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As Nova Diretrizes da CNBB | SETEMBRO


Na última Assembléia dos bispos do Brasil, em Itaici, foram aprovadas as novas "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil", para o período que vai de 2003 a 2006.

Essas diretrizes são o fundamento que deve orientar todas as dioceses e paróquias, ao elaborarem seus planejamentos locais. O próprio documento pede uma "recepção criativa", ou seja, cada comunidade deve adaptar essas diretrizes à sua realidade local, conservando porém o espírito e a meta comum, que é a Evangelização, e cuja eficácia depende de saber conservar a unidade, dentro de uma sadia diversidade. Para isso, pede-se que cada comunidade promova estudos e reflexões sobre as orientações nele contidas, o que já vem sendo feito nas paróquias de nossa diocese.

As Diretrizes são renovadas a cada 4 anos, para que possam estar sempre atualizadas, de acordo com a realidade concreta e as necessidades pastorais específicas do contexto vivido por nossas comunidades. Estão em linha de continuidade com as anteriores, ou seja, não pretendem anular o trabalho anteriormente feito, mas são fruto desse trabalho, que nos permite aprender com a experiência e crescer sempre mais na missão evangelizadora.

Ao mesmo tempo, a Igreja no Brasil procura estar sempre em sintonia com a Igreja universal e com as orientações do Papa. As novas diretrizes inspiram-se na encíclica Novo millenio ineunte - na qual o Papa aponta os rumos que devem nortear a caminhada da Igreja neste novo milênio que começa - e também nos documentos do Concílio Vaticano II, além da Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, e o documento de Puebla.

O objetivo geral das Diretrizes pode ser resumido numa palavra, que é a própria missão que Jesus confiou à sua Igreja, ao enviar os apóstolos pelo mundo: EVANGELIZAR. Essa é a razão de ser da Igreja no mundo: anunciar a Boa Nova da Salvação, para que todas as pessoas possam conhecer e amar a Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Esse conhecimento, que nos leva à santidade, deve ser feito por meio do serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, promovendo a dignidade da pessoa e renovando a comunidade, contribuindo assim para a construção de uma sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo.
O documento lembra que o destinatário da Boa Nova é sempre a pessoa humana, "com suas pobrezas e carências, mas também com sua dignidade intocável". Esse enfoque vem ao encontro do contexto cultural que vivemos hoje, uma sociedade globalizada e consumista que massifica e despersonaliza as pessoas. Sobretudo no ambiente urbano (que é a realidade da maioria da população), percebe-se nas pessoas um forte anseio de ser elas mesmas, de cultivar uma personalidade própria que fuja aos padrões estabelecidos, de ser valorizadas por aquilo que são. Mas como, de modo geral, não encontram valores estáveis e seguros pelos quais possam guiar-se, essas pessoas - especialmente os jovens - sentem-se perdidas, desorientadas, com dificuldade para definir sua personalidade e seu objetivo de vida, preferindo concentrar-se na procura por satisfações imediatas e passageiras, recusando comprometer-se e investir no futuro. Isso se reflete também na vivência religiosa, com a recusa das tradições e dos padrões estabelecidos, dando-se preferência a uma religião descompromissada e adaptada ao gosto de cada um, na qual se aceita algumas coisas e se rejeita outras. A sociedade de hoje se caracteriza por um forte sentimento de religiosidade, mas trata-se de uma fé indefinida, sem regras, às vezes sem nenhuma prática, e às vezes misturando práticas de diferentes correntes e propostas religiosas.

É dentro desse contexto que precisamos, hoje, anunciar a mensagem salvadora do Evangelho, em toda a sua radicalidade. E as Diretrizes nos apresentam as pistas de ação para que possamos caminhar rumo a esse objetivo.

A porta de entrada é a ACOLHIDA. Nossa Igreja precisa ser acolhedora, fazer com que as pessoas se sintam "gente", sejam ouvidas, sintam-se valorizadas, compreendidas e amadas. Para isso, é necessário investir nas pequenas comunidades onde todos se conheçam e tenham seu espaço, fugir da Igreja "de massa", proporcionar oportunidades para uma vivência comunitária realmente fraterna e participativa, onde se viva o amor, o serviço, a partilha dos dons e da oração. É o contato com o outro que nos permite conhecer a nós mesmos e construir nossa identidade. Dentro desse objetivo, é muito importante a valorização dos ministérios leigos, fugindo de uma estrutura eclesial exclusivamente centrada na paróquia e no clero, já que o número de padres é insuficiente para atender satisfatoriamente a toda a comunidade.

O documento nos mostra como promover uma evangelização autêntica e eficaz (que traga mudança de vida) em relação a cada um dos três aspectos fundamentais do processo evangelizador: o ministério da Palavra, da Liturgia e da Caridade.

A Palavra é o fundamento de toda a missão da Igreja, e deve-se dedicar grande atenção e cuidado a todas as formas pelas quais o anúncio é feito: a catequese em todas as suas modalidades, a proclamação da Palavra na Missa, a formação bíblica, etc.

A Liturgia envolve os sacramentos - com destaque para a Eucaristia - e as exigências concretas da vida de fé, ou seja, as delicadas questões morais, que devem ser tratadas com muita compreensão e caridade, considerando a realidade concreta com a qual convivem as pessoas no mundo de hoje, e que se opõe radicalmente aos valores cristãos. É preciso apresentar o caminho da fé como resposta libertadora para as escravidões que o mundo nos impõe, como caminho para a plenitude que todos buscam, como segurança que não engana, em oposição ao contexto de insegurança, violência e medo que nos cerca.

O ministério da Caridade diz respeito, mais especificamente, à comunhão fraterna, à ação solidária em favor dos mais necessitados e sofredores, "para que todos tenham vida", sem esquecer de atender também às novas formas de pobreza que encontramos hoje: drogas, Aids, prostituição, desemprego, depressão, e as necessidades dos idosos, dos deficientes, ou dos grupos étnicos discriminados, como os negros e índios. Para cada um desses campos o documento apresenta sugestões concretas de ação, e salienta a importância da conscientização e participação política, como instrumento indispensável de transformação e evangelização da sociedade.

Todas as propostas de ação são colocadas em três planos: a pessoa, a comunidade e a sociedade. Partem dos desafios que encontramos hoje em cada um desses planos, mostram a visão cristã diante dessas realidades, e apresentam por fim as pistas de ação, sempre dentro das quatro exigências que devem estar presentes em qualquer ação evangelizadora: serviço, diálogo, anúncio e testemunho. O anúncio é o centro e o conteúdo da mensagem cristã, mas só se faz compreensível através do diálogo, que, por sua vez, só se torna possível depois que a confiança das pessoas é conquistada por uma atitude de serviço, de amor gratuito. O testemunho pessoal de comunhão em nossas comunidades é o que confere credibilidade ao nosso anúncio, como já dizia Jesus: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros".

Diante da preocupante realidade do mundo de hoje, e do Brasil em particular, fica para nós o grande desafio: viver o amor e a comunhão em nossas casas, em nossas comunidades, em nossa Igreja, para que o mundo possa crer.

Margarida Hulshof

 
 
VEJA NO MÊS DE SETEMBRO/2003:

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