E AGORA...
"E agora José, a festa acabou, a vida acabou. E agora José"
Você se lembra deste poema de Carlos Drumond de Andrade?
Pois é, é agora... Escrevo esse texto com respingos na memória da notícia trágica do último final de semana; um carro em alta velocidade bateu forte e matou seus ocupantes, todos eles jovens na faixa dos vinte anos. E agora José, e agora... Dá pra entender o que passa na cabeça dos jovens? Acho que é a tal da síndrome de "super-homem", acham eles que são invencíveis ou "imorríveis" se essa palavra existisse. São eles os passarinhos, que após longos anos de alimentação no bico até sentirem-se fortes o suficiente para voar sozinhos, se vão em seus primeiros vôos para nunca mais voltar. O que passa na cabeça desses jovens, nós pais, jamais saberemos, apenas ficaremos com a dor.
Quinze dias antes, na avenida das Américas, outro carro em alta velocidade chocou-se com a traseira de um caminhão de serviço que estava parado e não sobrou ninguém. Três meninas falecidas estavam ali na hora errada, no lugar errado e no carro errado.
Conheceram os meninos numa festa e foram para outra, e nunca chegaram. Deveria ser essa a última frase da vida de um jovem?
Por mais que nós pais sejamos chatos o suficiente para fazer as recomendações de praxe todos os dias, nem sempre elas são ouvidas e deve ficar uma pergunta na cabeça desses pais sofridos: eu poderia ter feito alguma coisa? O quê?
Meu Deus, quanta dor nesses corações, quanto remorso de ter dado a liberdade a quem ainda não estava pronto para desfrutá-la.
Eles, os jovens, acham tudo. Tudo está bom, tudo vai dar certo, tudo vai sair bem mesmo quando executado de forma errada. Então, como convencê-los de que é preciso muito mais para se continuar vivendo.
É muita dor. Não consigo imaginar o tamanho da dor dessas famílias, não consigo visualizar o estrago que essas tragédias fazem nos corações dos parentes e amigos. É algo que não tem medida. Não há nem o que dizer aos pais, não existem palavras de consolo, só mesmo muito Deus no coração.
Eu imaginei escrever um relatório sobre esse assunto. Descrever fatos, enumerar situações, mas, não consigo passar disso, não consigo ir adiante, é tudo muito triste. Como pai eu sinto como se fossem meus filhos e sofro...
Queria muito que os filhos que ainda nos restam, entendessem que acidentes acontecem, mas quando são provocados deixam de ser acidentes. Um carro não é uma arma que dispara sem querer, alguém precisa usá-lo com sabedoria.
Queria muito que meus filhos entendessem que as coisas que falo, que as recomendações que dou todos os dias, todas as horas, não são apenas para atrasar a hora do encontro deles com a namorada, tem muito a ver com a integridade física de cada um, tem muito a ver com o enorme amor que sinto por eles e que é o sonho de todo pai não ver seus filhos sofrem um arranhão.
Respeito a dor daqueles que perderam suas crianças e peço a Deus, que em sua infinita bondade receba-os em seu reino e dê aos que ficaram, muita paz no coração. No mais, fazer o que?
P.S.: Definitivamente eu não nasci para ser eleito o pai do ano, por isso vou continuar sendo chato, perguntando pra onde vai e com quem vai.
P.S. do P.S.: Isso pode até não resolver muita coisa, mas vou poder dizer: fiz a minha parte.
P.S. extra: Se a diagramação do jornal estiver confusa, liga não, a Esther tá cuidando da Letícia e dando uma bola pro jornal ao mesmo tempo. Beijos mamãe.
Paulo Sobrinho e Solange
(loretando@oi.com.br)
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