A palavra de Deus brota das páginas do
livro sagrado com a limpidez e a serenidade da água que escorre de uma
fonte. E vai matando nossa sede de bem e de verdade.
Quando Jesus enviou
seus apóstolos numa primeira viagem missionária, não era
uma missão definitiva.Era uma missão que podemos chamar experimental,
destinada ao ambiente judeu e não estendida ainda ao mundo dos gentios.
Os conselhos e as recomendações que Jesus lhes dá valem para
eles e, com as devidas transposições, valem também para todos
os pregoeiros do Evangelho.
E poderíamos começar lembrando
que eles são enviados, são mandados por Deus. Como no Antigo Testamento,
Deus mandava seus profetas, no Novo Testamento Jesus- que é o Deus-conosco-manda
seus apóstolos. Aliás, "apóstolo" é o nome
grego correspondente ao latim "missus", que significa exatamente "aquele
que é enviado". No caso, enviado por Deus. É lamentável
que haja por aí tanto "missionário", que se arroga esse
direito inclusive por deploráveis interesses pecuniários e vão
iludindo os simples e provocando a maior confusão de idéias sobre
os valores espirituais. Noutro lugar do Evangelho Jesus nos acautela sobre os
falsos profetas. Houve-os sempre. Como houve no tempo do profeta Amós,
que não era um profeta aúlico, como era o sacerdote Amasias do santuário
de Betel, a serviço do rei Jeroboão. Seu poder vinha de Deus, que
o chamara de seu humilde ofício de pastor e de cultivador de sicômoros
para anunciar a palavra do Senhor, não os caprichos do Rei. Por isso mesmo,
ele tem palavras de fogo para condenar os abusos dos grandes que com seu luxo
e sua cobiça oprimiam os humildes.
Amós, profeta não
por sua vontade mas pela vontade de Deus, gozava de uma nobre independência.
Não estava ligado a compromissos com a corte, nem com quaisquer interesses
mundanos. Como devem ser os pregoeiros do Evangelho. Desapegados de qualquer
empecilho terreno. Leves no corpo e no espírito, para o perfeito cumprimento
de sua tarefa sobrenatural. Como disse Jesus aos seus apóstolos para a
sua missão inaugural: "que nada levassem para o caminho, a não
ser um cajado apenas; nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto. Mas
que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas".
É só transpor isso para os costumes de hoje, e teremos a figura
de um missionário sóbrio, sem exigências, cheio de entrega
nas mãos da Providência.
E de Jesus receberam a missão
de anunciar o Reino de Deus e pregar a conversão. Onde entra o Reino, que
é feito de amor, de verdade e de justiça, os corações
vão mudando. Acontece a "metanoia", isto é, a mudança
de mentalidade. Como a luz dissipa as trevas, os valores do Reino vão afastando
o erro e a mentira, a injustiça e a discriminação, o ódio
e a violência. Receberam ainda o poder de expulsar os demônios, sinal
certo de que tinham chegado aos tempos messiânicos. Faziam também
curas, ungindo os enfermos com óleo, preludiando o sacramento dos enfermos,
como diz o Concílio Tridentino a respeito desse sacramento instituído
por Cristo, insinuado no Evangelho de Marcos, promulgado e recomendado aos fiéis
pelo apóstolo são Tiago (cfr. Conc. Tridentino, Sessão XIV).
E
não deixa de ter um profundo significado também o fato de Jesus
os enviar dois a dois. Era a caridade fraterna em ação. Era a condenação
do egoísmo e da auto-suficiência. Isso também falava eloqüentemente
aos coração dos ouvintes desses profetas do Novo Testamento.
A
Igreja, que toda ela é missionária, enviada para o mundo dentro
do qual vivemos, tem que ter sempre diante dos olhos a lição que
o Divino mestre deixou para os seus apóstolos. E cada pastor da Igreja
- e por que não dizer também cada evangelizador, catequista, e cada
pai, e cada mestre? - deve assumir em sua vida as santas lições
do Evangelho, para que Deus esteja presente em tudo aquilo que pregam e ensinam.
Dom
João Resende Costa |