- Apocalipse 3 (5)
Anjos (continuação da edição anterior)
Os Anjos são em algumas ocasiões os executores dos castigos divinos (cf. Ap 9,15;14,18; etc). Encabeçados pelo Arcanjo São Miguel, travam no meio dos Céus a grande batalha do Bem contra o Mal, contra “o grande Dragão, a serpente antiga, chamada Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro” (Ap 12,9). Mas essa luta prolonga-se por toda a história. Assim os Demônios, chamados também anjos de Satanás, aparecem com freqüência como procedentes do abismo, desatados por algum tempo e livres pela terra, suscitando guerras e extravios entre os homens (cf. Ap 20,7-8).
Tudo parece dar certo com facilidade para o Diabo. A sedução realizada pelo Maligno é perfeita: “o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada” (Ap 12,9); “Cheia de admiração, a terra inteira seguiu a Besta... e adorou a Besta... .
Ela abriu então sua boca em blasfêmias contra Deus, blasfemando contra o seu nome, sua morada e os que habitam o céu. Deram-lhe permissão para guerrear contra os santos e vencê-los” (Ap 13,3.4.6.7).
A última hora, que abrange o arco de tempo entre a glorificação e o retorno de Cristo, é completamente diferente daquilo que os cristãos esperavam. Falta o esplendor do Cristo pascal. A experiência de que é chegada a hora do anticristo, que se apresenta sob a forma de pseudocristo (Mt 24,24-25; 2 Ts 2,3-9; 1 Jo 2,18-19; 4,2-4), gera uma sensação de consternação. O Apocalipse lança confusão e cria dificuldades aos cristãos de todos os tempos, porque reconhece que o crescente poder de Satanás sobre a história e as perseguições que ele desencadeia fazem parte do eterno plano de Deus (Ap13,7). Mas no fim serão arrojados para os infernos onde serão atormentados para sempre (cf. Ap 12,9; 20,10).
Além da sua importante e múltipla missão na terra, os Anjos estão no Céu, na presença de Deus, intercedendo pelos homens, oferecendo “sobre o altar de ouro, que está diante do trono” (Ap 8,3) as orações dos santos, que sobem até ao Senhor por meio dos Anjos (cf. Ap 8,4). Junto à intercessão, sobressai com particular ênfase o culto e a adoração que os Anjos tributam sem cessar a Deus e ao Cordeiro (cf. Ap 5,11; 7,11 etc).
A Virgem Maria
A Mulher-Povo-Igreja. Retomando o costume do A T, Apocalipse apresenta a comunidade fiel sob as figuras, primeiro da mulher que traz ao mundo o Messias (Ap 12-14) e, no fim, da Noiva preparada para o Esposo - o qual no AT é Deus e, no N T, o próprio Jesus Cordeiro, na glória do Pai (Ap 21). Em contraste com a mulher infiel, a “prostituta” Babilônia.
A mulher revestida de sol, coroada de estrelas e com a lua por escabelo, é sem dúvida, imagem da Igreja. Não obstante, desde a antiguidade, alguns Santos Padres também viam Nossa Senhora nessa figura esplendorosa. É certo que Maria não sofreu dores no parto do seu Filho, nem tão pouco teve outros filhos, que fossem o “resto da sua descendência” (Ap 12,17). Contudo, a visão recorda o relato do Gênesis, onde também a mulher é enfrentada com a serpente. O Filho, que é arrebatado e elevado até ao trono de Deus, é Jesus Cristo (cf. Ap 12,5). Os elementos da imagem, tal como acontece com as parábolas, não têm que ser necessariamente todos expressão de algo concreto. Por outro lado, uma mesma imagem pode significar uma ou mais realidades, sobretudo quando se relacionam estreitamente, como acontece com a Virgem e a Igreja. Por isso a interpretação eclesiológica não tem por que excluir o sentido mariológico. Em mais de uma ocasião, o Magistério pronunciou-se em favor da interpretação mariana. Assim, São Pio X explicava: “Ninguém ignora que aquela mulher representa a Virgem Maria, que deu à luz - sem perda da sua integridade - a nossa Cabeça. E o Apóstolo continua: e estando grávida, gritava com dores de parto (...).É claro que se refere ao nosso parto, pois permanecemos ainda no exílio e temos que nascer para a caridade perfeita com Deus e para a felicidade eterna. As dores, pois, da parturiente indicam o fervor e o amor pelo qual a Virgem, na sua sede celestial, vigia e aspira com oração incessante para que se cumpra o numero dos eleitos”. João Paulo II unia-se a esta interpretação quando pregava dizendo: “Leva os traços daquela mulher que nos descreve o Apocalipse (...). Essa mulher, que se encontra no fim da história da criação e da salvação, corresponde claramente àquela mulher da qual se diz na primeira página da Bíblia, que “esmagará a cabeça da serpente”. Entre o começo alentador e o fim apocalíptico Maria deu à luz um Filho que “há de apascentar todas as nações com cetro de ferro” (Ap 12,5)(...). Ela é aquela contra a qual luta o Dragão apocalíptico, pois, com o Mãe dos redimidos, é imagem da Igreja, à qual também chamamos Mãe”.
Escatologia
A passagem de Ap 6,12-17 trata da descrição não do “fim do mundo”, mas do “grande dia da ira” de Deus. As perturbações cósmicas têm apenas uma existência literária. Constitui o prelúdio do “grande dia da ira”. Se o “fim do mundo” vai dar-se desse modo ou de outro, o exegeta não o pode precisar.
No livro a perspectiva escatológica permanece constante, convergindo tudo para o fim dos tempos:
A tal fim precederá uma terrível provação que “o acampamento dos santos e a cidade amada” (Ap 20,9) deverão suportar, mas que marcará também a intervenção de Deus para salvar os seus (cf. 2 Ts 2,3-12). Depois todos os mortos ressuscitarão (Ap 20,12-13) para serem julgados. Não se tratará de um juízo arbitrário, porque “os mortos serão julgados segundo as suas obras, segundo as obras escritas nos livros” (Ap 20,12s).
Também os eleitos haverão de participar da ressurreição final e do julgamento do mundo, mas o seu nome já estava escrito no livro da vida (Ap 20,12.15) e gozavam da eterna bem aventurança (Ap 14,13). A morada dos bem aventurados é a “cidade santa”.
A construção inteira de Jerusalém celeste, muros, fundamentos, portas e praça, é feita de pedras preciosas, pérolas e ouro puro.
O Conjunto deve ser de esplendor incomparável porque “a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro” (Ap 21,23; 22,5).
Nesta cidade , é claro, “não entrará nenhuma coisa impura, nem quem comete abominações e falsidades, mas só entrarão os inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21,27).
É uma cidade sem templo “porque o templo é o Senhor, Deus Onipotente, e o Cordeiro (Ap 21,22). Deus habita com os eleitos num cenário que lembra o paraíso de Gênesis (Ap 22,1ss). Já não haverá maldição alguma por parte de Deus como aconteceu com o primeiro Adão, porque “os seus servos o servirão” (Ap 22,3).
Será o lugar da felicidade eterna: os bem aventurados “verão a sua face” e “reinarão pelos séculos dos séculos” (22, 4.5).
Continua no próximo número.
Jane do Tércio
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