O Livro de Deus
Mais de um povo e de uma religião têm seus livros sagrados. São notáveis, por exemplo, os hindus com os seus Vedas, livros famosos por veneranda antiguidade, nos quais se encontram elementos de rara beleza e profundidade espiritual. Mas não passam essas obras de livros humanos, onde, na verdade, brilha a reflexão e a sabedoria de homens iluminados por maravilhosa luz interior. O verdadeiro livro sagrado, porém, esse que faz a verdadeira riqueza do mundo, é a Bíblia, acolhida e venerada por judeus e cristãos, aqueles quanto ao Antigo Testamento, e estes abraçando também o Novo Testamento, sobretudo o Evangelho que é o coração de toda a Bíblia. A Sagrada Escritura, a Bíblia, isto é, “Livro”, por excelência é realmente sagrada. Seu autor é o próprio Deus, que se serviu de autores humanos, de maneira tão discreta, que respeitou neles os seus variados estilos e seu variado grau de cultura, e de maneira tão profunda, que o livro traz realmente o sopro da divindade.
Falamos no "livro" da Bíblia, porém, mais propriamente se deveria falar nos "livros" da Bíblia, uma vez que ela, na verdade, é uma coleção de pequenos livros, pequenos no tamanho, mas infinitos no valor: quarenta e seis do Antigo Testamento e vinte e sete do Novo. São eles o que nossa teologia e nossa fé chama de "livros inspirados por Deus". Testemunha-o a própria Bíblia e testemunham-no os Padres e os Concílios da Igreja.

A Bíblia é o livro mais lido do mundo. O mais estudado. O que mais ricas lições tem para todos os homens, mesmo os que não pertencem à Igreja de Cristo nem ao povo judeu. Até como valor literário, distribuído na beleza do Evangelho, na riqueza da oração dos Salmos, na profundidade do ensinamento dos Profetas, na doutrina dos sábios que escreveram justamente os chamados "Livros Sapienciais", ou mesmo na original narração da gesta do Povo de Deus em toda a sua longa caminhada, a Bíblia é simplesmente maravilhosa. O mais belo livro do mundo! A Igreja o rodeia da mais alta veneração. Para isso foi recentemente incentivada por tudo quando disse o último Concilio Ecumênico, o Vaticano II, que lhe consagrou o seu documento doutrinalmente mais profundo, a Constituição "Dei Verbum", isto é, "A Palavra de Deus".
Celebrando, como celebramos todos os anos em setembro, o "Mês da Bíblia", no último domingo do mês o "dia da Bíblia", vamos sendo motivados a ler com assiduidade, respeito e fé o livro das Palavras de Deus. E vamos descobrindo sempre mais seu valor.
Numa das reflexões do Mês da Bíblia de anos atrás, foi salientado, por exemplo, que a Bíblia é "Deus caminhando com a gente". Desde aqueles capítulos iniciais do Gênesis, que são na Bíblia uma espécie de pré-história sem as características do rigor histórico e mais como meditação sobre a ação de Deus na criação do mundo e do homem até o canto final do Apocalipse, cheio de mistério e de santidade, vamos acompanhando a ação de Deus, a guiar o homem pelos caminhos da verdade e da justiça.
A começar de Abraão, lemos a maravilhosa história dos patriarcas, com os quais Deus fez sua primeira aliança, multiplicando-lhes a descendência como as estrelas do céu e como as areias do mar. Depois da escravidão do Egito, veio Moisés, com toda a maravilha do êxodo e da formação do Povo de Deus no deserto, com a promulgação do Decálogo e a Aliança do Sinai. Depois vieram os Juizes, depois os Reis, a divisão das doze tribos em dois reinos Judá e Israel , o exílio da Babilônia, a volta, a era dos Macabeus, até se chegar ao Novo Testamento. Em todo esse tempo, Deus está com seu povo. Admoestando-os e instruindo-os pelos profetas, suportando e perdoando suas prevaricações e levantando-os sempre para uma nova esperança.
E se preservou o culto ao verdadeiro Deus Javé e se construiu o Templo e se organizou a liturgia e se marcou cada vez mais definitivamente o sentido da presença de Deus no meio de seu povo. A Bíblia, ao lado de suas infinitas páginas sumamente edificantes, traz muitas outras marcadas pela notícia do erro e do pecado. Tudo o que há de bom vem de Deus. Tudo o que há de mal vem do homem. E a presença das sombras dos humano só serve para pôr em maior relevo a ação de Deus em favor do homem, desse homem que Deus veio educando com paciente sabedoria pedagógica, preparando a plenitude dos tempos, a chegada de Cristo.
Com a chegada de Cristo, chegou o Evangelho, chegou a salvação. E chegou a Igreja. Dentro dela nasceram os livros do Novo Testamento. E aí está a Bíblia.
Aberta generosamente na estante da História, ela continua a ser o caminho de Deus conosco, "útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para todas as boas obras", como escreveu São Paulo a seu discípulo Timóteo (2 Tm 4, 16s).
Dom João Resende Costa |