2ª Carta aos Coríntios (1) Introdução
2
Coríntios foi definida, com razão, como "a mais enigmática
das cartas de Paulo". Paulo não escreveu coisa alguma que fosse mais
eloqüente, mais comovida e mais apaixonada que esta carta. A tristeza e a
alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desprezo nela vibram com
a mesma intensidade. A arte de elevar os incidentes mais comuns com os mais altos
princípios da fé torna-a uma mina inexaurível para o ascetismo
e a mística. Em nenhuma outra parte dos escritos paulinos, o caráter
humano exaltado do grande apóstolo é mais evidente que em 2 Coríntios.
Aqui temos o testemunho pessoal de Paulo, suas reações ardentes
quando vítima de desconfiança e acusações, e suas
preocupações com uma comunidade pela qual tem profundo amor. Em
largas pinceladas, Paulo esboça o próprio perfil e, ao mesmo tempo,
nos dá uma visão de seu íntimo, sua vulnerabilidade e seus
sentimentos fortes pelos outros. É um reflexo de uma alma em ebulição:
a mais pessoal e a mais reveladora de todas as epístolas de Paulo. 2 Coríntíos
evoca a parte de Paulo que mais nos atrai sua sagacidade , sua afeição,
mas também proporciona o enfoque daquilo que os leitores mais antipatizam
e suspeitam em Paulo e que têm em mais probabilidade de interpretar mal
e rejeitar.
Entre as epístolas paulinas, a 2 Coríntios é
antes uma obra de polêmica e persuasão do que uma exposição
sistemática como a epístola aos Romanos. Nela, o apóstolo
Paulo recorre a um estilo vivo e apaixonado para defender o seu apostolado contra
os seus adversários e afirmar a sua dependência exclusiva do Cristo.
Com maestria, o apóstolo mistura, em suas exortações,
diversos sentimentos: amor e admoestação, cólera e ternura;
ele quer manter a todo custo a unidade da Igreja de Corinto e contribuir para
a sua edificação profunda.
2 Coríntios é talvez
a carta mais pessoal de Paulo, a que nos faz tocar com a mão o peso da
sua solicitude para com todas as Igrejas (11,28) , o amor profundo com que as
amava, sua preocupação pelo seu progresso espiritual, como também
o preço por ele pago para executar seu programa missionário: dificuldades,
sofrimentos, privações e humilhações incríveis.
Mas por outro lodo aí percebemos também sua fé inabalável,
que supera tudo e tudo transforma.
Comparando 1 e 2 Coríntios, verifica-se
que há grandes diferenças entre uma e outra. A primeira é
doutrinária, abordando diversos temas teológicos como a unidade
da Igreja, a ceia eucarística, a ressurreição dos mortos,
os carismas, etc. Ao contrário, a 2 Coríntios, entre outras coisas,
trata das relações de Paulo com a comunidade, desfaz mal-entendidos,
expõe os sentimentos de alma do apóstolo.
Circunstâncias
da composição
Entre a 1 Carta aos Coríntios, escrita
na primavera do ano 57, e a 2 enviada no outono do mesmo ano, devem ter sucedido
uma série de acontecimentos que deram motivo a Paulo para se dirigir de
novo por escrito aos fiéis de Corinto. Esses acontecimentos nem mesmo nos
nossos dias chegaram a esclarecer-se.
Os Atos dos Apóstolos nada
falam sobre os eventos que estão por trás de 2 Cor. As informações
nos chegam somente através desta. Em concreto, ela fala: a) de uma visita
de Paulo a Corinto, que lhe trouxe muita tristeza; b) de um desagradável
incidente que perturbou o relacionamento do apóstolo com a comunidade coríntia;
c) de uma carta severa, escrita "entre muitas lágrimas"; d) do
projeto de uma terceira viagem à capital da Acaia; e) da mediação
de Tito, que fez a ligação entre Corinto, Éfeso e a Macedônia;
f) de um acontecimento dramático vivido pelo apóstolo na Ásia,
e de suas ansiedades; g) de anônimos adversários que, na Igreja coríntia,
minam progressivamente sua autoridade apostólica; h) dos fatos ligados
à coleta para os cristãos pobres de Jerusalém. Infelizmente,
não é possível traçar a exata sucessão cronológica
desses fatos.
Os efeitos alcançados pela 2 Cor foram muito satisfatórios:
a reconciliação da comunidade com seu pai espiritual se consolidou.
Por isso, pouco depois de enviada 2 Cor, Paulo, no inverno de 57/58, se deteve
três meses em Corinto; esta terceira visita parece ter decorrido numa atmosfera
de muita calma, que permitiu ao Apóstolo redigir a epístola aos
Romanos, profundamente mergulhado na teologia.
Será que a 2 Cor
constitui uma só carta ? Pode-se dizer que é bem possível
que em 2 Cor diversas epístolas ou fragmentos tenham sido ajuntados, mas
continuará extremamente difícil provar tal coisa.
Há
dados suficientes para afirmar que Paulo escreveu quatro cartas aos fiéis
de Corinto: a primeira, pré-canônica, que se perdeu, é mencionada
em 1 Cor 5,9; a segunda escrita em Éfeso na primavera de 57, é inspirada
e faz parte do cânon como 1 Carta aos Coríntios; a terceira, escrita
também em Éfeso " com muitas lágrimas" é
mencionada em 2 Cor 2,4; a quarta foi redigida em Macedônia, provavelmente
em Filipos, no outono do ano 57 e entrou no cânon bíblico como 2
Carta aos Coríntios. Conteúdo e Estrutura *1,1-11
- Introdução
*1,12-7,16 - Ministério apostólico.
Com a apologia da sua pessoa e do seu apostolado fica delineada a figura dos Apóstolos,
colunas da Igreja.
1,12- 2,17 As relações de Paulo com os
coríntios após 1 Cor. Explica as mudanças no projeto
de viagem.
3,1-7,1 A dignidade do ministério apostólico.
Defende a superioridade do ministério da Nova Aliança (2,14-4,6).
Expõe as angústias e as esperanças desse ministério
(4,7-5,10) Fala das dificuldades que enfrentou no ministério (6,1-7,4).
7,2-10
O restabelecimento das boas relações de Paulo com os coríntios.
Informa que com a chegada de Tito tudo ficou esclarecido.
*8,1-9,15 A coleta
em favor da comunidade de Jerusalém. Já em 1 Cor tinha levado estes
cristãos mais fornecidos economicamente a ajudarem os de Jerusalém,
que se encontravam em sérias dificuldades de perseguição
e penúria.
Nesta segunda carta dedica dois capítulos a este
tema.
*10,1-13,10 - Apologia polêmica diante dos adversários
10,1-18 - Refutação das calúnias
11,1-12,18
A justa glória de Paulo
12,19 13,10 Admoestação preparatória
da próxima visita
*13,11-13 - Epílogo.
Continua
no próximo número
Jane do Térsio |