“Ele cura os de coração atribulado e enfaixa suas feridas” Sl.147.3
Restauração interior... Quanto custa? Abra o Evangelho de Marcos 5,1-20, e nele encontrará o relato daquele homem. Há um homem sofrendo. Há uma força maior do que ele que o puxa de um lado para outro, que o domina e o faz escravo. Este homem está o tempo todo ocupado com a morte e não com a vida. Sofre muito. Não vê outra saída senão a morte. Agride a si mesmo com pedras, ferindo-se. As pessoas da redondeza querem ver-se livres dele. Amarram-no, e ele sofre ainda mais.
Há pessoas com essas tendências em nosso mundo, autoflagelando-se, não com pedras, mas com isolamento, com falta de vontade de superar suas dificuldades, de restaurar-se. A incompreensão dos outros as ajuda a permanecer neste clima. É triste. O mundo que não compreende a dor dos outros é um mundo que oprime e mata. Quem só pensa em si, não entende o mistério da dor alheia.
Jesus não fugiu dele, ao contrário aproximou-se. Ofereceu-lhe a oportunidade da vida. Com certeza aquele homem se sentiu atraído por Jesus e se achegou dando o seu grito mudo. Parece que sabe que junto de Jesus é capaz de reconstruir, de restaurar sua vida, mas ao mesmo tempo deseja ficar só onde está.
Para nos libertarmos e nos sentirmos pessoas inteiras, temos de admitir nossas chagas ou feridas. O primeiro passo para a liberdade é reconhecer onde estamos, como estamos e tomar a decisão necessária. Ninguém precisa permanecer como um eterno necessitado, tendo até algum proveito de sua dor. Chamando a atenção dos outros! É acomodação favorável!
Conhecemos fatos que nos mostraram que para os pais a carreira dos filhos era mais importante a própria vida deles. Conhecemos também os que tudo fazem, até o impossível, para verem recuperado, os que estão à margem da vida, sufocados pelos interesses alheios, como os de um traficante ou de um corrupto.
São feridas abertas de nossa sociedade, incuráveis pela falta de ética e de dignidade. É inútil neste mundo quem abre feridas nos outros como um traficante. Sabemos dos dramas das vítimas e de suas famílias, na luta para devolver a vida a quem a perdeu, ou até a jogou fora por negligência.
Talvez o drama daquele homem do evangelho é o de muitos irmãos nossos. Mas aqui nasce a confiança que brota da Palavra de Deus e torna-se viva pela caridade, pela bondade de tantos cristãos que se põem ao lado desses sofredores: “Ele cura os de coração atribulado e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3).
Restauração interior é, pois, curar a pessoa inteira, como fez Jesus, como podem fazer os cristãos autênticos. E isto é amar e defender o dom sagrado da vida!
Pe. Fernando Mancílio
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