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A CRISE DA ÉTICA
Se fosse realizada uma pesquisa entre os cidadãos brasileiros
sobre quais seriam os maiores problemas do nosso país, duas
questões provavelmente saltariam aos olhos: A corrupção
e a má distribuição de renda. Vamos analisar
estes dois problemas sociais brasileiros na coluna deste mês.
A questão da ética vem preocupando a nossa Igreja
da América Latina (e especialmente o Brasil) há muito
tempo. O documento da CNBB de número 50 foi originado na
31ª Assembléia Geral dos Bispos em Itaici-SP (1993)
e as suas constatações são tão atuais
que assustam. Os apontamentos colocados pelos Bispos neste documento
e os seus impactos na sociedade são a triste percepção
da imensa crise ética em que o País está mergulhado.
Crise ética que somente ajuda àqueles que estão
na vida pública a se beneficiarem. Digo isso porque para
essas pessoas, "quanto pior, melhor". E é fácil
perceber isso quando dizemos coisas do tipo: "Não adianta,
as pessoas que lá estão só querem o seu benefício
próprio", ou pior ainda: "Não existe político
honesto. Todos estão lá para se beneficiarem".
Essas afirmações nos alienam e tornam o processo de
participação do cidadão na política
algo inatingível. E o problema só tende a piorar quando
observamos as discussões do nosso dia-a-dia. Frases do tipo
"Quem pode, pode" ou ainda "é dando que se
recebe" retratam com fidelidade o estabelecimento das relações
reinantes em nosso País. Quantas vezes percebemos pessoas
utilizando essas frases no trabalho, na igreja e na faculdade e
quase sempre concordamos ou nos omitimos? Como iremos construir
um País melhor se não conseguimos perceber a diferença
entre "Direitos e Privilégios"?
Outro ponto fundamental da crise ética é a forma como
a sociedade atual prioriza o "eu". Somos constantemente
impulsionados pela mídia e pela sociedade para colocar o
nosso prazer em primeiro lugar. O outro pouco importa. Um belo exemplo
para a nossa reflexão é a propaganda de cigarros reinante
na década de 80 e 90: "O seu prazer em primeiro lugar".
Essa, definitivamente, não foi a mensagem de Cristo. Não
podemos ser produtos do meio. Somos e seremos sempre dotados de
senso crítico e precisamos questionar sempre se o que vemos,
lemos e compramos de uma maneira geral é bom para todos.
Muito me entristece quando vejo as músicas atuais invadindo
as televisões das nossas famílias. Duplo sentido já
é coisa ultrapassada. O que temos agora é sentido
direto mesmo. O mais triste disso tudo é que ninguém
consegue entender o porquê do aumento considerável
da quantidade de adolescentes grávidas. Adolescentes essas,
que são cada vez mais erotizadas, em nossas músicas,
novelas, filmes e etc. Isso tudo é fruto direto da crise
ética.
O outro ponto que eu gostaria de abordar neste mês é
a questão da má distribuição da renda.
Esse problema é constatado com uma simplicidade e unanimidade
que chega a preocupar. Qualquer cidadão sabe hoje que a distribuição
de renda no Brasil é uma das mais injustas do mundo. Inclusive,
vale destacar que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
coloca o Brasil como um dos piores da América Latina e que
esta posição foi amplamente agravada nos últimos
10 anos. Porém, não é esta a maior preocupação:
O problema está na solução dele. Como podemos
solucionar o problema da distribuição de renda no
Brasil? A resposta parece óbvia: Distribuindo a renda, certo?
Mas qual renda? A do vizinho? A nossa? Ou vamos ter que esperar
o "bolo crescer" como estamos esperando a pelo menos 12
anos para que possamos partilhá-lo? Enquanto esperamos, a
miséria aumenta, a criminalidade dispara no País,
o narcotráfico ganha cada vez mais espaço e a corrupção
se solidifica em cima da sua pedra fundamental que é a impunidade.
No meio de todo esse caos, aqueles "que podem" moram em
condomínios de luxo, blindam carros, contratam seguranças
e se "isolam" (ou se iludem que se isolam) dos problemas
acentuados pela má-distribuição de renda em
nosso País. E aí amigo leitor? A decisão está
em nossas mãos. O que queremos para o País dos nossos
filhos?
PS.: Não poderia deixar de mencionar a bela atitude tomada
por 15 parlamentares ao devolverem para a União os R$ 25.400,00
relativos ao comparecimento à convocação para
votação das reformas no período de recesso
em Brasília. Não pelo dinheiro em si (R$ 381.000,00)
mas pelo simbolismo ético do gesto. Se eles estão
trabalhando para acabar com os "privilégios", que
sejam os primeiros a dar exemplo. Aí vai a lista completa:
Antônio Carlos Biscaia, Chico Alencar e Fernando Gabeira (RJ);
Orlando Fantazzini, Vicentinho e Luciano Zica (SP); Orlando Desconsi
e Henrique Fontana (RS);Cláudio Vignatti, Jorge Boeira e
Mauro Passos (SC); Doutor Rosinha (PR); Paulo Rubem (PE); Serys
Slhessarenko (MT); Walter Pinheiro (BA). Se o seu deputado ou senador
não está nesta lista, que tal mandar um e-mail ou
carta para ele? Quem sabe assim, os outros 499 deputados federais
e 80 senadores não se sintam "pressionados" em
fazer o mesmo?
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite
Email: feepolitica@terra.com.br
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