A IGREJA CELEBRA, no primeiro dia deste mês, a Festa de Todos os Santos. Foi tempo de comemorar, celebrar e alegrar-se com todos aqueles e aquelas que fizeram do amor e da entrega a Deus e ao outro o centro e o sentido maior de suas vidas. Pois isto é ser santo: alguém que se descentrou, de tal maneira, que já não se pertence mais e consente que sua vida seja governada pelo desejo e a necessidade do outro ou outra que cruze seu caminho. Bem longe está do modelo dos vitrais e dos lírios na mão, simbolizando virtudes mais ascéticas do que éticas a santidade que os tempos de hoje necessitam. Mais: encontra-se longe do próprio evangelho, que nos delineia e propõe um modelo de santidade muito mais dinâmico e próximo da vida cotidiana, com seus altos e baixos, alegrias e dores. Ao apresentar o que considera a vida exemplar que seus discípulos devem levar, Jesus pouco se refere a práticas estritamente religiosas ou rituais literalmente cumpridos. Aponta como exemplo seres desconcertantes: a viúva, categoria desamparada em uma sociedade patriarcal, que, dando de sua pobreza tudo o que possuía, dá mais do que aqueles que esvaziaram seus gordos cofres no receptáculo do Templo. Está igualmente o samaritano pagão e idólatra que, ao contrário do sacerdote e do levita, interrompe seu caminho e afazeres para cuidar do ferido caído à beira da estrada.
Se a santidade é considerada uma vivência radical das virtudes teologais - a fé, a esperança e a caridade -, o evangelho mostra que os exemplos apontados pelo Mestre da fé plenamente vivida vêm de onde menos se espera: do centurião romano, pagão e incrédulo, que crê que a uma só palavra de Jesus seu servo será curado; ou da mulher sírio-fenícia, que, do fundo de seu desespero de mãe, farâ qualquer coisa para ver a filha curada, aceita ocupar o lugar dos cachorrinhos que esperam humilde e pacientemente as migalhas que caem da mesa dos filhos a fim de alimentar-se. E, assim fazendo, provoca a compaixão de Jesus e abre a porta do evangelho aos gentios.
Os exemplos encontrados no evangelho, assim como a análise do momento histórico que vivemos, nos permitem suspeitar que santidade seja algo muito mais complexo do que poderíamos supor. Não se trata simplesmente de ser correto, cumpridor dos deveres de estado, uma pessoa de bem que a ninguém ameaça ou assusta. Mas, ao contrário, implica algo de transgressor, de inesperado e subversivo do "status quo". Implica uma pitada de loucura capaz de romper os próprios limites e as barreiras impostas pela sociedade e recusar um modelo comportado, que se encaixa apenas no previsível.
Em tempos difusos, a santidade vai apresentar atitudes e critérios que mergulharão, de cheio nos desafios e problemas que afligem a maioria da humanidade. Santidade, portanto, será encontrada não tanto nos pacíficos ambientes dos templos ou dentro dos limites da instituição eclesial, mas nas encruzilhadas da pobreza e da injustiça, em perigosa proximidade com a violência e o conflito, na ambigüidade das situações de risco e na fímbria da marginalidade, em situações aparentemente profanas, onde, no entanto, a luz do amor sem condições poderá brilhar mais do que nunca.
Alguns poderão escandalizar-se dessa santidade aparentemente sem Deus e longe da religião estabelecida. Porém, o mistério da comunhão dos santos, que afirma que o Espirito Santo, autor e responsável de toda santidade, deixa correr e passar a dinâmica de seu amor, dá testemunho dessa santidade primordial para humanizar nossos tempos.
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC Rio |