideram-se, segundo alguns, como a representação simbólica dos bispos dessas Igrejas, cuja função era fundamentalmente a de velar por elas. Mas também podem representar os mensageiros divinos, que recebem as palavras do Senhor para as transmitir às Igrejas, que ao mesmo tempo protegem e governam.

Continua no próximo número.

 
 
 

VEJA NO MÊS DE SETEMBRO/2010:


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