continuação
ANO PAULINO 3
NO CÂNTICO ESPIRITUAL de Paulo, notamos que são repetidos conceitos que se encontram nas cartas anteriores, o que nos permite uma formulação da doutrina que ele pregava e segundo a qual queria que as comunidades vivessem. O Deus único de Israel, agora se revela nos seu agir unido a Jesus Cristo, a sua Imagem, a revelação do seu Ser, que age na condição de Filho como Mediador de toda a Graça, tornado o Primogênito dos mortos e a Cabeça da Igreja. Por ele, Deus leva ao seu termo o plano que determinara realizar desde a fundação do mundo, porque nele se realiza o Adão verdadeiro e por ele todos os homens são chamados a reinar. O Princípio da renovação dos que foram salvos pelo Amado é o Espírito que torna os fiéis novas criaturas chamadas a se purificar no Sangue de Cristo até se abrir à esperança para se tornar herdeiros da glória dos santos.
À luz dessas considerações, o termo 'amor', que encontramos depois de 'santos e imaculados' (1,4) adquire o seu sentido se o pensamos imediatamente depois da preposição adverbial que está no início da frase que o contém: “como, no amor, nos escolheu...” (ibid.). Está no fim por uma exigência estilística, pela qual resulta em paralelo com o termo “Amado”, colocado no fim da 2ª estrofe do cântico.
Também o termo pelo qual Paulo classifica os que são chamados a participar da herança dos santos, que encontramos ao v. 12: “os que puseram a sua esperança em Cristo”, tem a sua correta explicação quando temos presente quem, de fato, se torna herdeiro com Cristo da herança eterna: é aquele que persevera nas tribulações, até se abrir a uma esperança que não será confundida porque o Espírito Santo será nele infundido (Rm 5,5) e se manifestará na alegria de quem eleva a Deus a sua contínua ação de graças (Cl 1,12), por entender que, pelos sofrimentos, nele desponta a vida que Cristo conheceu na sua Paixão (2Cor 4). Isto permite ver fluir a lógica da argumentação de Paulo: são chamados a participar da herança dos santos os que chegam à perfeição da vida cristã, à qual devem aspirar todos os que creram no Evangelho, mediante a purificação dos pecados (2Pd 1,5-10), porque somente assim serão motivo de exaltação da obra da Graça, estando, para sempre, diante de Deus, na condição de santos, imaculados e irrepreensíveis, condições que Cristo que atuar em nós, ele que nos resgatou pela sua Morte de Cruz (Cl 1,22).
Bendito o Deus e Pai do Senhor nosso, Jesus Cristo
Aquele que nos abençoa com toda benção do Espírito,
dos altos céus, em Cristo!
Como nos escolheu nele antes da criação do mundo,
para sermos santos e imaculados diante dele, no amor,
tendo-nos predestinado à adoção filial para ele, por Jesus Cristo,
segundo a benevolência da sua vontade,
para o louvor da glória da sua Graça,
com a qual nos agraciou no Amado!
No qual temos a purificação, pelo seu sangue,
a remissão dos pecados,
segundo a riqueza da sua Graça,
que transbordou sobre nós
em sabedoria plena e entendimento,
por ter-nos feito conhecer o Mistério da sua vontade,
que, nele, se propusera,
em vista da plenitude dos tempos,
de recapitular todas as coisas em Cristo,
as que estão nos céus e as que estão na terra,
nele,
no qual e fomos chamados a ser herdeiros,
predestinados segundo a determinação
daquele que tudo realiza,
segundo o pensamento da sua vontade,
para sermos louvor da sua Glória,
nós que esperamos em Cristo;
no qual vós, também,
tendo ouvido a palavra da verdade,
o evangelho da sua salvação,
no qual, também, acreditastes,
fostes selados pelo Espírito da promessa, o Santo,
que é penhor da vossa herança,
para a purificação do povo da conquista,
para o louvor da sua Glória.
Pe. Fernando Capra - CRSP
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