1ª Carta aos Coríntios (3) A Eucaristia
Em
dois momentos da carta, o Apóstolo apresenta aspectos doutrinais acerca
da Eucaristia: primeiro, incidentalmente, ao explicar que os cristãos não
podem participar nos banquetes dos santuários pagãos (cf 10,14-22);
e a seguir, ao corrigir os abusos que se tinham introduzido em Corinto nas celebrações
eucarísticas (cf 11,17-32). Nestes dois textos estão contidas verdades
fundamentais relativamente à Eucaristia: a) sua instituição
pelo próprio Cristo; b) o seu caráter sacrificial; c) a presença
real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho; d) as relações
entre o corpo sacramental do Senhor e o Seu Corpo místico, que é
a Igreja.
Em primeiro lugar, Paulo ensina claramente a instituição
da Eucaristia pelo próprio Cristo. Em segundo lugar, que a Eucaristia não
é só sacramento, mas também sacrifício. Com efeito,
contrapõe-se a Eucaristia aos sacrifícios pagãos. A razão
pela qual não é lícito para os cristãos participar
nestes baseia-se em que são sacrifícios idolátricos, incompatíveis
com o sacrifício da Eucaristia, que é oferecido ao Deus verdadeiro.
A Santa Missa, oferecida diariamente na Igreja segundo o mandato do Senhor, perpetua
o único sacrifício de Cristo na cruz. Em terceiro lugar, Paulo afirma
a presença real de Cristo sob as espécies sacramentais e a exigência
de fazer exame antes de comungar.
Finalmente, no que se refere às
relações entre Eucaristia Corpo sacramental de Cristo e a Igreja
- corpo místico de Cristo, a afirmação de Paulo é
clara: "Por ser um só pão, nós, que somos muitos, constituímos
um só corpo, visto participarmos todos do único pão"
(10,17). Deste modo nos tornamos todos membros desse corpo (cf 12,27).
A
Ressurreição dos mortos
Para os cristãos de Corinto
se tornava difícil aceitar a ressurreição dos mortos. Esta
verdade da fé chocava fortemente com o pensamento grego.
A Ressurreição
de Cristo
Respondendo às dúvidas que tinham surgido,
Paulo trata em primeiro lugar do fato histórico da ressurreição
de Cristo. O seu testemunho, escrito a menos de trinta anos depois da Ressurreição,
é de suma importância. Tal como a Eucaristia, trata-se de uma doutrina
que faz parte, desde o primeiro momento, da Tradição apostólica:
"transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu mesmo recebi" (15,3).
A
morte, sepultura e ressurreição de Cristo foi também o ponto
fundamental e primário da pregação de Paulo em Corinto.(cf
15,3-4). O Apóstolo oferece uma longa lista de testemunhas do Ressuscitado:
Pedro, Tiago, todos os Apóstolos e quinhentos irmãos, dos quais
ao escrever-se esta carta a maior parte ainda estão vivos e podem dar fé
do que viram (cf 15,8).
Mas a ressurreição de Cristo não
é só um fato histórico, mas também um mistério.
Cristo é chamado "as primícias" (cf 15,20) dos ressuscitados.
Porque embora seja certo que houve alguns que ressuscitaram antes de Cristo, por
exemplo, Lázaro, o filho da viúva de Naim, filha de Jairo, estes
contudo reviveram todos com a condição de morrer pelas segunda vez;
mas "Cristo ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais,
a morte já não tem domínio sobre Ele" (Rm 6,9).
A
Ressurreição de Cristo, fundamento da nossa fé - a ressurreição
de Cristo constitui o fundamento firme da nossa fé. Com efeito, entre
todos os milagres realizados pelo Senhor o da Sua própria ressurreição
é a prova mais concludente da Sua divindade. O Senhor falou muitas vezes
da Sua Ressurreição (cf Mt 16,21; 17,22) e quase nunca conversou
com os Seus discípulos da Sua Paixão sem mencionar ao mesmo tempo
a Sua Ressurreição.
Paulo adverte aos Coríntios, "se
Cristo, não ressuscitou, então é vã a nossa pregação,
e vã também a nossa fé" (15,14.17). A fé dos
cristãos é a Ressurreição de Cristo. Isto é
o que temos por coisa grande: o crer que ressuscitou. Por isso, só se Cristo
vive, a nossa fé n'Ele tem sentido; só então tem poder de
nos salvar; só então os sacramentos administrados em Seu nome têm
valor.
A Ressurreição de Jesus, causa da nossa ressurreição
- a ressurreição de Cristo não é somente o fundamento
da nossa fé, mas também o da esperança que temos na nossa
própria ressurreição. "Porque, tendo ressuscitado Cristo
temos esperança certa de que também nós ressuscitaremos,
visto que é forçoso que os membros sigam a condição
da sua cabeça" (Catecismo Romano 1,6.12).
A ressurreição
do Senhor é a causa eficiente da nossa. Paulo explica esta realidade mediante
a imagem das primícias (cf 15,20.23) e sobretudo mediante o paralelismo
antitético entre Cristo e Adão: porque, tendo vindo por um homem
a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos.
Outros
temas
A pureza moral decorre do fato de que o cristão é
membro de Cristo, constitui um só espírito com Cristo à semelhança
de esposo e esposa, que entre si constituem uma só carne (6,15-17). É
por isso que os cristãos devem fazer do seu corpo o reflexo da glória
de Deus, que neles habita (6,19s).
A diversidade de dons é explicada
e regrada dentro da perspectiva do Corpo de Cristo: os dons individuais de cada
um devem estar a serviço da comunidade; as múltiplas atribuições
devem-se adaptar umas às outras para preencherem sua finalidade: o maior
bem do Corpo (12,1-31; 14,1-40). Neste contexto, a caridade, que congrega todos
na unidade, aparece como o dom por excelência.
A "tradição":
repetidas vezes, Paulo recorre àquilo que ele mesmo "recebeu",
para "transmiti-lo" aos seus leitores (11,2.23; 15,3; cf 7,10).
Textos
seletos
Além das diversas citações feitas no decorrer
de texto ponho em destaque as seguintes:
Instituição da Eucaristia
Dentre os quatro textos do Novo Testamento que nos relatam este fato (cf Mt 26,26-29;
Mc 14,22-25; Lc 22,14-15), este é o mais antigo, pois data do ano 57. Por
outro lado, o Apóstolo recorda aqui aos Coríntios algo que já
lhes tinha transmitido durante a sua primeira estada entre eles, isto é,
entre os anos 50-52. Mais ainda, ao dizer "eu recebi... o que também
vos transmiti" (11,23), o próprio Paulo indica que a sua doutrina
remonta aos mesmos inícios da Igreja.
Há uma especial afinidade
entre o relato desta carta e o de Lucas: só eles conservaram o mandato
de Cristo de repetir em Sua memória o que fez na Última Ceia (Lc
22,19;1 Cor 11,24-25), mandato que indica expressamente a instituição
do sacerdócio cristão. "Todas as vezes que celebramos o memorial
deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa redenção"
(Missal Romano) Hino à Caridade - nesta carta encontra-se um canto ao
amor cristão de uma beleza e profundidade dificilmente superáveis.
A caridade é um dom tão excelente, que sem ela os outros dons perdem
a sua razão de ser. O amor, a caridade de que fala Paulo, nada tem a ver
com o desejo egoísta de posse sensível ou passional; nem tão
pouco se limita à mera filantropia, que nasce de razões humanitárias;
trata-se de um amor dentro da nova ordem estabelecida por Cristo, cuja origem,
conteúdo e fim são radicalmente novos: nasce do amor de Deus aos
homens, tão intenso que lhes entregou o Seu Filho Unigênito (Jo 3,16).
Que
os ensinamentos desta Carta nos dêem coragem pra testemunharmos o verdadeiro
Amor aos que hoje convivem conosco.
Continua no próximo número
Jane
do Térsio |