É claro que as fontes franciscanas não falam em fracassos
de São Francisco. Isso porque a "teologia do fracasso"
nasceu no nosso tempo. As fontes falam apenas na juventude "dissipada"
de Francisco, e falam também de seus sofrimentos com as doenças
de estômago, do baço, do fígado e dos olhos. Falam
amplamente de sua "noite escura" depois da estigmatização
e das preocupações com os rumos da própria Ordem,
que o faziam sofrer no fim de sua vida. Mas, não usam a palavra
"fracasso".
No entanto, também não devemos imaginar um Francisco
"massacrado pela Igreja", como o apresentam, por exemplo,
Paul Sabatier, Emest Renan, e outros. Este Francisco não existiu!
Não é tarefa nada fácil, chegar a uma avaliação
objetiva e equilibrada sobre a personalidade de São Francisco.
Mas ele foi uma pessoa humana, como todos nós. Teve sonhos
e utopias, desde a sua juventude. O "próprio altíssimo"
interveio fortemente em sua caminhada, mudando e alterando várias
vezes estes sonhos e utopias. E, apesar de tudo isso, Francisco "amargurou"
uma porção de fracassos em sua vida. Vejamos os principais:
a) O fracasso da utopia de ser cavaleiro famoso.
Celano deixa-nos perceber muito bem a grande ambição
de glória que o jovem Francisco alimentava: - "Era ambicioso
de glória.. prometeu a si mesmo o máximo de glória
mundana e de vaidade".
São Boaventura conta como este sonho de glória e fama
desfez como "ilusão", por ação do Espírito
Santo nele: - "Volta para a tua terra, pois a visão que
tiveste, prefigura um acontecimento totalmente espiritual que se realizará
não da maneira como o homem propõe, mas assim como Deus
dispõe".
b) O fracasso afetivo no relacionamento com o pai e com seu irmão
Ângelo.
Conforme as Fontes, Pedro Bernardone não compreendeu e nem
aceitou a vocação do filho. Preferiu "reaver o
dinheiro". E quando o conseguiu de volta, acalmou-se um bocado
o furor do pai irado".
Francisco ainda tentou a reconciliação:
- "Quando viu que seu pai carnal estava chegando, veio seguro,
alegre e espontaneamente ao seu encontro" . Mas ao perceber que
"o pai cuidou apenas de reaver o dinheiro... diante do bispo
não esperou que falassem, nem ele mesmo não disse nada.
Despiu-se imediatamente, jogou as suas roupas ao chão e as
devolveu ao pai".
c) O fracasso de sua saúde.
Francisco "sofria, havia muito tempo, do estômago e do
fígado"; e, também durante longos anos sofreu dos
olhos, ficando praticamente cego no fim da vida Fez uma cauterização
muito dolorosa nas têmporas, porque "havia anos que se
lhe acumulavam sobre os olhos os humores e líquidos que, dia
e noite, escorriam... e a operação não lhe trouxe
alívio algum".
d) O fracasso de Francisco "formador"
Francisco sofreu muito com vários problemas que foram surgindo
na Ordem. Principalmente o relaxamento na vida de pobreza e o descuido
da vida de oração. Estes "pecados" doíam-lhe
no fundo da alma sensível de formador dos irmãos.
e) O fracasso de Francisco "fundador"
O maior sofrimento do Santo, na fase final de sua vida, causaram-lhe
os problemas existentes na Ordem, que crescera demasiadamente, fazendo
com que ele perdesse parcialmente o controle sobre a mesma.
Superando os fracassos
Se as fontes não falam, literalmente, de em São Francisco,
é claro que também não falam de sua capacidade
para superá-las. Vamos lembrar aqui alguns aspectos do segredo
que o Santo tinha para superar os momentos mais dolorosos de sua
vida:
a) Pela alegria (exterior e interior)
São Francisco nos ensina até a perfeita alegria Chegou
também a prescrever a alegria para todos os seus seguidores:
Guardem-se os irmãos de se mostrarem, em seu exterior,
como tristes e sombrios hipócritas. Mas antes comportem-se
como gente que se alegra no Senhor, satisfeitos e amáveis,
como convém".
É Celano quem nos revela um pouco do segredo de São
Francisco para superar os seus fracassos: - "Estava sempre
imperturbável e alegre, e entoava para si mesmo e para Deus
cânticos de alegria em seu coração".
b) Pela verdadeira paz do coração.
Francisco aprendeu a permanecer tranqüilo, na mais profunda
paz do coração, em meio aos seus maiores sofrimentos.
Na sua pedagogia própria e típica, deixou uma norma
de ouro aos seus seguidores. Ensina que, quando se tem a verdadeira
paz no coração, consegue-se superar qualquer sofrimento
ou provação.
c) Pela aceitação alegre da vontade de Deus.
Certamente não são muitos os santos e santas que viveram
uma aceitação tão radical da vontade de Deus
como São Francisco. Como prova desta afirmação,
serve uma citação de Celano:
- "Possuindo o espírito de Deus, era um homem preparado
para suportar todas as angústias, tolerar todas as paixões,
contanto que lhe fosse dada a possibilidade de cumprir-se nele,
misericordiosamente, a vontade do Pai celestial".
Chegou ao mais incrível ato de coragem, pedindo para sofrer
e amar como Cristo sofreu e amou:
- Ó Senhor, meu Jesus Cristo, duas graças te peço
que me faças antes que eu morra: a primeira é que,
em vida, eu sita na alma e no corpo, quanto for possível,
aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima
paixão; a segunda é que eu sinta nó meu coração,
quanto for possível, aquele excessivo amor do qual Tu, Filho
de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal
paixão por nós pecadores".
d) Pela celebração lúdica da vida.
Lúdico vem do verbo latino ludere, que significa
brincar, celebrar, festejar. Viver o sentido lúdico da vida
é essencial para a pessoa humana; caso contrario, ela cai
na tristeza e na depressão, e acaba no fracasso!
O próprio Espírito Santo é a fonte da alegria
lúdica; ele brinca e dança na contemplação
da beleza das criaturas que saem das mãos do Pai. Celebrou
grandes momentos lúdicos na sua vida, como seu despojamento
diante do pai, o beijo do leproso, a celebração do
Natal em Océcio; quando dançou diante do Papa, a domesticação
do lobo de Gúbio, a estigmação e, por fim,
a celebração da sua própria morte.
Lição para hoje
A sociedade atual tem sua imagem bem determinada da pessoa realizada
e feliz: é aquela que vence todas as lutas e concorrências.
Para o cristão, o fracasso não é derrota; mas
todo o fracasso pertence ao plano de salvação de Deus,
se for adequadamente assumido.
Rejeita o fracasso é perder riqueza de crescimento e de vida.
Aceitar o fracasso e saber lidar com ele é sabedoria de vida
Aceitar e superar o fracasso é descobrir a grandeza na fraqueza.
O fracasso aceito, assumido e superado não é mais
fracasso, tornou-se vitória.
- O maior fracasso da história humana foi a morte de Cristo,
que morreu no vergonhoso patíbulo da cruz e "foi eliminado
do meio dos homens". Mas, no plano da graça, a Cruz
é o símbolo máximo de vitória e redenção.
Quem vive e se entrega ao Cristo, crucificado, morto e ressuscitado,
encontra o caminho de superação em qualquer fracasso
de sua vida. É preciso saber sempre "morrer e ressuscitar
com Cristo, como nova criatura"
Frei Urbano Plentz, ofm (Ordem dos Frades Menores) membro da
Academia Mineira de Letras
Retirado do Jornal Opinião
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