Existem momentos e momentos na vida da gente. Uns se
gravam na memória pelo tamanho da tristeza, outros pelo tamanho da alegria,
tudo tem a ver com seu ponto de vista.
O dia dos pais já passou
e eu posso dizer que este foi um dos melhores da minha vida, talvez o mais adulto,
o mais sereno. Sem muito oba-oba, sem muita agitação, mas completo
de emoção, mesmo que eu não deixe transparecer. Pra começar
passei o domingo dos pais trabalhando, longe de casa e nem da missa dos adolescentes
com meus filhos eu pude participar. Coisa estranha para mim, mas logo de manhã,
antes de ir trabalhar, os dois filhos que ficaram em casa acordaram cedo para
me dar os parabéns; o outro, acho que pela primeira vez, dormiu fora de
casa, pois ia a uma festa e ficou por la mesmo.
Daí eu percebi que
já não sou o dono dos seus caminhos, aquele que depura os acontecimentos
e define o rumo a seguir.
Tipo: te pego tal hora, me liga quando acabar
que eu vou lhe buscar. São sinais dos tempos, meus filhos cresceram e eu
me vejo bastante assustado com essa evolução. Era certo que isso
iria acontecer, mas relutava em reconhecer que era agora. Quando meu filho
Paulinho se despediu no sábado, indo para a tal festa, eu me senti na obrigação
de fazer aquela preleção de praxe, quando todo filho sai de casa.
Talvez se eu fosse um pai moderno eu falaria para ele não esquecer a camisinha
e coisa e tal. Sabe como é: filho dormindo na casa dos outros... e toda
aquela baboseira que se ouve em reunião de homens na esquina. Mas não
foi preciso ir por este caminho, senti meu filho muito adulto, responsável
e ciente de seu lugar. Eu o preveni quanto ao comportamento na casa dos outros
e principalmente para respeitar e ser respeitado. Observar que ele estava em outro
bairro, num lugar desconhecido junto com pessoas desconhecidas. Ao final, dei-lhe
um abraço e reparei que ele já está quase me passando na
altura. Já foi o tempo em que eu os carregava no colo e ouvia deles os
mais variados pedidos, abraçá-los tornou-se coisas de oportunidade,
de momento.
Naquela noite me veio na memória um lance que aconteceu
comigo e com o Paulinho. Estávamos voltando de uma pescaria em Mangaratiba,
ele tinha uns dez anos, já se achava um mocinho e andar abraçado
com o papai era mico. Na Kombi, estávamos juntos no banco da frente, tinha
sido um dia de muita alegria, ele mostrava nos olhos o encantamento de estar junto
comigo e meus amigos e ser o único menino no barco. Pegou no timão
e conduziu a embarcação por muito tempo e isso ficou registrado
em foto; seus olhos brilhavam. Em determinado trecho da viagem notei que ele cochilava
e sua cabeça pendia de um lado para o outro, então, envolvi-o com
meus braços e o apertei bem junto do meu corpo, assim como fazia quando
era um bebê. Ele por instinto também jogou seu braço sobre
meu corpo e fizemos o resto da viagem abraçados e bem juntinhos. Beijei
sua cabeça como há muito não fazia, puxei-o para bem mais
perto e deixei a emoção molhar meus olhos.
Hoje, olhando-os
individualmente, vejo o quanto são meus filhos e o quanto eu os amo. Cada
um tem suas características, cada um tem seu rumo e eu me orgulho muito
da família que tenho e até ai nada de novo, pois já cantei
aqui tudo isso em verso e prosa, diversas vezes, mas só que eles estão
crescendo e mais do que nunca e interação com minha comunidade se
faz importante, acho que nada disso seria real se não tivesse o Loreto
por trás de tudo. Por isso, este dia dos pais foi diferente, já
não existe mais o presentinho que a professora faz na escola, o que existe
é a presença de pessoas quase adultas que se amam e que têm
em comum a responsabilidade de manter unida uma família linda como a sua,
como a de todos vocês. Todos nós temos essa responsabilidade, manter
a família unida.
Ia me esquecendo, nós também brigamos
e muito, pois é difícil ficar ao lado de adolescentes por muito
tempo sem que eles façam alguma "kaka", mas no final, o saldo
é positivo.
P.S. longo Faz muito tempo que um artigo meu não
mexia tanto com as pessoas, este do mês de agosto, falava do nosso preconceito
para com os casais que se separam. Tive medo sim, de tocar neste assunto, pois
envolve muito mais que opinião, envolve sentimentos. As pessoas que me
procuraram, manifestaram sua opinião positiva no sentido de nos policiarmos
um pouco mais e manter os braços abertos a todos, sem exceção.
Não há barreiras para o amor, o estado civil não define a
quem devemos amar mais ou menos. Na verdade não deve haver medida para
amar. Cada um com o seu cada um.
PAULO SOBRINHO E SOLANGE loretando@oi.com.br |