"A crise da esperança”
Sempre tive muito interesse em estudar os hábitos e a cultura do povo Chinês. Considerado um dos povos mais antigos do planeta, os chineses sempre souberam como poucos superar dificuldades e adversidades que a história e o homem impuseram-lhes.
Possuem problemas e defeitos? Certamente que sim. Entretanto, muitas lições utilizadas pela sociedade moderna na solução de problemas importantes são originárias dos chineses e da sua cultura. Vamos, por exemplo, aproveitar um pequeno conceito chinês para fazer uma análise sobre a crise política que estamos vivendo, as suas consequências para a nossa sociedade e a possível saída para esta situação em que nos encontramos.
A palavra "crise" em chinês possui dois significados: O primeiro quer dizer grande perigo e o segundo oportunidade. A palavra é a mesma, entretanto qual destes significados vai pautar a nossa "crise" depende única e exclusivamente de nós. E é exatamente aí que se esconde a grande questão sobre qual o caminho a ser seguido para resolver a atual crise política brasileira.
Sanguessuga, mensalão, propinoduto, lista de Furnas e etc são algumas das expressões que simbolizam o motivo do desencanto e da frustração do brasileiro com a política. Ao que tudo indica essa eleição baterá todos os recordes de abstenção e votos nulos da história do processo político brasileiro. E, infelizmente, esse tipo de atitude somente ajuda aos mandatários envolvidos nos esquemas de corrupção citados acima. Afinal, conforme está na Constituição Federal e no código eleitoral, o voto nulo apenas reduz a quantidade de votos necessários para um parlamentar ser eleito, tanto nas eleições majoritárias (Presidente e Governador) quanto nas proporcionais (Deputados Estaduais e Federais). Qualquer notícia diferente disso, como por exemplo, a possibilidade de se "anular" as eleições anulando o voto, é boato e não passa de "imaginário popular", conforme o próprio Tribunal Superior Eleitoral já explicou em resposta a uma consulta recente. Essa atitude de anular o voto esconde o lado do "perigo" no primeiro significado chinês da palavra crise. Isso porque ao anular o nosso voto, conforme acabamos de ver acima, estaremos passando uma procuração de plenos poderes para que alguém, que provavelmente nem se quer conhecemos, administre a nossa vida. Virar as costas para o processo eleitoral é continuar permitindo que sejamos atropelados pelas conseqüências das atitudes dos picaretas de plantão.
Já o segundo significado chinês da palavra crise nos revela a grande chance que temos de mudar esse cenário todo: A nossa participação. Tudo o que está acontecendo hoje é fruto não apenas do nosso voto, mas da nossa ausência no acompanhamento dos mandatos depois da eleição. Será que temos o hábito de procurar saber o que anda fazendo o nosso representante? Quantos de nós já fizemos uma visita à Assembléia Legislativa do nosso Estado para procurar saber o que os nossos mandatários andam votando e fazendo? E a Câmara Municipal? Será que ninguém nunca reservou um dia da semana durante o horário de almoço para visitá-la e procurar saber qual a agenda de votação? Ou como e quando será votado o orçamento municipal? E os gabinetes dos mandatários? É bom lembrar que todos esses espaços são públicos e deveriam ser alvos de constantes visitas nossas. Até porque, conforme disse Frei Betto, "A política é como cozinhar feijões: Só funciona na pressão".
O nosso envolvimento e a nossa participação é a chave da transformação da nossa sociedade. É claro que as atitudes que caracterizam o pecado da venda de votos, como os centros sociais de saúde, os sacos de cimento por voto, ou qualquer outro tipo de favores eleitorais, precisam ser repudiados e denunciados, pois além de crime (conforme consta na Lei 9.840), essas praticas demonstram bem o perfil do mandatário que as utilizam: Se fazem isso durante as eleições o que farão depois com os mandatos? Entretanto, o que iremos fazer a partir do dia seguinte das eleições para acompanharmos e fiscalizarmos os futuros mandatários é que irá transformar de forma efetiva o retrato da política brasileira.
Somente assim é que teremos o cenário político brasileiro coerente com a definição dada pelo Papa Bento XVI na sua recente encíclica Deus caristas est (cf. n. 28) sobre o principal dever da política: "A justiça é o objetivo e, consequentemente, a medida intrínseca de toda a política". E o fiel católico é convocado para exercitar o amor ao próximo através da ação política.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
PS.: Permita-me apresentar uma boa ferramenta para pesquisarmos um pouco a atuação mandatária dos nossos parlamentares federais. Trata-se do portal Transparência Brasil (http://perfil.transparencia.org.br/). Nele poderemos ver todos os projetos e emendas apresentados pelos nossos represen-tantes em Brasília. Além disso, poderemos também verificar quais as queixas-crime ou processos existentes no Supremo contra cada um deles. Vale a pena acessar e conferir.
Robson Campos Leite
Email: feepolitica@terra.com.br
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