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Sempre achei muito bonito a menção, no início
de obras literárias um pouco mais antigas, da expressão
"no ano da graça de 1629" (ou outra data qualquer).
A mim parece que não há expressão mais bela
para designar o passar do tempo que, afinal de contas, é
graça do Senhor. É uma expressão que caiu em
desuso mas que neste ano pode servir como motivo de reflexão
para cada um de nós. O que será que o Senhor espera
de nós neste novo ano em que mais uma vez nos concede a graça
de continuarmos vivendo? E mais, será que já conseguimos
ter consciência de que a nossa vida é puro dom da graça
de Deus, e que apesar de todas as dificuldades e sofrimentos pelos
quais passamos, só continuamos nossa caminhada aqui por vontade
e misericórdia d'Ele?
Estas são perguntas difíceis na minha caminhada de
fé, e suponho que na de muitos jovens. Quando penso na vontade
de Deus para minha vida, em suas expectativas de como eu deva vivenciar
todas as situações com as quais me deparo no meu dia-a-dia,
enfim aquilo que o Senhor tem esperado que eu realize com os dons
que me confiou, fico de certa forma entristecido. Me parece que
a realização da vontade de Deus em minha vida está
sempre em segundo plano, no tempo que sobra de outras atividades
que coloco como prioritárias. Meu trabalho, algum estudo,
o namoro e os amigos estão entre as coisas que tomam mais
tempo de minha vida e que por diversas vezes me impediram de estar
mais presente na comunidade, ou mesmo de fazer melhor o pouco serviço
que tenho me proposto a fazer pela evangelização e
formação de outros jovens como eu. Quando penso na
forma como Jesus viveu, dedicando seu tempo todo em função
do próximo e do anúncio da boa nova, me parece extremamente
egoísta que eu só possa gastar as sobras do meu tempo
para servir a meus irmãos e ao Senhor.
A maior parte de meu tempo hoje é dedicada a servir a mim
mesmo. No trabalho e nos estudos busco garantir que meus sonhos
de um futuro tranqüilo, assegurado por um bom rendimento que
garanta conforto para mim e minha família, possam se realizar
por meus méritos. No namoro e no relacionamento com os amigos,
dedico meu amor àqueles que me retribuem de alguma forma,
seja por seu carinho ou simplesmente pelo prazer de sua presença.
Em tudo, busco garantir por meus esforços que meus sonhos
de felicidade se realizem.
Porém, ao pensar em minha fé, vejo o quanto isto mostra
uma grande falta de confiança na ação de Deus
em minha vida, ou seja, na própria providência divina.
Em diferentes ocasiões, Jesus nos exortou a que não
nos preocupássemos com o sustento ou com a maneira em que
os acontecimentos do futuro se encaminhariam, pois o Pai cuidaria
de tudo para nós. O que se pedia de nós era simplesmente
que buscássemos aceitar e acolher o amor de Deus e seu imenso
cuidado para conosco ao longo de nossa vida. E que, em virtude deste
amor, que nos é dado por graça, pudéssemos
amar o nosso próximo, sem esperar retribuição.
Diante desta realidade que conheço, como posso duvidar da
graça do Pai em minha vida? Como amar o próximo somente
no tempo que me sobra e quando isto não contraria meus interesses?
Como não me entregar e confiar minha vida a vontade do Deus
que me ama apesar de tudo que eu sou e faço? Sei que é
uma loucura recusar o cuidado e o amor do Pai, mas como é
difícil viver este abandono a cada dia. É um abandono
da minha vontade, dos meus sonhos e da busca por eles. Um abandono
das expectativas dos outros para mim e da forma como acham que eu
deveria conduzir minha vida. Um abandono que é a plena confiança
no cuidado e na capacidade que Deus tem de conduzir a minha vida.
Deus me ama muito mais do que eu seria capaz de me amar. Aceita
tudo que eu rejeito em mim mesmo, e tem sonhos de felicidade para
mim muito maiores do que os meus. Sei disso tudo, só me falta
fé suficiente que me permita viver esta entrega, ou este
abandono, como prefiram.
Porém, neste ano da graça de 2002, estou decidido
a mudar isso. Quero caminhar aos poucos em busca deste abandono,
e da aceitação plena da graça de Deus em minha
vida. Sinto que Deus tem me chamado a viver um compromisso maior
no serviço e anúncio da boa nova, e quero vivê-lo.
Deus dedica o mesmo amor infinito a cada pessoa de nossa comunidade,
e nos convida a cada dia, e mesmo a cada ano, a viver este abandono
à sua graça. Convido em especial a juventude a buscar
a vivência desta confiança no Senhor a cada dia, buscando
um compromisso maior no serviço e no amor ao próximo,
e também em seu desenvolvimento pessoal na fé.
Fabio Miranda
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