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Na última Assembléia dos bispos do Brasil, em Itaici,
foram aprovadas as novas "Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora da Igreja no Brasil", para o período
que vai de 2003 a 2006.
Essas diretrizes são o fundamento que deve orientar todas
as dioceses e paróquias, ao elaborarem seus planejamentos
locais. O próprio documento pede uma "recepção
criativa", ou seja, cada comunidade deve adaptar essas diretrizes
à sua realidade local, conservando porém o espírito
e a meta comum, que é a Evangelização, e cuja
eficácia depende de saber conservar a unidade, dentro de
uma sadia diversidade. Para isso, pede-se que cada comunidade promova
estudos e reflexões sobre as orientações nele
contidas, o que já vem sendo feito nas paróquias de
nossa diocese.
As Diretrizes são renovadas a cada 4 anos, para que possam
estar sempre atualizadas, de acordo com a realidade concreta e as
necessidades pastorais específicas do contexto vivido por
nossas comunidades. Estão em linha de continuidade com as
anteriores, ou seja, não pretendem anular o trabalho anteriormente
feito, mas são fruto desse trabalho, que nos permite aprender
com a experiência e crescer sempre mais na missão evangelizadora.
Ao mesmo tempo, a Igreja no Brasil procura estar sempre em sintonia
com a Igreja universal e com as orientações do Papa.
As novas diretrizes inspiram-se na encíclica Novo millenio
ineunte - na qual o Papa aponta os rumos que devem nortear a caminhada
da Igreja neste novo milênio que começa - e também
nos documentos do Concílio Vaticano II, além da Evangelii
nuntiandi, de Paulo VI, e o documento de Puebla.
O objetivo geral das Diretrizes pode ser resumido numa palavra,
que é a própria missão que Jesus confiou à
sua Igreja, ao enviar os apóstolos pelo mundo: EVANGELIZAR.
Essa é a razão de ser da Igreja no mundo: anunciar
a Boa Nova da Salvação, para que todas as pessoas
possam conhecer e amar a Jesus Cristo, que é o Caminho, a
Verdade e a Vida. Esse conhecimento, que nos leva à santidade,
deve ser feito por meio do serviço, diálogo, anúncio
e testemunho de comunhão, promovendo a dignidade da pessoa
e renovando a comunidade, contribuindo assim para a construção
de uma sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo.
O documento lembra que o destinatário da Boa Nova é
sempre a pessoa humana, "com suas pobrezas e carências,
mas também com sua dignidade intocável". Esse
enfoque vem ao encontro do contexto cultural que vivemos hoje, uma
sociedade globalizada e consumista que massifica e despersonaliza
as pessoas. Sobretudo no ambiente urbano (que é a realidade
da maioria da população), percebe-se nas pessoas um
forte anseio de ser elas mesmas, de cultivar uma personalidade própria
que fuja aos padrões estabelecidos, de ser valorizadas por
aquilo que são. Mas como, de modo geral, não encontram
valores estáveis e seguros pelos quais possam guiar-se, essas
pessoas - especialmente os jovens - sentem-se perdidas, desorientadas,
com dificuldade para definir sua personalidade e seu objetivo de
vida, preferindo concentrar-se na procura por satisfações
imediatas e passageiras, recusando comprometer-se e investir no
futuro. Isso se reflete também na vivência religiosa,
com a recusa das tradições e dos padrões estabelecidos,
dando-se preferência a uma religião descompromissada
e adaptada ao gosto de cada um, na qual se aceita algumas coisas
e se rejeita outras. A sociedade de hoje se caracteriza por um forte
sentimento de religiosidade, mas trata-se de uma fé indefinida,
sem regras, às vezes sem nenhuma prática, e às
vezes misturando práticas de diferentes correntes e propostas
religiosas.
É dentro desse contexto que precisamos, hoje, anunciar a
mensagem salvadora do Evangelho, em toda a sua radicalidade. E as
Diretrizes nos apresentam as pistas de ação para que
possamos caminhar rumo a esse objetivo.
A porta de entrada é a ACOLHIDA. Nossa Igreja precisa ser
acolhedora, fazer com que as pessoas se sintam "gente",
sejam ouvidas, sintam-se valorizadas, compreendidas e amadas. Para
isso, é necessário investir nas pequenas comunidades
onde todos se conheçam e tenham seu espaço, fugir
da Igreja "de massa", proporcionar oportunidades para
uma vivência comunitária realmente fraterna e participativa,
onde se viva o amor, o serviço, a partilha dos dons e da
oração. É o contato com o outro que nos permite
conhecer a nós mesmos e construir nossa identidade. Dentro
desse objetivo, é muito importante a valorização
dos ministérios leigos, fugindo de uma estrutura eclesial
exclusivamente centrada na paróquia e no clero, já
que o número de padres é insuficiente para atender
satisfatoriamente a toda a comunidade.
O documento nos mostra como promover uma evangelização
autêntica e eficaz (que traga mudança de vida) em relação
a cada um dos três aspectos fundamentais do processo evangelizador:
o ministério da Palavra, da Liturgia e da Caridade.
A Palavra é o fundamento de toda a missão da Igreja,
e deve-se dedicar grande atenção e cuidado a todas
as formas pelas quais o anúncio é feito: a catequese
em todas as suas modalidades, a proclamação da Palavra
na Missa, a formação bíblica, etc.
A Liturgia envolve os sacramentos - com destaque para a Eucaristia
- e as exigências concretas da vida de fé, ou seja,
as delicadas questões morais, que devem ser tratadas com
muita compreensão e caridade, considerando a realidade concreta
com a qual convivem as pessoas no mundo de hoje, e que se opõe
radicalmente aos valores cristãos. É preciso apresentar
o caminho da fé como resposta libertadora para as escravidões
que o mundo nos impõe, como caminho para a plenitude que
todos buscam, como segurança que não engana, em oposição
ao contexto de insegurança, violência e medo que nos
cerca.
O ministério da Caridade diz respeito, mais especificamente,
à comunhão fraterna, à ação solidária
em favor dos mais necessitados e sofredores, "para que todos
tenham vida", sem esquecer de atender também às
novas formas de pobreza que encontramos hoje: drogas, Aids, prostituição,
desemprego, depressão, e as necessidades dos idosos, dos
deficientes, ou dos grupos étnicos discriminados, como os
negros e índios. Para cada um desses campos o documento apresenta
sugestões concretas de ação, e salienta a importância
da conscientização e participação política,
como instrumento indispensável de transformação
e evangelização da sociedade.
Todas as propostas de ação são colocadas em
três planos: a pessoa, a comunidade e a sociedade. Partem
dos desafios que encontramos hoje em cada um desses planos, mostram
a visão cristã diante dessas realidades, e apresentam
por fim as pistas de ação, sempre dentro das quatro
exigências que devem estar presentes em qualquer ação
evangelizadora: serviço, diálogo, anúncio e
testemunho. O anúncio é o centro e o conteúdo
da mensagem cristã, mas só se faz compreensível
através do diálogo, que, por sua vez, só se
torna possível depois que a confiança das pessoas
é conquistada por uma atitude de serviço, de amor
gratuito. O testemunho pessoal de comunhão em nossas comunidades
é o que confere credibilidade ao nosso anúncio, como
já dizia Jesus: "Nisto conhecerão todos que sois
meus discípulos: se vos amardes uns aos outros".
Diante da preocupante realidade do mundo de hoje, e do Brasil em
particular, fica para nós o grande desafio: viver o amor
e a comunhão em nossas casas, em nossas comunidades, em nossa
Igreja, para que o mundo possa crer.
Margarida Hulshof
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