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Fé e Política | SETEMBRO


A CRISE DA ÉTICA

Se fosse realizada uma pesquisa entre os cidadãos brasileiros sobre quais seriam os maiores problemas do nosso país, duas questões provavelmente saltariam aos olhos: A corrupção e a má distribuição de renda. Vamos analisar estes dois problemas sociais brasileiros na coluna deste mês.

A questão da ética vem preocupando a nossa Igreja da América Latina (e especialmente o Brasil) há muito tempo. O documento da CNBB de número 50 foi originado na 31ª Assembléia Geral dos Bispos em Itaici-SP (1993) e as suas constatações são tão atuais que assustam. Os apontamentos colocados pelos Bispos neste documento e os seus impactos na sociedade são a triste percepção da imensa crise ética em que o País está mergulhado. Crise ética que somente ajuda àqueles que estão na vida pública a se beneficiarem. Digo isso porque para essas pessoas, "quanto pior, melhor". E é fácil perceber isso quando dizemos coisas do tipo: "Não adianta, as pessoas que lá estão só querem o seu benefício próprio", ou pior ainda: "Não existe político honesto. Todos estão lá para se beneficiarem". Essas afirmações nos alienam e tornam o processo de participação do cidadão na política algo inatingível. E o problema só tende a piorar quando observamos as discussões do nosso dia-a-dia. Frases do tipo "Quem pode, pode" ou ainda "é dando que se recebe" retratam com fidelidade o estabelecimento das relações reinantes em nosso País. Quantas vezes percebemos pessoas utilizando essas frases no trabalho, na igreja e na faculdade e quase sempre concordamos ou nos omitimos? Como iremos construir um País melhor se não conseguimos perceber a diferença entre "Direitos e Privilégios"?

Outro ponto fundamental da crise ética é a forma como a sociedade atual prioriza o "eu". Somos constantemente impulsionados pela mídia e pela sociedade para colocar o nosso prazer em primeiro lugar. O outro pouco importa. Um belo exemplo para a nossa reflexão é a propaganda de cigarros reinante na década de 80 e 90: "O seu prazer em primeiro lugar". Essa, definitivamente, não foi a mensagem de Cristo. Não podemos ser produtos do meio. Somos e seremos sempre dotados de senso crítico e precisamos questionar sempre se o que vemos, lemos e compramos de uma maneira geral é bom para todos. Muito me entristece quando vejo as músicas atuais invadindo as televisões das nossas famílias. Duplo sentido já é coisa ultrapassada. O que temos agora é sentido direto mesmo. O mais triste disso tudo é que ninguém consegue entender o porquê do aumento considerável da quantidade de adolescentes grávidas. Adolescentes essas, que são cada vez mais erotizadas, em nossas músicas, novelas, filmes e etc. Isso tudo é fruto direto da crise ética.

O outro ponto que eu gostaria de abordar neste mês é a questão da má distribuição da renda. Esse problema é constatado com uma simplicidade e unanimidade que chega a preocupar. Qualquer cidadão sabe hoje que a distribuição de renda no Brasil é uma das mais injustas do mundo. Inclusive, vale destacar que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) coloca o Brasil como um dos piores da América Latina e que esta posição foi amplamente agravada nos últimos 10 anos. Porém, não é esta a maior preocupação: O problema está na solução dele. Como podemos solucionar o problema da distribuição de renda no Brasil? A resposta parece óbvia: Distribuindo a renda, certo? Mas qual renda? A do vizinho? A nossa? Ou vamos ter que esperar o "bolo crescer" como estamos esperando a pelo menos 12 anos para que possamos partilhá-lo? Enquanto esperamos, a miséria aumenta, a criminalidade dispara no País, o narcotráfico ganha cada vez mais espaço e a corrupção se solidifica em cima da sua pedra fundamental que é a impunidade. No meio de todo esse caos, aqueles "que podem" moram em condomínios de luxo, blindam carros, contratam seguranças e se "isolam" (ou se iludem que se isolam) dos problemas acentuados pela má-distribuição de renda em nosso País. E aí amigo leitor? A decisão está em nossas mãos. O que queremos para o País dos nossos filhos?

PS.: Não poderia deixar de mencionar a bela atitude tomada por 15 parlamentares ao devolverem para a União os R$ 25.400,00 relativos ao comparecimento à convocação para votação das reformas no período de recesso em Brasília. Não pelo dinheiro em si (R$ 381.000,00) mas pelo simbolismo ético do gesto. Se eles estão trabalhando para acabar com os "privilégios", que sejam os primeiros a dar exemplo. Aí vai a lista completa:
Antônio Carlos Biscaia, Chico Alencar e Fernando Gabeira (RJ); Orlando Fantazzini, Vicentinho e Luciano Zica (SP); Orlando Desconsi e Henrique Fontana (RS);Cláudio Vignatti, Jorge Boeira e Mauro Passos (SC); Doutor Rosinha (PR); Paulo Rubem (PE); Serys Slhessarenko (MT); Walter Pinheiro (BA). Se o seu deputado ou senador não está nesta lista, que tal mandar um e-mail ou carta para ele? Quem sabe assim, os outros 499 deputados federais e 80 senadores não se sintam "pressionados" em fazer o mesmo?

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email: feepolitica@terra.com.br

 
 
VEJA NO MÊS DE SETEMBRO/2003:

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