"Há uma força na eucaristia que não podemos deixar cair em vão. Há um sopro todo particular do Espírito que nos leva para águas mais profundas, tornando-nos capazes de humanizar até a globalização”
Sinceramente, se tivesse que escrever um livro sobre a eucaristia, poria como título: "eucaristia: eis a missão".
Acredito que o apóstolo Paulo viria ao meu encontro, facilitando-me a tarefa, lembrando o texto que ele escreveu aos cristãos de Corinto, estimulando-os a um melhor comportamento: "Nossa Páscoa, Cristo, foi imolada" (l Cor 5,7).
Vejo nestas palavras um projeto de vida. São palavras que revelam toda a força do mistério de Cristo em relação à humanidade e a cada um de nós.
Vamos meditando: Cristo é a nossa Páscoa. Portanto, Páscoa, mais que força libertadora é alguém que liberta, que salva. É Jesus, cujo nome já indica a sua missão, a razão da sua presença. É o enviado do Pai, o missionário por excelência.
Ora, Páscoa evoca um dinamismo muito particular, especialmente, quando nos aproximamos de palavras igualmente dinâmicas, tais como: aliança, celebração, fidelidade, comunhão, presença, missão, banquete, eucaristia.
Pergunta-se: quem poderá assumir toda essa energia? Quem conseguirá traduzir em vivência tudo isso?
É hora de criar coragem e dar um salto de qualidade. Para isso, é preciso integrar-nos à "multidão que se comprimiu ao redor de Jesus para ouvir a palavra de Deus à margem do Lago de Genezaré (Lc5,l).
É hora de colocar-se novamente à escuta de Jesus, pois sabemos que Ele quer contar conosco. Confiando na sua palavra, poderemos lançar as redes. Somos seus seguidores, somos a sua Igreja.
Santo Agostinho diria para nós hoje o que afirmava para os primeiros cristãos: "Vocês são aquilo que recebem, são Eucaristia, são o corpo de Cristo".
Diante disso, querendo ser autênticos, devemos pensar em atualizar ainda mais a nossa resposta. O sim do nosso batismo deve ser renovado constantemente, não pode ficar lá longe, escondido no passado. Precisa ser um sim com sabor de missão, com sabor de eucaristia.
Urge tomar uma firme decisão e caminhar com Jesus rumo a Jerusalém (cfr. LC 9,51), perseverando, até chegar a sentar-se à mesa com Ele. Urge deixar-se envolver, plasmar, vivificar, dinamizar pelo grande gesto da ceia pascal, o gesto, daria "pole position" pela capacidade de nos possibilitar outros gestos também "eucarísticos". Insistindo ainda mais, urge celebrar a vida, fazer festa, agradecer, encontrar-se. Precisamos desta hora, a hora da celebração, hora que dá sentido à nossa vida, hora que estará sempre nos lembrando o lugar por onde recomeçar. À mesa com o Ressuscitado podemos sempre tomar novas atitudes, já que fazemos questão de continuar nos alimendando com o "pão da vida" (DV 21).
Estamos diante do desafio de novo tempos, exigindo novas opções. Encontramo-nos diante de solicitações diferentes, exigindo equilíbrio, exigindo a não-violência. Quando as coisas apertam, esquecemos até da mensagem mais contundente que encontramos no sermão da montanha: "Ouvistes que foi dito... Eu porém vos digo" (Mt 5-7).
Esquecemos que tempos atrás refletimos e cantamos: "Fraternidade sim, violência não". Durante a celebração eucarística, facilmente nos abraçamos, lembramo-nos da paz cantando várias melodias, mas a construção desta paz fica sempre mais difícil. Há um mundo em mu-. dança reclamando novas respostas, que devem ser enfrentadas com uma fé de qualidade (cfr. Lc 17,5-7).
Corremos o risco de nos escondermos debaixo da mesa da eucaristia, quase em busca de proteção. O nosso Mestre, pelo contrário, levantou-se da mesa "...deu-nos o exemplo" (cfr. Jo 13).
Há uma força na eucaristia que não podemos deixar cair em vão. Há um sopro todo particular, é o sopro do Espírito que nos leva para "águas mais profundas" (Lc 5,4), tomando-nos capazes de humanizar até a globalização. O Espírito nos move na direção de um futuro esperançoso. Nada de desânimo e nem de covardia: "Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade" (2 Tm 1,7). Acreditar é preciso.
Jesus aderindo ao projeto do Pai realizou sua missão, tornando-se o verdadeiro missionário. É só lembrar suas curas libertadoras (Lc 4), seus gestos de perdão (Lc 7.15.19) e a Ceia Pascal (Lc 22).
Precisamos recomeçar pela palavra e pela eucaristia para encontrarmos todo o dinamismo da missão e tomarmos consciência de que, como Igreja, somos nós a missão. Portanto, mãos à obra!
Para refletir:
1. Que acham da ideia da "missão" relacionada à eucaristia e a nós?
2. Desafios não faltam, novas provações também. Como a eucaristia pode ser uma resposta a tudo isso? A eucaristia é proposta e resposta ao mesmo tempo. E a nossa tarefa?
3. Por que tanta dificuldade em praticar a eucaristia que celebramos? Qual seria o maior empecilho?
Padre André Agazzi, SSS integrante da Equipe de Retiros Espirituais dos Religiosos Sacramentinos |