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Fé e Política|SETEMBRO

“O partido e a sociedade”

Recentemente, durante uma palestra em que abordava o tema "Fé e Política", um jovem me questionou se não estaria um pouco "fora de contexto" falar sobre política e cidadania frente a grave crise ética em que a nossa sociedade, em especial a classe política, estava mergulhada. Essa pergunta muito me entristeceu. Não somente pela desesperança e desilusão escondidas atrás da indagação desse jovem, mas principalmente porque ela foi construída em cima de toda a expectativa em que a chegada do PT e do atual presidente da república criaram com a sua vitória em 2002.

O mais triste disso tudo é que essa crise não afeta somente a história de um partido político que foi concebido sob a bandeira da ética e da participação popular, mas afeta principalmente a nossa esperança de mudarmos um sistema político corrompido há muitas décadas e que chegou a ter uma "morte presumida" com a vitória do atual presidente da república.

Se tentarmos analisar a origem do problema, perceberemos que o estado brasileiro sempre foi excludente e elitista. Os interesses desta elite política que comanda o nosso país sempre foram voltados para garantir a manutenção dos seus privilégios, mesmo que para isso fosse preciso pagar o preço do aumento da miséria, da fome e da profunda exclusão social em que boa parte da nossa população está mergulhada. E a corrupção, endêmica em nosso País principalmente com o trato da coisa pública, torna-se um dos principais instrumentos para a perpetuação desse sistema.

O grande erro do PT foi trocar o projeto de transformação da sociedade através da participação popular por um projeto de poder a qualquer preço. E isso não aconteceu agora, já vem de algum tempo. Esse projeto de participação popular que aprendemos a chamar de "cidadania ativa" era, sem sombra de dúvidas, o grande agente responsável pelo melhor combate que poderíamos fazer à corrupção e, conseqüentemente, a injustiça social. Ele atacava diretamente a origem do problema, fazendo com que o cidadão comum se transformasse em fiscalizador e incentivador do processo político como um todo. O poder seria algo irrelevante, uma vez que ele seria reflexo da "politização" cada vez maior da nossa sociedade. Hoje o que vemos são as terríveis justificativas de que "os meios justificam os fins".
Entretanto, conforme podemos perfeitamente acompanhar no dia-a-dia dos jornais, isso não é verdade.

Todo o cenário em que passamos hoje é conseqüência da falta de representatividade popular nas relações políticas do nosso País. E essa realidade somente poderá ser transformada quando nós, cidadãos de bem e cristãos conscientes, entendermos que é a nossa ausência que permite que aconteçam os grandes esquemas de corrupção que vem há décadas (ou talvez há séculos) maculando a história do Brasil. A nossa participação através dos grupos de Fé e Política, das Associações de Bairros e dos Conselhos Municipais não pode ser tão restrita como é hoje.
Precisamos lutar com todas as forças para impedir que o sentimento de desesperança, tão alimentado pelo interesse de alguns que levantam hoje a bandeira do "quanto pior, melhor", vença essa batalha. Para isso, eu deixo aqui a reflexão da passagem dos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-34), quando dois discípulos, desesperançados e tristes pelos acontecimentos da morte de Jesus, nem sequer conseguiram perceber que o próprio Cristo caminhava ao lado deles consolando-os e mostrando-lhes o verdadeiro caminho. Essa é a saída, meus irmãos. Precisamos aproveitar essa oportunidade histórica e levantarmos a bandeira da participação popular e do coletivismo para implantar de uma vez por toda o tão sonhado Bem-Comum. Somente assim conseguiremos ter uma sociedade mais justa, fraterna e conseqüentemente Cristã.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br

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