Caríssimos irmãos, a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!
Desde o século I os cristãos costumavam visitar os túmulos dos mártires nas catacumbas para rezar pelos falecidos. No século IV começamos a encontrar a memória dos mortos na celebração da santa missa e assim desde o século V, a Igreja dedica um dia por ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos qual ninguém se lembrava. Desde o século XIII, esse dia anual é comemorado no dia 2 de novembro, porque no dia 1. ° de novembro é a festa de Todos os Santos, onde é celebrado todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados.
O dia de todos os mortos celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração. O dia de finados é o dia da celebração da vida eterna das pessoas queridas que partiram dessa vida; é o dia do amor, porque amar é ter a certeza que o outro não morrerá nunca. É celebrar a vida eterna, a vida cristã vivida em comunhão íntima com Deus, agora e para sempre.
Qual é o sentido de rezar pelos mortos e de celebrar missa por alma dos falecidos? A resposta a esses questionamentos exige de nós uma compreensão melhor sobre o sentido da vida e da morte. Primeiro será preciso entender de onde vem esse costume de rezar pelos falecidos. Voltados apenas à experiência do Cristianismo, sabemos que é uma religião procedente do Judaísmo. Jesus, inclusive, era judeu. Na matriz judaica, o costume de rezar pelos mortos e a crença na ressurreição não é algo muito antigo, historicamente falando, como podemos observar em II Mac 12, 38-46: “Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado. No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário para depô-los na sepultura ao lado de seus pais. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte. Bendisseram, pois, a mão do justo Juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, vendo diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles.
Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era isso um bom e religioso pensamento; eis porque ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas.” Aqui, então, aparece nitidamente a idéia de que valeria a pena oferecer sacrifícios expiatórios em favor dos falecidos. É preciso entender o seguinte: Para os mortos só existem três caminhos. O primeiro é o céu: Um prêmio reservado aos bem-aventurados. O Segundo é o inferno: O livre arbítrio que fora dado pelo Senhor a nós, sendo uma escolha de quem livremente negou a Deus. A terceira via é o purgatório.
Mas, o que vem a ser isso? Trata-se de um lugar ou uma realidade? O apóstolo Paulo na I Cor 3, 2-15, faz menção ao purgatório ao dizer que nossas obras serão provadas pelo fogo.
Outros nomes de peso, na história da Igreja, também falaram sobre o tema, dentre eles: Clemente, Orígenes, Santo Agostinho e Gregório Magno. Para Agostinho, a oração pelos mortos faz com que eles alcancem o perdão de seus pecados. Ele mesmo rezou por sua mãe falecida conforme escrito em seu livro Confissões. A imaginação popular encarregou-se de tratar esse assunto e hoje temos um festival de opiniões, cada uma mais extravagante que a outra. Sobre o assunto, o ensino da Igreja sempre foi sóbrio. É preciso entender que o homem é um ser em construção. Esse processo de construção é lento enquanto a morte é rápida. Ninguém poderá comparecer diante do Deus Altíssimo e Santíssimo com as manchas de pecado. Mas, como isso pode ser possível a um ser humano? Somente a Virgem Maria, foi preservada de todo pecado, assim afirma a Igreja.
Nosso processo de purificação já acontece nessa vida. Como tudo pode acontecer, talvez, nem mesmo durante a vida toda, teremos condições de abraçar um estado de pureza almejado por Deus. Nesse caso, seremos, após a morte, totalmente entregues à misericórdia divina. Na dúvida, se a pessoa já morreu preparada ou não, então intercedemos por ela. Se para ela, de nada vai adiantar nossas súplicas, com certeza, para nós farão um grande bem. Já vimos muita gente se queixando por não ter rezado, de ter se esquecido dos entes queridos, mas nunca vimos ninguém reclamando por ter rezado demais! O purgatório já acontece nessa vida, mas, pode acontecer também na hora da morte.
Deve ser muito difícil para nós quando nos depararmos com Deus e sua infinita bondade e ver o tamanho de nossa mediocridade! Será realmente doloroso constatar que não vivemos como deveríamos ter vivido; batizados que viveram como pagãos. O encontro decisivo e definitivo com Deus vai acontecer numa esfera de amor infinita. Mas, será que estamos preparados para esse encontro? Eu particularmente há muitos anos, costumo rezar pelos falecidos todos os dias durante o sacrifício da Santa Missa, e não apenas no dia de finados. Talvez, eles não precisem de minhas orações. Ainda assim, peço a Deus que tenha piedade de todos os que morreram desde Adão até os dias de hoje, sem a devida preparação, para que todos sejam incluídos na sua misericórdia nesse encontro de amor. Espero que um dia alguém também se lembre de rezar por mim. Melhor que ninguém, estou consciente de minhas fraquezas e preciso contar com a caridade fraterna e a piedade divina!
Ricardo da Liturgia das 10:30h
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