- Carta aos Romanos (7)
A condição do judeu
Desde o início da sua Carta, Paulo tem presente a condição peculiar dos judeus. Lembra especificamente que o Evangelho, “força de Deus para a salvação”, diz respeito a Jesus Cristo, o Filho de Deus, “nascido da estirpe de Davi, segundo a carne”, “preanunciado pelos profetas nas Sagradas Escrituras”. Por essa prerrogativa, à qual acrescentará mais outras, o judeu, segundo o próprio Deus que o chamou para ser o seu povo de escolha, é o primeiro a poder usufruir da salvação. Ele compreende as Escrituras; pertence ao povo de escolha, a pleno título, pela circuncisão; de Deus contempla a Glória; dele recebeu a Lei. Por tudo isso leva vantagem sobre o pagão, em relação ao Evangelho, a partir do momento em que ele dá a sua adesão de fé a Jesus, reconhecendo-o como o Cristo de Deus. A Lei o leva a conhecer, de forma revelada, qual é a vontade de Deus. Por ela possui a “ciência e a verdade” (2,20). Em virtude da circuncisão, se fosse fiel à Lei de Deus, segundo o espírito dela, antes mesmo de abraçar a fé, chegaria a comunicar com Jesus Cristo de forma singular, podendo compreender de forma abrangente o Mistério de Deus. A Lei seria para ele o verdadeiro pedagogo para Cristo Jesus. A esperança que a Lei nutre em relação a Cristo já o justificaria, como aconteceu ao velho Simeão, no templo, ao receber em seus braços o Salvador, preparando-o para a santificação profunda que o Espírito atuaria nele em virtude da Redenção. Ele deve chegar a compreender que não há salvação no simples cumprimento das obrigações da Lei, a partir da circuncisão. É em Cristo que as figuras têm o seu cumprimento (2Cor 3,14). Deve reconhecer que a Lei, por si, não lhe comunica a força da qual precisa para cumprir com os preceitos de Deus. Essa força está em Cristo Jesus, em virtude da Redenção que ele realizou com a efusão do seu sangue. Pelo seu Espírito vivificador é que podemos realizar boas obras.
Pelo chamado à conversão (2,4), Deus quer realizar em nós aquilo de que somente ele é capaz: vivificar o que estava morto.
Para isto, o homem não tem força, porque corrompido pelo pecado. O judeu, à semelhança dos que se convertem, deveria se deixar atrair pelo seu Deus que se revela em Jesus Cristo.
Então, abandonando o seu vão orgulho, ao reconhecer-se pecador, por cometer as mesmas culpas que aponta nos outros na condição de conhecedor da Lei, experimentaria a bondade, a benignidade, a longanimidade e o amor do seu Deus, qual se revelou ao longo da sua história: o Deus que justifica, diante da fé de Abraão, que a ele, pela fé, deu glória. Pela fé dele, Deus pôde realizar a promessa do herdeiro, continuar a linhagem da descendência e dar-lhe a terra.
Ao esclarecer a condição do judeu diante da pregação do Evangelho, Paulo consegue mostrar como todos, indistintamente, judeus e gregos, precisam da salvação e, em relação ao judeu, como ela não é alcançada pelas obras da Lei, e sim, pelas obras da fé. A Lei, de fato, somente conseguiu mostrar o caminho da realização do homem. É somente através daquele que ela anuncia que esse caminho pode ser percorrido, mais exatamente, pela Glória divina que Cristo Jesus comunica, merecida pela sua imolação em favor dos seus irmãos. Numa forma drástica Paulo define a situação que a Lei criou: “somente multiplicou as culpas”. Com uma frase, talvez de impacto ainda maior, em relação ao Espírito que Cristo nos mereceu com o seu sacrifício expiatório, Paulo diz: “Aquele que não conheceu o pecado, Deus o tornou pecado para nós para que nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5,21): o que corresponde às palavras que encontramos em Rm 3,25: Deus o tornou vítima de expiação pelos nossos pecados.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Por quais prerrogativas o judeu está em condições melhores para usufruir da santificação do Evangelho?
2ª) Por que as obras da Lei não alcançam a salvação para o judeu?
3ª) De que forma, então, alcançamos a salvação?
Pe. Fernando Capra/CRSP |