CRISTO REDENTOR (3) - A Palavra
A intuição sapiencial chegou a ver no homem a imagem
e a semelhança do Criador (Gn 1,26s). Por ter sido suscitado
por Deus, nele havia, além da imagem, a sua semelhança
também. O ser, que torna o homem imagem de Deus, enquanto participado
à criatura, fazia com que o ser da Divindade fosse o ser dela,
distinguindo-se a criatura do seu Criador somente pelo fato de ter
sido chamada à existência; as prerrogativas, que fazem
o homem semelhante ao seu Criador, revelavam, por analogia e sublimação,
qual era a natureza da vida de Deus. Partindo dessa base, o sábio
hebreu pôde falar de Deus numa linguagem antropomórfica.
A consciência que o homem tem de si, revela que, em Deus, há
uma realidade que, por ser própria daquele que é a Existência,
pode ser concebida como Hipóstase. É aquilo que descobrimos
de Deus, de forma clara, a partir do momento em que Jesus se declara
o "Eu sou", o Filho que está no Pai enquanto o Pai
está nele, porque ele e o Pai são uma única realidade.
A realidade transcendente do Criador que, por si, postula uma pluralidade
de hipóstases, em virtude da figura do homem que o sábio
intuíra imagem e semelhança de Deus, encontra, pela
revelação de Cristo Jesus, a sua precisa explicação.
As hipóstases do Criador são o Pai, o Filho e o Espírito.
A unicidade de Deus, conhecida, agora, na pluralidade das hipóstases,
é revelada segundo a riqueza da sua vida a partir do momento
em que Jesus nos fala que é o Filho, o Unigênito que
o Pai consagrou e enviou ao mundo e que o Espírito é
o Amor, a própria vida de Deus. Não há contradição
entre Unicidade e Trindade Santa. Aliás, é a Trindade
santa que explica a natureza transcendente do Criador e como, na criatura,
de fato, ela possa ser vista na sua imagem e semelhança.
Quando a Palavra, que é a Consciência que Deus tem de
si, assume a imagem e semelhança do Criador, isto é
a condição humana, pela própria natureza assumida
se torna a condição máxima da comunicação
de Deus aos homens. Jesus é Aquele que o homem pode definir,
tomando como analógico o pensamento que está nele, Aquele
que, em Deus, é o pensamento de Deus, a Imagem da sua substância,
o Resplendor da sua Glória, a sua Sabedoria. É por isso
que Jesus diz ser aquele que viu e conheceu a Deus, aquele que dele
pode dar testemunho, revelar fielmente a vontade e os sentimentos.
Jesus, enquanto Palavra no seio do Pai, voltada para o Pai, é
a própria Sabedoria de Deus que age na criação
como Princípio: "Eu sou o Amém, a Testemunha verdadeira,
o Princípio da criação de Deus" (Ap 3,14).
Quando Deus a fala (Gn 1,3), a Palavra que sai da sua boca (Is 55,10s)
realiza todas as coisas (Pv 8, 22.30).
É com essa preciosa figura que se abre a Escritura. Interpretada
à luz de Cristo Jesus, como fez João no seu prólogo,
torna-se extremamente esclarecedora quanto à natureza divina
do nosso Redentor.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) De que forma a intuição do sábio hebreu
nos permite falar do nosso Redentor como Palavra que sai da boca do
Pai?
2ª) Quando Jesus nos revela claramente que em Deus existe uma
Vida Trinitária?
3ª) Quais são os outros títulos divinos que ilustram
a vida de Jesus Cristo em Deus?
Pe Fernando Capra - CRSP |