PE. AMBROSIO
Alguns Párocos da nossa Paróquia se tornaram inesquecíveis, quer sejam pelo trabalho pastoral, pela bondade, pelas obras efetuadas ou pelo seu carisma de pastor foram inesquecíveis.
São os nossos Párocos Memoráveis. De muitos não se tem lembrança, pois não há registros e o tempo apagou, Conseguimos resgatar a memória de alguns, o primeiro será: PE. Ambrósio Molteni lembrado por um de seus paroquianos: João Bosco Santini Pereira
LEMBRANDO O PE. AMBROSIO
Foi em 1957 que o conhecemos. Naquela época, ele era o Vigário da Paróquia de Sto António Maria Zaccaria, com a Igreja Matriz no Tanque e diversas capelas espalhadas ao longo da Estrada dos Bandeirantes, em Jacarepaguá. Eram elas: Capela de Na.
Sra. da Divina Providência, Capela de Na. Sra. do Monte Serrat, Capela de Vargem Grande e Capela de Vargem Pequena.
Nós éramos da Capela de Na. Sra. da Divina Providência, na Vila Taquara, e frequentávamos também a Matriz. Na época, seus padres coadjutores eram o Pé. Cordeiro e o Pe Mário.
Desde 1925, Pe. Ambrósio estava no Brasil. Inicialmente, como professor de Matemática no Colégio Zaccaria, no Largo do Catete. Mais tarde, como Vigário da Paróquia de Na. Sra. de Loreto, no Largo da Freguesia, e desde 1945 já estava como pároco da Igreja de Sto. António Maria Zaccaria, igreja que ele mesmo edificou e escolheu o título, em homenagem ao santo fundador de sua ordem, os bamabitas.
Nascido em Milão, na Itália, Pé Ambrósio sempre teve uma vida plena de afazeres. Foi soldado durante a 1ª Grande Guerra Mundial, de 1917 a 1919. Mesmo durante este período conturbado continuou estudando para a sua vocação o sacerdócio, e mais tarde, em 1924, se consagrou sacerdote de Deus, seu sonho maior.
De espírito sempre alegre e de reconhecidos dotes musicais, enchia a Matriz e as Capelas com sua voz poderosa e afinada, acompanhando-nos com o órgão. Vibrava enquanto ensaiava o povo com as músicas do repertório religioso da época: Coração Santo, Com Minha Mãe Estarei, as Ladainhas cantadas,... Todas as músicas lindíssimas, que os corais improvisados com os seus paroquianos cantavam, quer na Matriz quer nas Capelas.
A assistência às Capelas, bem distantes umas das outras, exigia muito dele e de seus coadjutores. No início, ele as percorria em "lombo de cavalo" ou em charretes incômodas. Quando o conhecemos já estava motorizado, e usava uma Kombi para estes serviços. Aliás, um fato pitoresco desta época era o Pe. Mário, seu coadjutor e primo (mais tarde seu substituto como titular da paróquia), usar uma lambreta. Isso mesmo, uma lambreta, para seus deslocamentos pela paróquia. Atitude avançadíssima naqueles tempos.
Nossa Capela, a de Na. Sra. da Divina Providência era privilegiada, pois tinha missa todos os domingos, à noite. Nas demais Capelas, a missa era uma vez por mês, em cada domingo.
Aqui p'ra nós, a sua capela preferida era a nossa. Apesar de suas inúmeras obrigações, conseguia amimar uma tarde por semana, normalmente às quintas, para estar na Capela de Na. Sra. da Divina Providência, e ficar à nossa disposição, confessando, ensinando, cantando, conversando. Era "louco pela salvação das almas" e amava particularmente os mais humildes e as crianças.
Nestas visitas estava sempre alegre e falante. Aproveitava para explicar a Sagrada Escritura e cultivar a devoção a Maria. Lá ficava amável e disponível para todos, horas a fio. Para as crianças reservava sempre um afago e balinhas.
Pe. Ambrósio tinha a capacidade de formar colaboradores e dava aos seus leigos responsabilidades na paróquia. Incentivava as associações religiosas, e na Matriz funcionavam as Damas da Caridade, o Apostolado da Oração, as Filhas de Maria, a Liga Jesus, José e Maria, a Congregação Mariana e as Equipes de Catequistas. Para atrair o povo e proporcionar bons divertimentos, permitia a prática de esportes no terreno da Matriz, adquiriu uma máquina de projeção cinematográfica e construiu um salão paroquial para as reuniões paroquiais, teatro, festas de casamento...
Na Igreja Matriz impressionava a sua solicitude. Quando na sacristia, costumava sentar-se voltado para a porta da entrada, para que o víssemos e o procurássemos. Ao reconhecer-nos, fazia uma festa, deixando-nos à vontade.
Fora da Matriz, ainda dividia seu tempo como Superior da Comunidade Barnabita em Jacarepaguá, e era também o Capelão do Grupo Escoteiro de que eu fazia parte.
Fazia questão de tornar suas capelas e a matriz, centros de devoção e diversão sadia, mantendo os seus paroquianos em constante atividade. As festas do padroeiro eram famosas. Além da missa solene, éramos envolvidos por um ambiente festivo, em que não faltavam as barraquinhas de comida, bebida e de brincadeiras e jogos. No palco montado especialmente para a festa, a bandinha de música tocava todo o tempo marchinhas populares e hinos religiosos. Os leilões com as prendas doadas pela própria comunidade local: leitões, patos, galinhas, roupas, brinquedos, bibelôs, vinhos eram um sucesso e inesquecíveis.
Para auxiliá-lo, nas verdadeiras viagens às capelas levava seus congregados marianos, que acompanhavam também os padres da paróquia. Nós os acompanhamos vários e vimos como eram queridos por todos em todos os lugares.
Como fazia na matriz, Pe. Ambrósio instituía nas capelas os movimentos leigos, como o Apostolado da Oração e os Vicentinos, especialmente. Sua grande causa eram as catequistas, que ele próprio formava nas capelas e acompanhava depois na lida com as crianças. Para isso chegava sempre cedo para as missas que celebrava. Nesse tempo, enquanto aguardava o povo, ensinava e ensaiava os cânticos, catequizava, batizava e arguia as crianças. Mais tarde durante as confissões, insistia que nós rezássemos o terço de Maria, e atendia às longas filas de penitentes.
Duas épocas do ano litúrgico lhe eram especiais: a Semana Santa e o Mês de Maio. Na Sexta-Feira Santa todos os cânticos das cerimônias eram em latim, com a participação do povo nos diálogos da narração da Paixão de Cristo. As longas procissões de Na. Sra. das Dores e de Jesus Morto se encontravam e enchiam as ruas do bairro, num grande testemunho de cristianismo. No Mês de Maio, todos os dias tínhamos na matriz, e mesmo nas capelas, o terço do Santo Rosário e as ladainhas de Na. Sra. Na Matriz, Pe. Ambrósio ainda oficiava a Bênção do Santíssimo. No final de Maio tínhamos então a Coroação de Maria em todas as igrejas. Para a Coroação os padres davam um jeito de comparecer, se dividindo entre a matriz e as capelas. Nossa capela de Na. Sra. da Divina Providência era aquinhoada com a presença de Pe. Ambrósio. Eram momentos de fé popular, simples e verdadeira, indescritíveis, em que os "anjinhos", nossas irmãs, nos emocionavam enquanto coroavam Maria.
Pe. Ambrósio tinha o dom de cuidar de tudo. Não apenas nas igrejas ele buscava o povo. Ele investia nas l* Comunhões nas escolas públicas e nas páscoas escolares. Com seu jeito especial que agradava a todos, ele conseguia que catequistas voluntárias ensinassem religião e moral nas escolas e colégios.
Seus cuidados paternais o levaram a instituir as Horas Santas Noturnas na Matriz. Dessa forma, ao menos uma vez por mês, os homens tinham a chance de reverenciar e adorar o Cristo Eucarístico, após o dia de trabalho.
Realmente. Pe. Ambrósio evangelizou Jacarepaguá, com sua presença, seu testemunho e sua pregação. Mesmo os não católicos o respeitavam como figura humana exemplar e reconheciam nele a realização de um ideal. O ideal cristão de continuar a obra de Cristo na construção do Reino de Deus, aqui no tempo.
Podemos reconhecer agora, sob a luz dos ensinamentos e das posturas da Igreja pós-Vaticano II, como Pe. Ambrósio era moderno em seu trabalho, infundindo o apostolado leigo em sua paróquia, dando o atendimento preferencial às crianças, aos jovens e aos mais carentes e necessitados, antecipando os círculos bíblicos e propiciando a participação dos fiéis nos atos litúrgicos.
É ainda com muitas saudades e vivas lembranças que recordamos a figura querida de Pe. Ambrósio, o Apóstolo de Jacarepaguá.
João Bosco Santini Pereira |