Carta de Tiago (2)
Conteúdo
Cap. 1- Saudação inicial; exortação à constância na provação, na oração, no ouvir e no praticar. Ensina o valor do sofrimento. Sublinha que de Deus unicamente pode provir o bem e que, portanto, Ele não tenta o homem nem busca o seu mal. Aceitar o que provém de Deus implica por em pratica a palavra ouvida e evitar a acepção de pessoas. Mostra a necessidade de que não haja rupturas entre o que se recebe de Deus e o que se reflete na vida pratica.
1,12-18 Provações, paciências e sensatez.
1,19-27 Falar e escutar, escutar e executar e praticar a beneficência.
Cap. 2 - Idéia central: a fé que não se traduz em obras esta morta.
2,1-13 Parcialidade entre ricos e pobres, amor fraterno sem discriminação.
2,14-26 Fé e boas obras, a fé sem obras é morta.
Cap. 3 - Contra a intemperança na linguagem.
3,1-12 O poder e o domínio da língua.
3,13-18 A verdadeira e a falsa sabedoria. Sabedoria autêntica.
Cap. 4 - Contra as discórdias.
4,1-12 Raízes das discórdias: cobiça, inveja e a maledicência.
4,13-5,6 Confiar plenamente na Providência divina, sem se encerrar nos próprios negócios, nem nas riquezas, pois isto dá origem a injustiças flagrantes. Admoestação aos ricos.
Cap. 5 - Exortações finais.
5,7-11 Insiste na perseverança com paciência e constância.
5,13-18 - Ensina o valor da oração, animando a pô-la em pratica em todo momento.
5,14-15 Detém-se no sacramento da Unção dos Enfermos.
5,19-20 Recomenda a preocupação que os cristãos hão de ter uns pelos outros.
Mensagem e Questões Doutrinais
A carta de Tiago tem o aspecto de um escrito sapiencial, isto é, portador de sabedoria: exorta a praticar a verdadeira sabedoria, harmonizando pensamento e ação, fé e obras. Este tema possui tamanha importância que a carta poderia bem intitular-se “Sabedoria de Tiago”. Dois trechos tratam dela expressamente: 1,5-8 e 3,13-18.
Trata-se de um escrito sumamente importante, que insiste muito na necessidade de não reduzir a própria fé a uma declaração verbal ou abstrata, mas em expressá-la concretamente com boas obras. Entre outras coisas, convida-nos à constância nas provas gozosamente aceitas e à oração confiada para obter de Deus o dom da sabedoria, graças à qual chegamos a compreender que os verdadeiros valores da vida não estão nas riquezas transitórias, mas em saber compartilhar as próprias capacidades com os pobres e necessitados (1,27). Deste modo, a carta nos mostra um cristianismo muito concreto e pratico. A fé deve ser realizada na vida, sobretudo no amor ao próximo, e particularmente no compromisso com os pobres. Este é o fundamento com o qual se deve ler também a famosa frase: “Assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta”.
A Epístola de Tiago tem um objetivo pastoral pratico, tendo em vista a piedade cotidiana, sendo a finalidade eminentemente moral, ascética. Tiago nos dá uma idéia precisa do que deveria ser um cristão: um homem que possui uma atitude positiva perante as dificuldades da vida, que sabe avaliar de maneira justa; alguém que não censura Deus quando alguma coisa vai mal; que sabe aonde dirigir-se para encontrar ajuda e conselho; que se deixa guiar por uma justa hierarquia de valores; que sabe controlar a própria língua e o próprio temperamento; que procura descobrir a vontade de Deus e viver em conformidade com ela; que traduz a fé na pratica de maneira evidente.
Nesta Carta encontramos muitas exortações e advertências:
O comportamento diante das contrariedades e das tentações Tiago distingue entre a tentação nociva (1,13ss), enquanto é impulso ao pecado, e a tentação como prova ou meio de progresso espiritual (1,2ss.12; 5,7-11). Aos fiéis sujeitos a tentações ou tribulações de vários gêneros Tiago lembra, que o cristão quando sofre, deve alegrar-se no íntimo do coração (1,2; 5,11), porque as provações servem para testar-lhe a firmeza na fé e a constância em praticar bem (1,3.4; cf. Rm 5,3ss). As adversidades, por outro lado, costumam ser de breve duração (5,7.10s); suportadas, produzem frutos abundantes e conduzem à vida (1,12; 5,7-11).
Assim, tudo encontra a sua última explicação na bondade misericordiosa de Deus (5,11; cf. 1 Cor 10,13). Ele oferece-nos ainda, na oração, o meio de vencer a tristeza.(5,13; cf. Lc 22,43).
A consecução da equidade no juízo sobre as pessoas, evitando murmurações, difamações, etc.
É mais prudente observar a vontade de Deus do que tentar ensiná-la. A língua é um poder devastador que ninguém domina e com tal poder é importante precaver-se, e o serviço da Palavra é exigente: ele proíbe o desprezo e implica uma estrita ética da comunicação. A Palavra é dita para ser observada e não apenas ouvida.
Quem deseja ser mestre na Igreja deve primeiro aprender a controlar a própria língua.(3,1-13). É preciso desconfiar da sabedoria que serve mais para tomar o poder do que para escutar e viver a Cruz (3,14-18). Tiago acentua que a sabedoria autêntica é dom de Deus, fonte de todo bem, Ele a concede aos que lha pedirem sem hesitação.
Qualidade fundamental da verdadeira sabedoria, vista por Tiago no aspecto pratico, é a docilidade, isto é, a humilde e sincera submissão a Deus (3,13). Em relação ao próximo, a sabedoria exprime-se na moderação e discrição: é pura, pacífica, compreensiva, condescen-dente, cheia de misericórdia e de bons frutos, persistente, sem parcialidade e sem hipocrisia (3,17).
O desprendimento das riquezas e a preocupação pelos pobres e necessitados. Quando a riqueza e o prazer se tornam fim em si mesmos nos impelem a pisotear a justiça, pois torna o rico presunçoso. A riqueza lhe dá um sentido de falsa segurança, ela isola, tornando insensível para com os que sofrem. Perde-se de vista a eternidade. Tiago inculca, repetidas vezes (1,27; 2,12s.15s), a pratica intensa da caridade, como alívio aos sofrimentos dos pobres.
Continua no próximo número.
Jane do Tércio
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