A MORTE, UM PROCESSO DE VIDA
Pensar e falar de morte é algo geralmente desagradável, pois a morte aparece como ameaça ou destruição da vida. Mas a reflexão pode descobrir outros sentidos desta realidade. De fato, vida e morte são grandes parceiras, muito mais do que pensamos. Elas se entrelaçam em nosso viver de tal modo que às vezes o morrer ajuda a progredir na vida. Estamos habituados a entender a morte apenas como uma realidade física, mas ela é um processo bem mais complexo. Ela é ao mesmo tempo uma realidade psíquica e social, cujos efeitos são variáveis.
QUANDO MORRER É NECESSÁRIO PARA VIVER
Não é difícil perceber: para progredir na vida, temos que “morrer” para muitas coisas. Isto é bastante claro quando se trata de satisfazer ou não aos nossos gostos pessoais na alimentação e nos hábitos em geral. Para viver bem, há limites que se têm que assumir. É um tipo de morte para melhorar a vida.
Outro exemplo está nas diferentes fases pelas quais passamos.
Os brinquedos das crianças revelam simbolicamente esse processo de morte e vida que se entrelaçam. Quando uma mãe doa o saco de brinquedos do seu filho que cresceu, de certa forma ela está lidando com um “cemitério de brinquedos”, lembra uma fase que já passou. Este processo de morrer para progredir na vida, se repetirá em toda nossa história, de formas variadas.
Quem quiser se fixar em uma fase, diminui as chances de viver bem. Em outros termos, há um tipo de morte que é uma necessidade para a vida.
QUANDO MORRER É UM DESEJO OU UM DESCASO
No próprio desejo de morrer existe, de modo geral, um grito de vida: no fundo, o desejo é encontrar uma saída para situações dolorosas e adversas ao viver. O suicídio é neste caso um gesto de busca desesperada de vida. Ele deixa questões sobre a saúde das pessoas e dos relacionamentos que nos ajudam a viver. A tentativa de suicídio é um grito de socorro.
Por outro lado, hoje muita gente quer usufruir o máximo da vida e com isto a coloca em risco. Seria descaso ou falta de sabedoria no viver? E ainda por outro lado, a vida de tantas pessoas parece valer pouco, pois a violência impera no mundo. A violência que mata seria uma tentativa louca de garantir a vida para alguns poucos?
QUANDO A MORTE É TRANSIÇÃO PARA A VIDA DEFINITIVA
Esta é uma afirmação que pertence ao âmbito da fé. A fé cristã, junto com outras concepções religiosas, assume que o segredo da vida consiste em saber morrer para muitas coisas, e particularmente em favor da vida de outras pessoas. Querer garantir a vida às custas da vida dos outros leva à morte de si próprio.Este sentido de vida gera significado substancial para as pequenas mortes que devemos assumir no dia-a-dia. Traz uma crítica contundente para as mortes provocadas pela violência.
Abre, sobretudo, um horizonte de esperança para a vida. Permite entendê-la como um complexo diálogo com a morte, mas cujo ponto de chegada vai ser a Vida.
(Pe. Dr. Márcio Fabri dos Anjos Teólogo e missionário redentorista) |