Apocalipse (I) - Introdução
Diante do arrefecimento da caridade e do perigo de falsas doutrinas que, particularmente, no momento de uma perseguição, põem em risco a própria fé, João escreve o Apocalipse. Trata-se de uma Carta pastoral "às sete igrejas que estão na Ásia" (1,4).
O motivo imediato que provoca a Carta é a perseguição de Domiciano (95 d.C.). Ele aflora logo no prólogo que, quando fala de João, que recebeu de Deus a vocação ao profetismo, lembra "aquele que deu testemunho da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo" (v.2). O reencontramos no início da descrição da primeira visão: "Eu João, vosso irmão e companheiro na tribulação na realeza e na paciência em Jesus Cristo" (v.9), e ao longo das cartas às igrejas (2,3.10.13.19; 3,8). Vemos, também, que, por causa disso, João pauta a sua carta em Daniel, cujo livro trata das perseguições sofridas pelos judeus por parte de um rei pagão no ano 175 a.C., a partir da descrição de como acontece a sua primeira visão. É como a de Dn 8, 15-18.
João nos diz que o seu escrito é fruto de visões pelas quais Jesus Cristo lhe mostrou a sua condição gloriosa, lhe ditou as cartas às igrejas, lhe explicou as coisas presentes (o porquê das perseguições, a missão da Igreja no mundo) e lhe revelou as coisas futuras (a sorte da Cidade terrena e o destino glorioso dos mártires). Dessa forma o seu escrito deve ser considerado um livro profético. De fato entendemos que, como Ezequiel, do qual utiliza muito as imagens, João quis expressar o que Deus lhe fez conhecer por intuição profética, sem que, de tudo aquilo que descreve, tenha tido uma visão real. Nem Ezequiel a teve. Ela é fruto de uma habilidade literária pela qual o autor descreve o que de fato Deus lhe faz conhecer em espírito de sabedoria e revelação, para que o transmita aos seus servos. A profecia é dirigida particularmente a nós. O profeta, dela, é o intermediário.
De posse da obra literária que nos transmite o que Deus revelou ao profeta, todo ouvinte da Palavra proclamada é capaz de entender o que Deus quer dele. O profeta se apresenta como guia. João, portanto, convida a procurar as respostas acerca das exigências da vida cristã, da interpretação da história e do que nos espera, nas Escrituras, como fez Daniel (Dn 10), a partir da celebração do Senhor da Igreja, no primeiro dia da semana (Ap 1,10).
A vocação de João ao profetismo acontece na ilha de Patmos onde João se encontra por causa da Palavra e do testemunho de Jesus Cristo. Numa primeira visão, Jesus se apresenta na condição de Filho do Homem e Senhor da Igreja. Dele João recebe a ordem de descrever a visão e de enviar às igrejas da Ásia as cartas que ele vai ditar. Numa segunda visão, Jesus mostra a João a sua condição gloriosa no céu. Ele é o Filho do Homem, sentado com o Pai no trono da Majestade, e recebe a mesma adoração, ele que é a realização da figura da Glória de Iahweh de Ez 1. Em subseqüentes visões, fruto das reflexões dominicais sobre a Escritura, João entende que o Pai entregou a Jesus o poder de julgar de forma que a Cidade terrena que persegue os mártires será destruída. Antes que isso aconteça Deus tenta corrigir os homens com castigos corretivos, enquanto a Igreja, na condição de Novo Israel, anuncia o evangelho. Ao longo desse tempo haverá perseguições. Mas, no fim, os profetas e os servos de Deus serão glorificados e os maus serão exterminados. Os mártires assistirão ao triunfo de Cristo e exultarão. A Cidade terrena será lançada ao mar e desaparecerá.
O Verbo de Deus, então, virá sobre as nuvens e desposará a sua Igreja, a Nova Jerusalém, a Mulher revestida de sol. Felizes os que guardam no seu coração estes ensinamentos e esperam a vinda do seu Senhor, perseverando no testemunho da Palavra!
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Em que sentido o Apocalipse é um livro profético?
2ª) Quais são os profetas nos quais, de forma peculiar, se inspira o Apocalipse?
3ª) Qual é o resumo do Apocalipse?
Pe. Fernando Capra/CRSP
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