Cristologia (11b)
A profecia de Isaias sobre o Emanuel, fundamental para entender a figura de Jesus em Mateus, está incrustada num contexto teo-lógico que vai de Is 6 até Is 12. Trata-se de um contexto teológico, construído por um redator final através da aproxi-mação de profecias atribuídas ao profeta Isaias, distribuídas ao longo de mais de um século. A coletânea visa elucidar a doutrina da confiança em Deus, porque somente nele está a salvação de Israel. Essa doutrina é tipificada com a história de Israel no tempo de Acaz, enquanto anuncia condições futuras do próprio Reino de Judá.
O primeiro ensinamento é dado por gestos que o próprio Iahweh, isto é o Deus de Israel, que já se manifestou capaz de realizar o que anunciava, dita ao seu profeta: é no fim do canal da piscina superior, isto é tendo à vista as águas calmas e vitais, que Isaias e o seu filho Sear Iasub (um resto voltará) terão que encontrar o rei Acaz. O nome profético do filho de Isaias nos induz a ver nele um sinal profético, como também nas águas calmas que voltarão a ser lembradas no momento em que Deus pronunciará o castigo contra Acaz por não ter confiado nele. Em Deus, capaz de operar prodígios, deve Israel confiar porque nele está a vida; o povo que nele não confia perecerá; contudo, Deus, na sua misericórdia, salvará para si um Resto. Estamos diante da doutrina já pregada por Oséias. Acompanhado por esses sinais o profeta Isaias proclama, diante de Acaz, a ineficácia da ameaça dos reis da Síria e do Reino do Norte.
Diante da desconfiança do rei, se torna necessária uma segunda intervenção profética. Mas a obstinação do rei se torna, agora, causa de um castigo merecido que, ao acontecer, se constituirá em fundamento da própria profecia da "jovem que conceberá e dará à luz um filho e por-lhe-á o nome de Emanuel". Juntamente com uma segunda prova, cuja realização ocorreu cedo, e que foi anunciada através de um segundo filho de Isaias que, diante de testemunhas, recebe o nome de "Pronto ao saque, Prestes aos despojos", a destruição de Jerusalém, sustentará a realização da prova que Deus prometeu.
A reflexão teológica de quem compôs o Livro do Emanuel visa proclamar que, certamente, acontecerá que "uma jovem dará à luz um filho e por-lhe-á o nome de Emanuel". A prova de que isso acontecerá são os dois fatos que Isaias profetizou e que o judeu já reconhece atuados todas as vezes que lê o Livro do Emanuel: a destruição de Samaria (722 a.C.) e a de Judá (587 a.C.).
O anúncio profético tem como sinais os dois testemunhos de Isaias, metaforicamente representados pelos nomes dos seus filhos. A destruição do Reino do Norte logo acontece. A destruição de Judá e Jerusalém, também, acabou se realizando, claramente mencionada: "Visto que este povo desprezou as águas de Siloé, que corre mansa..." (Is 8,6-8). Em oposição ao fracasso de Israel desencami-nhado pelos seus reis e chefes, que abandona o seu Santo, a sua Pedra de refúgio, Deus anuncia um filho que "traz o cetro do principado" para estabelecer o Reino na Terra prometida. Ele tem títulos divinos (9,5) e sobre ele repousará o Espírito do Senhor. Estabelecerá a paz (11).
"Grita jubilosa, ó Sião, a princesa, porque é grande no meio de ti o Santo de Israel" (Is 12,6). É na perspectiva do triunfo do Emanuel que deve ser considerada a jovem mãe. As prerrogativas dela encontram uma inicial explicitação em Gn 3,15. Somadas à característica inicial que lhe dá Isaias, de ser a Sião que, resgatada da sua culpa, volta a rejubilar-se no seu Santo, repetida por Sofonias (3,14) e Zacarias, (2,14) e reconhecidas por Lucas, revelam a sua condição dentro do Plano da Salvação que Deus, na sua misericórdia, quer levar em frente de forma sapientíssima. É a reflexão teológico-sapiencial da Igreja apostólica que descobrirá toda a grandeza de Maria quando souber da condição divina de Jesus. Verá, então, todo o sentido da interpretação da tradição judaica, até codificada na LXX, que traduziu o termo hebraico almah (a jovem) com a palavra grega parthenos (a virgem).
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Por que é importante a profecia em Is 7,14?
2ª) Quais são as provas que ela se realizará?
3ª) De que forma Mateus e Lucas a vêem realizada?
Pe. Fernando Capra/CRSP |