“Temos um grande desafio: globalizar a solidariedade e a luta pela justiça, de mãos dadas”
Alguns dados estatísticos e a nossa convivência no dia-a-dia nos indicam que das mais profundas entranhas do nosso povo ecoa um ensurdecedor grito por justiça, solidariedade e uma espiritualidade (mística) libertadora. l % das pessoas mais ricas do Brasil possui renda equivalente a 13.8% da população, enquanto os 50% mais pobres possuem somente 13.5% da renda. 2,8%. dos latifúndios possuem 57.6% das terras, enquanto 62,2% dos minifúndios possuem apenas 7,9%, das terras. A Petrobras tira petróleo do mar de uma profundidade de 2.300 metros, enquanto por falta de vontade política ''não existe" tecnologia para tirar água a 50 ou 80 metros do subsolo para matar a sede do povo do semi-árido brasileiro, que está morrendo de sede. No mundo, a cada ano, duzentos milhões de crianças morrem, por conseqüência da falta d'água. No Brasil. existe isenção fiscal para revistas eróticas, mas falta livros didáticos nas escolas estaduais e municipais. A ONU já disse que em 2.025, se continuar o atual ritmo de devastação ambiental, 40% da população do mundo vai ficar sem água. Se continuar a atual idolatria do mercado, em 2.020, apenas 2% dos trabalhadores encontrarão trabalho e produzirão o necessário para toda a população (que ainda estiver sobrevivendo).
Diante dessa dramática realidade, temos um grande desafio: globalizar a solidariedade e a luta pela justiça, de mãos dadas (cf. SI 85,11). "É hora de articular bem a luta por justiça, com solidariedade e mística libertadora. Pois a luta por justiça sem solidariedade e sem mística pode recair em "mera ação política": transforma algumas estruturas, mas não recria as pessoas.
Solidariedade sem justiça e sem mística pode recair em "mero assistencialismo ou paternalismo", o que gera dependência e não liberta as pessoas. Mística sem justiça e sem solidariedade pode recair em "mero pietismo alienante".
O "episódio-parábola" do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37) pode ser um paradigma excelente para nos ajudar a articular, de maneira crítica e criativa, o tripé luta pela justiça, solidariedade e mística libertadora. O samaritano era um estrangeiro, herege segundo os judeus e discriminado por eles, tachado de pagão, um "impuro". um "bárbaro"; enfim, um excluído que entrou para a História como o pai dos voluntários autênticos. Ele denuncia uma estrutura assaltante do povo sendo solidário de modo gratuito e libertador.
Em Lc 10,33-35, com uma riqueza de detalhes, o samaritano percorre os passos interligados e interdependentes da compaixão que deságua na misericórdia:
1°) Ao passar, em viagem, pelo caminho no qual havia um homem que fora despojado e espancado, ele se aproxima da realidade do caído e semimorto. Não passa adiante. Não levanta teorias que justificam a exclusão e aliviam a consciência. Interrompe seus planos e deixa-se guiar pelo inesperado, pelo inédito, pelo que acontece.
2°) Vê o excluído semimorto. Entrega seu olhar ao outro que sofre. Olha com benevolência e ternura. Deixa que a dor do outro entre através dos seus olhos. Certamente foi um olhar penetrante. Passa a ver o mundo a partir da dor do outro. Deixa-se guiar pela visão que vê o outro sofrendo.
3°) Move-se de compaixão frente à dor do excluído. A dor do outro entra pelos olhos e invade todo o corpo. Penetra nas entranhas, no coração, revolvendo-os. Revira o corpo por dentro. Quem está comovido se entrega ao outro, não o agride. Sentir compaixão é associar-se à dor do outro, partilhando-a. Dor partilhada é dor diminuída. A dor sentida pelo excluído foi suavizada pelo odor da companhia do samaritano.
4º) Aproxima ainda mais da pessoa sofrida, se entrega gradativamente ao outro.
5º) Cuida (fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas) do outro. A compaixão esquenta o corpo e particularmente o coração e aciona as mãos para a prática da misericórdia. A solidariedade efetiva conclui o processo da misericórdia.
6°) Faz-se solidário no imediato e no mediato ("E colocando-o sobre o seu próprio animal, o levou a uma pensão, onde cuidou dele"). Dá os primeiros socorros, mas depois encaminha o semimorto para o restabelecimento completo da vida. O samaritano não se contenta com o mínimo de assistência a alguém em perigo, mas dá seu tempo, seu dinheiro e o seu ser, sem calcular. Para ele o dom do dinheiro não é substituto, mas o complemento da ação pessoal. Ele mostra que amar é agir com o coração, é ter coragem.
7º) Deixa o assaltado encaminhado. Foi embora, mas deixou marcas de bondade e saiu marcado positivamente para o resto da vida.
8°) O samaritano soube a hora exata de entrar na vida do outro e soube o momento oportuno para sair da vida do outro. Foi embora. Não deixou o nome e nem endereço. Agindo assim, o samaritano impossibilitou que se criasse vínculo de dependência entre ele e a pessoa semimorta. Logo, ele foi solidário de modo gratuito e libertador.
Frei Gilvander Moreira
membro da Ordem dos Carmelitas
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