O Senhor Jesus inclui entre os seus convites-intimação, plantados no coração dos seus seguidores, a tarefa de fazer discípulos. A missão, na verdade, tem como meta ações e anúncios que ofereçam aos destinatários a condição de se tomarem discípulos. A missão, pois, consiste em fazer discípulos dele "todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" e ensinando-os a observar tudo o que ele ordenou. O missionário se faz e se sustenta da fidelidade visceral que experimenta e cultiva de sua vida na vida do Mestre que o envia. Ao mesmo tempo, tem os olhos fixados naqueles destinatários de sua missão. Um compromisso de garantir-lhes uma experiência que plante neles o mesmo sentido e grandeza da fidelidade que o faz ardoroso anunciador de Jesus Cristo. Caso se perca essa dinâmica de dupla vinculação e compromisso, ou nela se opere um enfraquecimento, ocorre uma substancial perda da força missionária. Essa perda missionária se revela como truncamento da fidelidade, diminuição do ardor e, particularmente, como serviço não prestado àqueles destinatários da evangelização, impossibilitando-os de ganhar a alegria duradoura do seguimento de Jesus Cristo. Ao discípulo enviado para fazer outros discípulos, fica sempre o desafio de atingir a meta determinada pelo Mestre e Senhor. Outra não pode ser a fidelidade a ele, que chama e envia. Essa fidelidade é a verdadeira fonte de alegria. Ao mesmo tempo é o empenho missionário que define as feições e configura a conduta do autêntico discípulo.
O risco da maestria
Esse convite-intimação que o Senhor faz aos seus discípulos pode, momentaneamente, ecoar nos corações como validação da tendência contemporânea, e sempre presente no coração humano, de fazer-se mestre dos outros. Importante é quem se faz mestre, pensam muitos. Essa pretensão humana alimenta, alicerçada na evocação da própria experiência, pretensões vaidosas, conhecimento, posses, tempo vivido e cargos ocupados, os descompassos e fragilidades do serviço missionário.
Na verdade, trata-se de uma perda de referência do Mestre como insubstituível, a quem se deve toda fidelidade. Ao mesmo tempo ocorre o obscurecimento da figura do destinatário da missão, razão única do serviço que se presta. Esse risco é o veneno mortal que atrasa os processos evangelizadores, cria ninhos de vaidade e retarda o crescimento do número daqueles que precisam encontrar o caminho e fazer a experiência do seguimento de Jesus Cristo, única condição para encontrar a alegria que o coração humano precisa como alimento de sua jornada. A missão de fazer discípulo, paradoxalmente, pede que a maestria seja entendida e construída sempre no serviço aos outros. E o Mestre se faz à medida que o coração se faz, sempre mais, discípulo para fazer outros discípulos.
Ensinando a observar
O ensinamento do missionário percorre um caminho que diferencia o seu serviço educativo de uma simples ação teórica. Não basta possuir dados, teorias e informações para fazer acontecer o processo de aprendizagem para aquele destinatário da missão.
Há, pois, uma singularidade no exercício magisterial e de ensinamento que o enviado do Senhor deve realizar. Essa singularidade no processo de ensinamento está na particularidade de que o ensino ocorre e é eficaz à medida que o testemunho do missionário convence, arrasta e configura no coração daquele a quem serve e anuncia a convicção de viver essa mesma dinâmica. Não se pode, frutuosamente, ensinar a observar quem não tem a autoridade do testemunho e sua validação na conduta de cada dia. Assim que a maestria no discípulo, no exercício de sua missão, é proporcional à riqueza e autenticidade de sua condição de discípulo fiel no seguimento de Jesus. Quanto mais se faz discípulo, mais se toma mestre de verdade para os seus destinatários.
Tudo o que ordenou
As ordens do Senhor não são pesos e nem são frias. Suas ordens não deixam perder o verdadeiro rumo da vida que está na experiência autêntica de amor. O amor que engloba a força de suas recomendações. O amor que define a razão de sua encarnação na condição humana, sua oferta no alto da cruz e a garantia da redenção e da salvação da humanidade. Essa perspectiva não permite desobediência. Não permite porque se toma a razão de um grande fracasso. A desobediência ao amor, em pequena ou grande escala, por gestos ou palavras, inicia a derrocada de toda pessoa, de todo processo, da vida. Não se edifica ou se reconstrói a vida sem o amor. Insubstituível é a sua obediência. Sua obediência inclui um processo de escuta. A experiência da escuta que garante a condição da obediência supõe quem anuncia. E o discípulo feito mestre, à medida que discípulo se faz, realiza sua missão oferecendo aos seus destinatários a possibilidade dessa aprendizagem, obediência a tudo o que o Senhor da vida ordenou.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
A escolha não é do discípulo feito mestre. A direção é definida pelo Senhor. Ele mesmo é a direção. O segredo é a experiência de inserção nele, razão e sentido da ação batismal. Ser balizado é ser inserido. Essa inserção que cria intimidades é a dinâmica da experiência do discípulo que se faz e o sustento sapiencial para se fazer outros discípulos. Uma experiência em que o discipulado se toma a experiência de grande inserção no coração da Trindade, o núcleo de todo amor, o amor que salva e redime. E o discípulo feito mestre como o discípulo feito pelo mestre, obedientes e vinculados ao Mestre único e Senhor, compreendem porque tudo há de ser feito e vivido em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!
Dom Walmor Oliveiro de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte |