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Vamos conhecer a Bíblia|OUTUBRO

2ª Carta aos Coríntios (1)

Introdução

2 Coríntios foi definida, com razão, como "a mais enigmática das cartas de Paulo". Paulo não escreveu coisa alguma que fosse mais eloqüente, mais comovida e mais apaixonada que esta carta. A tristeza e a alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desprezo nela vibram com a mesma intensidade. A arte de elevar os incidentes mais comuns com os mais altos princípios da fé torna-a uma mina inexaurível para o ascetismo e a mística.
Em nenhuma outra parte dos escritos paulinos, o caráter humano exaltado do grande apóstolo é mais evidente que em 2 Coríntios.
Aqui temos o testemunho pessoal de Paulo, suas reações ardentes quando vítima de desconfiança e acusações, e suas preocupações com uma comunidade pela qual tem profundo amor. Em largas pinceladas, Paulo esboça o próprio perfil e, ao mesmo tempo, nos dá uma visão de seu íntimo, sua vulnerabilidade e seus sentimentos fortes pelos outros. É um reflexo de uma alma em ebulição: a mais pessoal e a mais reveladora de todas as epístolas de Paulo. 2 Coríntíos evoca a parte de Paulo que mais nos atrai sua sagacidade , sua afeição, mas também proporciona o enfoque daquilo que os leitores mais antipatizam e suspeitam em Paulo e que têm em mais probabilidade de interpretar mal e rejeitar.

Entre as epístolas paulinas, a 2 Coríntios é antes uma obra de polêmica e persuasão do que uma exposição sistemática como a epístola aos Romanos. Nela, o apóstolo Paulo recorre a um estilo vivo e apaixonado para defender o seu apostolado contra os seus adversários e afirmar a sua dependência exclusiva do Cristo.
Com maestria, o apóstolo mistura, em suas exortações, diversos sentimentos: amor e admoestação, cólera e ternura; ele quer manter a todo custo a unidade da Igreja de Corinto e contribuir para a sua edificação profunda.

2 Coríntios é talvez a carta mais pessoal de Paulo, a que nos faz tocar com a mão o peso da sua solicitude para com todas as Igrejas (11,28) , o amor profundo com que as amava, sua preocupação pelo seu progresso espiritual, como também o preço por ele pago para executar seu programa missionário: dificuldades, sofrimentos, privações e humilhações incríveis. Mas por outro lodo aí percebemos também sua fé inabalável, que supera tudo e tudo transforma.

Comparando 1 e 2 Coríntios, verifica-se que há grandes diferenças entre uma e outra. A primeira é doutrinária, abordando diversos temas teológicos como a unidade da Igreja, a ceia eucarística, a ressurreição dos mortos, os carismas, etc. Ao contrário, a 2 Coríntios, entre outras coisas, trata das relações de Paulo com a comunidade, desfaz mal-entendidos, expõe os sentimentos de alma do apóstolo.

Circunstâncias da composição

Entre a 1 Carta aos Coríntios, escrita na primavera do ano 57, e a 2 enviada no outono do mesmo ano, devem ter sucedido uma série de acontecimentos que deram motivo a Paulo para se dirigir de novo por escrito aos fiéis de Corinto. Esses acontecimentos nem mesmo nos nossos dias chegaram a esclarecer-se.

Os Atos dos Apóstolos nada falam sobre os eventos que estão por trás de 2 Cor. As informações nos chegam somente através desta. Em concreto, ela fala: a) de uma visita de Paulo a Corinto, que lhe trouxe muita tristeza; b) de um desagradável incidente que perturbou o relacionamento do apóstolo com a comunidade coríntia; c) de uma carta severa, escrita "entre muitas lágrimas"; d) do projeto de uma terceira viagem à capital da Acaia; e) da mediação de Tito, que fez a ligação entre Corinto, Éfeso e a Macedônia; f) de um acontecimento dramático vivido pelo apóstolo na Ásia, e de suas ansiedades; g) de anônimos adversários que, na Igreja coríntia, minam progressivamente sua autoridade apostólica; h) dos fatos ligados à coleta para os cristãos pobres de Jerusalém. Infelizmente, não é possível traçar a exata sucessão cronológica desses fatos.

Os efeitos alcançados pela 2 Cor foram muito satisfatórios: a reconciliação da comunidade com seu pai espiritual se consolidou. Por isso, pouco depois de enviada 2 Cor, Paulo, no inverno de 57/58, se deteve três meses em Corinto; esta terceira visita parece ter decorrido numa atmosfera de muita calma, que permitiu ao Apóstolo redigir a epístola aos Romanos, profundamente mergulhado na teologia.

Será que a 2 Cor constitui uma só carta ? Pode-se dizer que é bem possível que em 2 Cor diversas epístolas ou fragmentos tenham sido ajuntados, mas continuará extremamente difícil provar tal coisa.

Há dados suficientes para afirmar que Paulo escreveu quatro cartas aos fiéis de Corinto: a primeira, pré-canônica, que se perdeu, é mencionada em 1 Cor 5,9; a segunda escrita em Éfeso na primavera de 57, é inspirada e faz parte do cânon como 1 Carta aos Coríntios; a terceira, escrita também em Éfeso " com muitas lágrimas" é mencionada em 2 Cor 2,4; a quarta foi redigida em Macedônia, provavelmente em Filipos, no outono do ano 57 e entrou no cânon bíblico como 2 Carta aos Coríntios.

Conteúdo e Estrutura

*1,1-11 - Introdução

*1,12-7,16 - Ministério apostólico. Com a apologia da sua pessoa e do seu apostolado fica delineada a figura dos Apóstolos, colunas da Igreja.

1,12- 2,17 As relações de Paulo com os coríntios após 1 Cor.
Explica as mudanças no projeto de viagem.

3,1-7,1 A dignidade do ministério apostólico. Defende a superioridade do ministério da Nova Aliança (2,14-4,6). Expõe as angústias e as esperanças desse ministério (4,7-5,10) Fala das dificuldades que enfrentou no ministério (6,1-7,4).

7,2-10 O restabelecimento das boas relações de Paulo com os coríntios. Informa que com a chegada de Tito tudo ficou esclarecido.

*8,1-9,15 A coleta em favor da comunidade de Jerusalém. Já em 1 Cor tinha levado estes cristãos mais fornecidos economicamente a ajudarem os de Jerusalém, que se encontravam em sérias dificuldades de perseguição e penúria.

Nesta segunda carta dedica dois capítulos a este tema.

*10,1-13,10 - Apologia polêmica diante dos adversários

10,1-18 - Refutação das calúnias

11,1-12,18 A justa glória de Paulo

12,19 13,10 Admoestação preparatória da próxima visita

*13,11-13 - Epílogo.

Continua no próximo número

Jane do Térsio

 
 
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