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Carta aos Colossenses (3)

Temas específicos de Doutrina
A carta apresenta uma notável apresentação de Jesus como o Cristo universal e o que significa para nós cristãos ser livres para servir só a Ele. Ele é o centro do mundo, mas é também fundamento e norma de vida cristã (1,18; 2,6-8.19-20)

Paulo tenta demonstrar que a sabedoria e o conhecimento só são interpretados corretamente quando se referem a Cristo, de quem devemos reconhecer a posição singular como autor e Senhor da criação, conquistador dos elementos e dos poderes do mundo.
Somente por intermédio dele vêm a redenção, o perdão dos pecados. Como membros de seu corpo, a Igreja, os cristãos são libertados, pelo batismo, de qualquer tipo de submissão a regulamentos e atos ascéticos destinados a servir a esses elementos e poderes inferiores. Quem quer que tente impor essas restrições à liberdade dos cristãos para servir só a Cristo não deve ser ouvido; tal ensinamento está fora da tradição apostólica.

Esta liberdade alcançada por Cristo deve, por sua vez, ser exercida a seu serviço. A liberdade em Cristo traz consigo certas responsabilidades. Desse modo, a carta inclui diversas instruções sobre o que evitar ou no que se empenhar e instruções específicas para os lares cristãos. O autor caracteriza o modo toda da vida cristã como "dar graças".

Paulo afirma que devemos viver em Cristo e não seguir uma sabedoria humana que nos escravizaria (2,6-8). Ele é a única verdadeira cabeça dos homens e dos anjos; somente n'Ele Deus é revelado. Cristo aparece como o único e suficiente mediador, ao qual os anjos e os homens estão subordinados.

O perigo em Colossos derivava de especulações baseadas no judaísmo (2,16) e fortemente influenciadas pela filosofia helenística, que atribuíam aos poderes celestiais que comandam o ritmo do cosmos uma importância excessiva, de modo a comprometer a supremacia de Cristo. Paulo aceita os postulados da luta e não coloca em dúvida a atividade desses poderes; até chega a assimilá-los aos anjos da tradição judaica (cf. 2,15).
Mas é precisamente para recolocá-los no seu devido lugar no grande desígnio da salvação. Eles cumpriram sua missão de intermediários e administradores da Lei. Atualmente está terminada essa função. Instaurando a nova ordem, O Cristo Kyrios assumiu o governo do mundo. Sua exaltação celeste colocou-o acima dos poderes cósmicos, que ele despojou de suas antigas atribuições (2,15). Ele, que já os dominava em razão da primeira criação, na sua qualidade de Filho Imagem do Pai, agora os domina definitivamente como seu chefe na nova criação, na qual ele assumiu em si todo o pleroma, isto é, toda a plenitude do ser, de Deus e do mundo em Deus (1,13-20).
Libertados desses "elementos o mundo" (2,8.20) por sua união ao Chefe e pela participação na plenitude (2,10), os cristãos não devem recolocar-se sob sua tirania por meio de observâncias obsoletas e ineficazes (2,16-23). Unidos pelo batismo ao Cristo morto e ressuscitado (2,11-13), eles são os membros do seu Corpo e não recebem a vida nova senão dele como de sua Cabeça vivificante.

Alguns temas específicos
- A novidade em Cristo: não se deixar reconduzir a nenhuma forma de escravidão, não em relação à Lei mosaica (como em Gl e Rm), mas em relação aos "elementos do cosmo", regras alimentares, falso ascetismo etc.

- Cristo tudo em todos: a plenitude de Cristo que invade a comunidade e o universo exclui todo e qualquer privilégio. E a comunidade é chamada a dar um testemunho de unidade e comunhão.

- A solidariedade intereclesial: a relação de fraternidade entre as comunidades de Colossos, Laodiceia e Hierápolis (4,12-16).

- Amor e justiça em casa. No ambiente helenístico, a família era o lugar de cultivar os bons costumes e as relações básicas para toda a sociedade. A vida em Cristo deve valorizar isso, mas não para absolutizar a autoridade dos de cima, e sim, para fazer com que todos se respeitem mutuamente, inclusive os maridos às mulheres, os pais aos filhos, os senhores aos escravos (3,18-4,1).

Grandes temas
O ponto central do qual brota toda a doutrina desta Epístola é o mistério de Cristo: o Filho, Deus eterno, como o Pai, num momento determinado da história, assumiu a natureza humana. O Apóstolo expressa assim esta verdade: "nEle habita toda a plenitude da divindade corporalmente".

Ele é Criador com o Pai; mas ao mesmo tempo, assumiu uma natureza criada; por isso é o primeiro dos homens e superior a todos. A sua atuação é decisiva na criação de todas as coisas; e também numa nova criação, que é a regeneração na ordem da graça, levada a cabo por meio da Sua entrega na cruz; deste modo sanou a natureza ferida pelo pecado. Por isso Cristo é "cabeça" de todo o universo, de todas as realidades terrenas e da Igreja.

Um dos aspectos doutrinais sublinhado nestes escritos faz referencia ao Domínio de Cristo, à Sua total soberania, à Sua condição de Senhor (Kyrios), que exerce o Seu domínio sobre toda a criação, tanto a visível como a invisível ( cf. Cl 1,16-20 e Ef 1,10-21). Esse Domínio de Jesus Cristo põe-se em relevo, de modo particular, no mundo angélico e na Igreja.

A capitalidade de Cristo sobre o cosmos
Paulo afirma categoricamente que o Senhor Jesus é a cabeça de todos os seres, celestiais e terrestres; que o Seu domínio é absoluto e está infinitamente por cima de tudo quanto existe na criação. Qualquer que seja a ordem dos espíritos celestes não são mais que criaturas. O que importa essa é a verdade radical - é que Cristo Jesus, Deus e Homem, é o Senhor (o Kyrios) de todas elas e de toda a criação. Assim nenhuma realidade é alheia ao domínio de Jesus Cristo.

Cristo, portanto, não é um dos muitos seres que povoam o universo, mas a cabeça, o princípio pelo qual nos chamará a todos à salvação. De igual maneira, a capitalidade do Senhor sobre o cosmos não radica unicamente na sua constituição ontológica - é Deus e Homem - mas também na sua atividade soteriológica - é o Salvador. A salvação já foi realizada por Cristo, mas a sua aplicação continua a realizar-se, visto que os seus frutos hão de chegar a todos e cada um dos homens; a sua culminação final alcançar-se-á quando se complete a recapitulação de todas as coisas em Cristo.

A capitalidade de Cristo sobre a Igreja
A capitalidade de Cristo sobre a Igreja consta de três elementos: a primazia, a perfeição e o influxo vital. Nesta Epístola há dois textos fundamentais acerca de Cristo Cabeça da Igreja: 1,18 (primazia) e 2,19 (influxo vital). Em Cl 1,15-20 entoa-se um cântico à primazia total de Cristo sobre a Criação inteira e cada uma das suas ordens. Dentro desse hino afirma-se "Ele é também a cabeça do corpo, que é a Igreja". A cabeça é a parte mais nobre e elevada de todo o ser vivo, físico ou moral; por isso não há dúvida sobre o sentido primacial que tem o texto. Mas, além disso, na literatura helenística da época, especialmente nos tratados de medicina, a cabeça era considerada como o centro vitalizador e ordenador de todo o corpo humano ou animal, isto é como o centro vital.

No capítulo 2, quando Paulo expõe a necessidade de estar unidos à cabeça, diz que todo o corpo, por meio de junturas e ligamentos, recebe dela nutrição e coesão para alcançar um crescimento em Deus.

A noção da Igreja como Corpo de Cristo revela uma maravilhosa concepção do mistério salvífico. Com ela se explica o crescimento e vida sobrenaturais de todos e cada um dos indivíduos que integram a comunidade cristã universal, os quais, graças à unidade orgânica que possui a Igreja como Corpo de Cristo, podem crescer na caridade, apoiando-se uns aos outros, ao mesmo tempo em que exercem a sua própria e peculiar função como membros vivos do organismo. A obra salvífica chega assim orgânica e ordenadamente a todos os membros da Igreja. Os diversos membros não estão meramente passivos nesse processo vital, mas, ao mesmo tempo em que recebem a graça, são condutores da energia sobrenatural procedente de Cristo-Cabeça, que chega assim a todos os membros da comunidade-corpo eclesial.

Mais ainda, pela íntima união entre o corpo e a cabeça, aquele prolonga a ação desta, a qual, sem o concurso do corpo ficaria de alguma maneira incompleta na sua ação vivificante. Portanto, o cristão pode em certo modo "completar" a paixão redentora do próprio Cristo. "Agora alegro-me dos meus padecimentos por vós, e completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo em benefício do Seu corpo, que é a Igreja".

A capitalidade de Cristo sobre as realidades temporais
Já que a ação dos membros da Igreja se dirige às realidades temporais, é preciso sublinhar a riqueza que tem a doutrina revelada em Cl e Ef acerca do domínio de Jesus Cristo, não só sobre os céus ou o mais íntimo do ser humano, mas sobre as realidades todas da terra e os afãs da vida quotidiana. Portanto, as realidades temporais são, em si mesmas, susceptíveis de "cristianização", mais ainda, devem ser cristianizadas, santificadas. Não se trata simplesmente de fazer as coisas sob mera invocação do nome de Jesus, mas de ordenar toda a atividade humana para Cristo. Em última instância, as ações humanas, qualquer que seja a sua índole - sacra ou profana -, adquirem uma dimensão "cristã", ou seja, sobrenatural, quando são impregnadas pelo espírito de Jesus Cristo, pelos valores morais cristãos e se realizam com retidão de intenção.

Textos seletos
1,15-20 - O hino faz uma profunda reflexão acerca do domínio de Jesus Cristo sobre toda a criação. Não há nada que não receba o influxo redentor do sangue derramado na cruz: seu sangue reconcilia todas as criaturas entre si e com Deus.

1,24 "Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja".

2,9 Nela habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

2,4.8.16.18 Paulo dá três avisos: que ninguém vos seduza, que ninguém vos julgue , que ninguém vos desqualifique.

3,1s "... procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus".

3,11 "Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos".

Peçamos a Deus que sempre desejemos procurar as coisas do alto dando uma dimensão cristã a todos os nossos atos.

Jane do Térsio

 
 
 

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