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Evangelho de João (4)
Relação do Evangelho de João com os Sinóticos
A primeira questão que se coloca é se João
conhecia os Sinóticos.
A explicação que parece mais razoável é
que ele conhecia o conteúdo dos três primeiros Evangelhos.
Sua intenção não era repetir o que já
estava dito; mas de certa maneira, seu Evangelho completa e ilumina
os outros três. Por exemplo : em Jo 21,15-17 o triplo mandato
conferido a Pedro de apascentar as ovelhas vem ilustrar a passagem
que Jesus anuncia Pedro como fundamento pedra - sobre a qual vai
edificar a Sua Igreja. (Mt 16,18).
Era sua intenção fortalecer a fé dos seus destinatários,
que certamente conheciam os Sinóticos e estavam agitados
pelas falsas idéias que negavam a divindade de Jesus ou seja
o debate teológico de seu tempo requeria uma exposição
mais aprofundada.
Existem semelhanças e diferenças entre o Quarto e
os outros três Evangelhos.
Como semelhanças entre eles podemos citar a mesma idéia
de escrever um "Evangelho" construido como extenso relato.
A maior parte do material de João é próprio
dele mesmo mas há também alguns episódios comuns:
1,19-34 O testemunho de João Batista e o Batismo de Jesus.
1,35-51 O chamado dos primeiros discípulos.
2,13 16- A purificação do Templo.
6,1-13 A multiplicação dos pães.
6,16-21 Caminhando sobre as águas.
12,1-8 A unção de Betania.
12,12-19 O ingresso triunfal em Jerusalém.
13,21-30 O anúncio da traição de Judas.
Algumas afirmações teológicas, como por exemplo:
os títulos cristológicos: Messias, Filho do Homem,
Filho de Deus.
Algumas sentenças do Senhor, geralmente esparsas.
A ampla narração da Paixão e Ressurreição,
mas João oferece uma visão especificamente sua desses
acontecimentos.
Somente dois milagres são comuns a ele e aos Sinóticos.
Eis as principais diferenças entre ele e os Sinóticos.
* Conta menos fatos e milagres, quando o faz é em forma muito
desenvolvida. Assim não menciona : as tentações
no deserto, a Transfiguração, a narração
da instituição da Eucaristia, a agonia no Getsemani,
a maioria das parábolas e muitos ensinamentos como o Sermão
da Montanha. Isto não quer dizer que João ignore sua
importância, mas sim que ele tem uma perspectiva diferente.
Dos 25 milagres que os Sinóticos narram, João refere
só 2 : 6,11- a - multiplicação dos pães
e 6,19- o caminhar sobre as águas, e fala de outros 5 milagres
diferentes:
2,1-11- transformação da água em vinho nas
Bodas de Caná;
4,46-54 cura do filho de um funcionário real, é provavelmente
paralelo a
Mt 8,5-13 e Lc 7,1-10; 5,1-9 cura de um enfermo na piscina de Betesda;
9,1-41 cura de um cego de nascença;
11,33-44 ressurreição de Lázaro.
Chama os milagres de sinais porque lhe servem de fundamento para
o ensinamento que quer sublinhar. Assim nas Bodas de Caná,
Jesus manifesta a sua glória, revela o começo da era
messiânica e vislumbra-se a função da sua Mãe
na obra da Redenção (2,1-11). Na multiplicação
dos pães e dos peixes também conservado pelos Sinóticos,
oferece como um prólogo histórico às palavras
de Jesus sobre o "Pão da Vida"; a cura do cego
de nascença e a Luz do mundo; a ressurreição
de Lázaro e Jesus que é a Ressurreição
e a Vida.
* Mais que as palavras e os atos de Jesus, interessa-lhe o sentido
dos mesmos. Ele pretende esclarecer o sentido da vida, das ações
e das palavras de Jesus e o faz com um estilo e processo de composição
diferentes. Os discursos de Jesus, em João, são freqüentemente
discussões com os judeus.Ele não fala em parábolas
ou com frases lapidadas ou seções breves, mas expõe
a sua doutrina em discursos e diálogos longos, por exemplo:
a transcendência de Deus (Pai,Filho e Espírito Santo),
o valor do Batismo (cap 3), da Eucaristia (cap 6), da graça
( cap 4), da fé (cap 9).
* No Quarto Evangelho usam-se os termos testemunhar e ensinar; nos
Sinóticos são mais empregados evangelizar, proclamar
e pregar.
* Sua mensagem se centra na pessoa de Jesus: Ele é a Boa
Nova e o Reino. Ele realça, talvez mais que seus antecessores,
o mistério da pessoa de Jesus, o enviado de Deus, sua transcendência
e sua preexistência, sua missão e origem assim como
a atitude do homem diante dele. Já no Prólogo o evangelista
se remonta diretamente até o cume da divindade. Com razão
o símbolo que representa São João é
a águia.
* Somente ele menciona as festas intermediárias entre a primeira
e a última Páscoa.Notam-se diferenças de ordem
geográfica e cronológica: enquanto os Sinóticos
evocam uma longa estada na Galiléia, seguida de uma caminhada
mais ou menos prolongada rumo à Judéia concluída
por uma breve presença em Jerusalém, João,
ao contrário, narra freqüentes deslocamentos de uma
região à outra e encara uma presença de longa
duração na Judéia, e sobretudo em Jerusalém
(1,19-51; 2,13-3,36; 5,1-47; 7,14-20,31). Ele menciona várias
celebrações pascais: 2,13; 5,1; 6,4; 11,55 e sugere
assim um ministério de mais de dois anos.
Mesmo sendo o mais teológico dos Evangelhos é também
o mais minucioso em matéria de História. Em João
há dez alusões à topografia da Palestina não
encontrados nos Sinóticos.
*Outras características: o seu simbolismo, sem menosprezo
da historicidade dos fatos: água, sangue, luz, vida ganham
em João denso significado. Ele gosta dos temas : mundo, luz-trevas,
verdade-mentira, glória de Deus-glória que vem dos
homens.
* João substituiu o tema fundamental da pregação
de Jesus nos Sinóticos o anúncio do Reino ( que só
aparece em 3,3-5 " quem não nascer do alto...quem não
nascer da água e de Espírito não pode entrar
no Reino de Deus" e 18,36 "Meu Reino não é
deste mundo") pelo da vida eterna concebida como um bem escatológico
divino e do qual é possível tomar posse desde agora.
* Se faltam no Quarto Evangelho elementos dos Sinóticos,
encontram-se, em compensação, dados novos: o sinal
de Caná (2,1-11), a conversa com Nicodemos (3,1-11), o diálogo
com a samaritana (4,5-42), a ressurreição de Lázaro
e suas consequências (11,1-457), o lava-pés (13,1-19)
e diversas indicações na narrativa da Paixão
e da Ressurreição.
* Não falar da instituição da Eucaristia não
quer dizer que ignorasse a sua importância, visto que nos
transmite os discursos de Jesus sobre o Pão da Vida, com
clareza e amplitude(6,32-58). Nos acontecimentos da Paixão,
Morte e Ressurreição há uma perspectiva própria
sob a luz da glorificação de Cristo. Vê-se nesses
momentos "a hora de Jesus": 2,4; 7,30; 8,20; 12,23.27;
13,1; 17,1 em que o Pai glorifica o Filho, que, ao morrer,vence
o demônio, o pecado e a morte, e é exaltado sobre todas
as coisas (12,32-33). Quando Jesus anuncia a sua Paixão,
os Simóticos fixam-se em que é conveniente que o Filho
do Homem padeça (Mt 16,21e paralelos) enquanto João
sublinha que convém que o Filho do Homem seja exaltado Jo
3,14-14; 8,28; 12,32s. Ele compreende a Paixão e o suplício
do crucificado como o inicio da sua glorificação.
* Nos Sinóticos, a manifestação da glória
de Cristo está ligado, antes de tudo, ao seu retorno escatológico
(Mt 16,27s) em João também se encontram os principais
elementos da escatologia tradicional: a espera do "último
dia" (6,39s; 11,24; 12,48), da "vinda" de Jesus (
14,3; 21,22s), " da ressurreição dos mortos"
(5,28s; 11,24) e do "juízo final" (5,29.45; 3,36).
Observa-se uma tendência a atualizar e a interiorizar a escatologia.
A "vinda" do Filho do Homem é apresentada sobretudo
como a vinda de Jesus a este mundo pela encarnação,sua
elevação na cruz e seu retorno aos seus pelo Espírito
Santo; o "Julgamento" realiza-se desde já no íntimo
dos corações. A vida eterna (que em João equivale
ao "Reino" dos Sinóticos) é possuída
desde já na fé.
Jane do Tércio
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