Carta aos Colossenses (2)
Características da Carta
Pode-se dizer que Cl é um escrito rigorosamente pensado, não só no nível teológico doutrinal como também no plano formal e literário. A Epístola aos Colossenses manifesta certa originalidade com relação às cartas anteriores uma vez que apresenta contributos originais, que consistem fundamentalmente num grande enriquecimento da doutrina acerca da preeminência de Cristo, sobre toda a criação.
Observam-se mudanças de estilo, de vocabulário e pensamento.
Destacam-se as seguintes modificações:
- a exaltação de Cristo assume toda a sua dimensão cósmica;
ele é celebrado como cabeça do universo e das potências, e como cabeça da Igreja;
- o conceito de Igreja se modifica: a idéia de corpo que, em 1 Cor 12, exprimia a unidade na diversidade no seio da comunidade adquire, também ela, uma amplitude universal; mais nitidamente do que em 1 Cor, a Igreja (corpo) é distinta de Cristo (cabeça);
- as categorias espaciais (em cima, embaixo) predominam sobre as categorias temporais e escatológicas. O Reino é situado acima de nós, como realidade que nos domina (1,13; 3,1-4) e não à nossa frente, como realidade vindoura (cf. Mc1,15);
- a teologia do batismo sofre por conseqüência uma notável modificação. Em Rm 6, Paulo exprimia no passado a nossa união à morte de Cristo e no futuro a nossa participação em sua ressurreição; Cl afirma que o batizado morreu e já ressuscitou com Cristo (cf. 2,12);
Paulo tomou algumas palavras utilizadas freqüentemente pelos pregadores das teorias errôneas para desfazer os equívocos. Isto explica a novidade do vocabulário que aparece se se compara com outros escritos anteriores de Paulo.
O teor de Cl é por em relevo o primado absoluto de Jesus Cristo. O Apóstolo, para melhor persuadir seus leitores, recorre a vocábulos da linguagem pré-gnóstica (Cristo é imagem de Deus, 1,15, Plenitude de Deus, 2,9, Plenitude, 2,10; 1,19); recorre também a conceitos técnicos do pensamento judaico (criação, salvação, perdão, Tronos, Soberanias, Principados, Autoridade...), em suma, utiliza 35 palavras que não ocorrem em outros escritos paulinos. O Apóstolo quer apresentar Cristo como a Grande Resposta que os colossenses procuravam. O ponto alto da epístola é precisamente o hino cristológico apresentado em 1,15-20.
A cristologia de Cl é certamente mais evoluída que a das epístolas anteriores; revela o pensamento de Paulo ainda mais perspicaz e amadurecido que em 1/ 2 Cor. Estas duas cartas já preparavam, de certo modo, Cl; cf. 1Cor 8,5s;10,4; 2 cor 5,19.
Ef é por sua vez, a continuação de Cl.
Conteúdo
Com as notícias alarmantes trazidas por Epafras, Paulo pode apreciar a gravidade do assunto e dar-se conta de que se tratava de manifestações de um sistema filosófico-religioso oposto ao cristianismo. Era, com efeito, um prolegómeno do que a partir do século II se conhecerá como o nome de gnosticismo ou gnosis.
Junto às suas doutrinas pregnósticas, judaizantes impunham uma rígida ascética. Davam grande importância a alguns dos preceitos do judaísmo, tais como a observância do sábado, a celebração de certas festas e, sobretudo, a necessidade da circuncisão. Ao mesmo tempo, acrescentavam algumas obrigações derivadas das novas doutrinas. Assim, por exemplo, por considerar má a matéria, preceituavam rigorosos jejuns, a abstenção de determinados alimentos e a obrigação de afastar-se de certos costumes dado o seu caráter material. A missão preponderante quer atribuíam aos espíritos celestiais na criação e governo do mundo, fazia que os honrassem com um culto supersticioso.
Haviam aparecido certas "heresias" dando excessiva importância aos Tronos, Soberanias, Principados, Autoridades que comprometiam a supremacia de Cristo. O núcleo desse erro era constituído pela fé nos "Principados e Autoridades" seres intermediários entre Deus e o homem, que se pensava terem certo poder sobre os homens. A esses poderes cósmicos atribuía-se um culto, com características derivadas dos cultos mistéricos. Há a hipótese de que esses elementos provinham do paganismo vulgar, em substituição aos deuses do paganismo.
A preocupação de Paulo é mostrar o primado absoluto de Cristo.
Ele se tornara, pela sua cruz e seu triunfo sobre a morte, o único Senhor do novo mundo; as Potestades angélicas lhe são necessariamente submissas. Por isso Paulo destaca a preexistência e a mediação única de Cristo.
Havia também uma propaganda em favor de uma espécie de supercristianismo, cujas especulações e observâncias tendem a minimizar o papel de Cristo. O Apóstolo lembra a verdadeira doutrina sobre Cristo e o batismo, ponde em relevo a Sua primazia.
Falsos apóstolos, com tendências judaizantes, influenciados por diversas correntes filosóficas da época impunham certas prescrições sobre a pureza, sobre a observância dos dias de festa, sobre os alimentos: tais prescrições se relacionavam com a Lei judaica, mas o erro não era simplesmente judaico. Tal erro representava uma rejeição do papel de Cristo como único redentor e mediador. Com esses problemas a comunidade de Colossos era ameaçada pelo "sincretismo", pela tendência de colocar no mesmo plano da verdade cristã idéias provenientes de outras filosofias e outras religiões. Ora a Igreja de Colossos era composta de gregos, judeus e de "nativos" da Frígia, que naturalmente permaneciam apegados às suas idéias e queriam incorporá-las ao cristianismo.
Isto parecia à primeira vista isento de perigos, mas Paulo já tinha tido ocasião de se encontrar com esses complexos e errados mundos ideológicos e por isso intui rapidamente que atingindo o coração da fé cristã as conseqüências seriam irreparáveis.
Os judeus-cristãos, procurando manter a circuncisão, suas leis alimentares e suas festas (2,1.16), punham em xeque a própria base da justificação do homem diante de Deus. A idéia dos intermediários angélicos (2,18) era um desafio direto à supremacia de Cristo. Enfim, a introdução do ascetismo e de uma filosofia cheia de si confiavam de novo o homem a si mesmo e à sabedoria humana (2,18-23), não obstante todos os fracassos registrados anteriormente. Paulo não trata desses assuntos ponto por ponto, mas é evidente que eles constituem o pano de fundo de sua carta e do seu tema propriamente dito: os colossenses precisavam retornar de novo a Cristo, à sua supremacia completa e à sua suficiência absoluta.
As dificuldades surgidas em Colossos, como anos antes na Galácia, são ocasião para que Paulo, sob inspiração divina, exponha verdades capitais para o dogma e a moral cristã e especialmente sobre o mistério de Cristo.
Estrutura
Seguindo o modelo das cartas paulinas, também Cl se divide em duas grandes seções: uma de caráter doutrinário-expositivo (caps. 1 e 2) e outra de caráter pratico-exortativa (caps. 3 e 4).
1) Apresentação 1,1-14
1,3-8 - Ação de graças
1,9-11 Oração incessante pela santidade e recebimento dos dons da sabedoria e entendimento para não se deixarem enganar pelos falsos apóstolos
1,12-14 exortação a serem agradecidos pelas maravilhas que Deus opera neles
2) Parte Dogmática Exposição doutrinal 1,15-2,23
1,15-29 Canto à primazia universal de Cristo
1,15-20 Hino Cristológico
1,21-23 Fruto da ação salvífica Dever de perseverar na fé
1,24-29 O desígnio eterno da salvação do todos os homens. O regozijo nos sofrimentos
2,1-23 Defesa da fé. Ensinamento sobre as doutrinas errôneas, advertência contra erros
2,4-8 Prevenção para que não se deixem enganar pelas vãs filosofias
2,9-10 Em Cristo habita a plenitude da divindade corporalmente, porque é ao mesmo tempo Deus e homem verdadeiro. Só Cristo é o verdadeiro chefe dos homens e dos anjos.
2,11-15 Só o Batismo, a "circuncisão de Cristo" tem o poder de nos dar a vida sobrenatural e perdoar os pecados (11-12). Pela morte de Cristo fomos libertados da escravidão do pecado e da Lei e, portanto, já não é necessária a observância dos inumeráveis preceitos que se tinham ido acrescentando ao Decálogo. Convertendo a Lei em impraticável e, portanto, fazendo dela uma ata de condenação para os homens (13-14).
Sublinha que os poderes angélicos, aos quais tanta importância davam aqueles hereges, são muito inferiores a Jesus Cristo (15)
2,16-17 Rígido ascetismo, por meio da abstenção de determinados alimentos e a celebração de algumas festas judaicas
2,18-20 Culto supersticioso aos Anjos
2,21-22 A convicção de que a matéria é má leva-os a não tocar nem provar coisas que em si mesmas são boas, feitas por Deus para o serviço dos homens
3) Conseqüências morais. Reforma de vida. Exortação para a pratica de vida cristã 3,1-4,6
3,1-4 Participação na própria vida de Cristo
3,5-9 Afastamento dos vícios
3,10-15 exercício das virtudes cristãs, principalmente a caridade.
É necessário que Cristo reine nos corações
3,16-17 Importância da meditação e santificação dos acontecimentos pelo amor de Cristo
3,18-4,1 Aplicação da moral cristã a casos concretos da vida doméstica: marido e mulher (18-19) pais e filhos (20-21) senhores e servos (22-23)
4,2-6 Apelo à responsabilidade de cada fiel no trabalho apostólico
4) Conclusão 4,7-18
4,7-9 Informação mais extensa será dada por Tíquico que acompanha Onésimo
4,10-17 - Saudações dos vários companheiros
4,18 O próprio Apóstolo escreve palavras de despedida
Continua no próximo número
Jane do Térsio |