A Bíblia é o "livro da vida". Essa expressão é, às vezes, entendida num sentido muito mistificado, como se Deus falasse na Bíblia e sua palavra alimentasse nossa vida, quase que, automaticamente, por alguma misteriosa transmissão de energia e de conhecimento. Ora, sem reduzir a ação de Deus ao cientificamente explicável, prefiro, na medida do possível, situar sua manifestação naquilo que podemos observar. Não é para isso que serve a "encarnação"?
Se Deus nos fala na Bíblia, isso se dá através de acontecimentos da vida das pessoas. A vida que a Palavra de Deus comunica se encarna nos processos que compõem a vida das mulheres e dos homens que ele criou, naquilo que vivenciamos ou devemos fazer e transmitimos em nosso ensino e tradição. Falar da vida que Deus dá é falar da vida que nós vivemos. Assim sendo, a Bíblia não deixa de falar dos aspectos mais variados de nossa vida, nem sempre mencionando Deus, como no Cântico dos Cânticos, por exemplo.
Os antigos israelitas não tinham universidades. Em compensação, alguns séculos antes de Cristo, começaram a estudar as Escrituras (Sagradas!) nas sinagogas, e o povo judeu gozava de um letramento bem superior aos demais povos do mundo. Não havia manuais de física, de matemática, de retórica etc., embora em caso de utilidade os consultassem junto aos seus contemporâneos gregos e romanos. Para o ensino dos judeus, propriamente, só havia a Bíblia. Tudo o que era preciso saber estava na Sagrada Escritura, devidamente explicada pelos escribas. Nesse sentido, o letramento judaico era sobejamente democrático, pois a sinagoga era para todos. Não por nada o livro do Deuteronômio coloca na boca de Moisés um elogio à Lei como sabedoria incomparável dada por Deus a seu povo:”Guardai os mandamentos e ponde-os em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência diante dos povos. Assim, ao tomarem conhecimento de todas essas leis, dirão: 'Sábia e inteligente é, na verdade, essa grande nação!' Pois qual é a grande nação que tem deuses tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre quando o invocamos? E qual a grande nação que tenha leis e decretos tão justos quanto toda esta Lei que hoje vos proponho?" (Deuteronômio 4, 6-8).
E ainda: "Interroga os tempos antigos antes de ti, desde o dia em que Deus criou o humano sobre a terra. Investiga, de um extremo a outro dos céus, se houve jamais um acontecimento tão grande ou se jamais se ouviu algo semelhante! Existe porventura algum outro povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo?" (Deuteronômio 4, 32-33).
Claro, a consciência de que Deus fala nas palavras do livro não é exclusiva de Israel. E exatamente a mesma atitude que os muçulmanos cultivam em relação ao Alcorão. Quero apenas dizer que, para o judeu piedoso, a Bíblia era o livro da vida, e não em sentido mistificado, como a Bíblia que se encontra nas casas, aberta numa página com gravuras, sem que ninguém jamais a leia. A Bíblia era para eles livro da vida, porque falava da vida, concretamente, sobretudo como memória da experiência do povo e como orientação para sua prática.
Pe. Johan Konings - SJ
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