O partido e a sociedade
Recentemente,
durante uma palestra em que abordava o tema "Fé e Política",
um jovem me questionou se não estaria um pouco "fora de contexto"
falar sobre política e cidadania frente a grave crise ética em que
a nossa sociedade, em especial a classe política, estava mergulhada. Essa
pergunta muito me entristeceu. Não somente pela desesperança e desilusão
escondidas atrás da indagação desse jovem, mas principalmente
porque ela foi construída em cima de toda a expectativa em que a chegada
do PT e do atual presidente da república criaram com a sua vitória
em 2002.
O mais triste disso tudo é que essa crise não afeta
somente a história de um partido político que foi concebido sob
a bandeira da ética e da participação popular, mas afeta
principalmente a nossa esperança de mudarmos um sistema político
corrompido há muitas décadas e que chegou a ter uma "morte
presumida" com a vitória do atual presidente da república.
Se
tentarmos analisar a origem do problema, perceberemos que o estado brasileiro
sempre foi excludente e elitista. Os interesses desta elite política que
comanda o nosso país sempre foram voltados para garantir a manutenção
dos seus privilégios, mesmo que para isso fosse preciso pagar o preço
do aumento da miséria, da fome e da profunda exclusão social em
que boa parte da nossa população está mergulhada. E a corrupção,
endêmica em nosso País principalmente com o trato da coisa pública,
torna-se um dos principais instrumentos para a perpetuação desse
sistema.
O grande erro do PT foi trocar o projeto de transformação
da sociedade através da participação popular por um projeto
de poder a qualquer preço. E isso não aconteceu agora, já
vem de algum tempo. Esse projeto de participação popular que aprendemos
a chamar de "cidadania ativa" era, sem sombra de dúvidas, o grande
agente responsável pelo melhor combate que poderíamos fazer à
corrupção e, conseqüentemente, a injustiça social. Ele
atacava diretamente a origem do problema, fazendo com que o cidadão comum
se transformasse em fiscalizador e incentivador do processo político como
um todo. O poder seria algo irrelevante, uma vez que ele seria reflexo da "politização"
cada vez maior da nossa sociedade. Hoje o que vemos são as terríveis
justificativas de que "os meios justificam os fins". Entretanto,
conforme podemos perfeitamente acompanhar no dia-a-dia dos jornais, isso não
é verdade.
Todo o cenário em que passamos hoje é conseqüência
da falta de representatividade popular nas relações políticas
do nosso País. E essa realidade somente poderá ser transformada
quando nós, cidadãos de bem e cristãos conscientes, entendermos
que é a nossa ausência que permite que aconteçam os grandes
esquemas de corrupção que vem há décadas (ou talvez
há séculos) maculando a história do Brasil. A nossa participação
através dos grupos de Fé e Política, das Associações
de Bairros e dos Conselhos Municipais não pode ser tão restrita
como é hoje. Precisamos lutar com todas as forças para impedir
que o sentimento de desesperança, tão alimentado pelo interesse
de alguns que levantam hoje a bandeira do "quanto pior, melhor", vença
essa batalha. Para isso, eu deixo aqui a reflexão da passagem dos discípulos
de Emaús (Lc 24, 13-34), quando dois discípulos, desesperançados
e tristes pelos acontecimentos da morte de Jesus, nem sequer conseguiram perceber
que o próprio Cristo caminhava ao lado deles consolando-os e mostrando-lhes
o verdadeiro caminho. Essa é a saída, meus irmãos. Precisamos
aproveitar essa oportunidade histórica e levantarmos a bandeira da participação
popular e do coletivismo para implantar de uma vez por toda o tão sonhado
Bem-Comum. Somente assim conseguiremos ter uma sociedade mais justa, fraterna
e conseqüentemente Cristã.
Um forte abraço a todos e
a Paz de Cristo! Robson Campos Leite Email : feepolitica@terra.com.br ::>
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