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Esta confusão certamente era ainda mais temperada pela incompreensão dos conterrâneos de Jesus na sua compreensão de Deus, particularmente de sua presença tão próxima e numa condição humanamente tão degradante como aquela em que se encontrava o Mestre, vítima da fúria e do rancor de tantos.
Pilatos quer saber o que fez Jesus. E sensato não correr o risco de elaborar condenação sem um mínimo de razões para tal procedimento. Este mínimo de sensatez o faz interessado, diante da condenação, em saber o que Jesus havia feito.
O que fizeste?
Esta pergunta de Pilatos toca o núcleo central da questão. Esta pergunta busca esclarecer as razões de tanta fúria e do desejo de condenação. No coração destas razões está, pois, uma compreensão da ação e da presença de Deus na vida do seu povo. Eis um Deus que se faz próximo, caminha os mesmos caminhos da vida do seu povo, deixando na instabilidade a compreensão que pensa Deus sempre distante e inacessível. A realeza, então, se define a partir de um fazer e não simplesmente na futilidade de uma condição cômoda conquistada para si mesmo. Este fazer tem raízes e razões muito profundas. Jesus, por isso, afirma que o seu reino não é deste mundo. O Mestre demarca a diferença de dinâmicas e motivações. As dinâmicas do mundo, lugar de hostilidades à vida, demarcam a importância de privilégios e de comodidades, conferindo ao significado de realeza uma moldura de mesquinhez e de egoísmo. O reino de Jesus não é deste mundo. Suas dinâmicas não estão emolduradas senão pelo sentido mais radical da oferta de si nas circunstâncias mais comuns da vida. Não é fácil entender quando se pensa tudo distante, temperado pelas aparências e pelas fantasias, incapacitando para o atendimento de necessidades tão gritantes nascidas e localizadas na vida dos que precisam mais. O reino do Mestre tem raízes no coração amoroso de Deus que se oferta plenamente, na força de sua presença que caminha os mesmos caminhos do seu povo. Por isso, seus modos são diferentes. Suas opções desconcertam diante daquelas que caracterizam os reinados que se sustentam na força de privilégios e na força da força que impõe e enquadra de modo a não permitir nada fora do que atende à realeza. Jesus revela o coração do seu reinado, a razão de seu nascimento e de sua vinda ao mundo.
Dar testemunho da verdade
A realeza de Jesus se constrói pelo testemunho dado na verdade. Não é uma simples conferência de exatidões empíricas em ditos ou em fatos. A verdade no entendimento do mestre é o amor. Só há verdade quando existe amor. Se existe amor está garantida a oferta, até o extremo de modo que o bem jamais seja comprometido na vida de qualquer um dos filhos e filhas de Deus.
Com a compreensão da verdade e do alcance do seu testemunho, compreendido como oferta generosa de si, a maestria de Jesus constrói o verdadeiro sentido de realeza.
Realeza é sinônimo no coração de Deus, de oferta radical de si para o bem, para o bem de todos. Rei é quem serve. Servidor é o sinônimo mais autêntico da condição real. Toma-se rei, digno e nobre quem compreende sua vida como doação total e generosa. O Mestre testemunha o máximo de sua realeza fazendo-se oferta generosa e redentora no alto da cruz. Seu trono é a cruz. Sua cruz é oferta completa, generosa e redentora. A nobreza, pois, dos seus discípulos se constrói na oferta de si e no serviço. Seu ensinamento e seu testemunho da verdade, que é amor, consagram o sentido profundo da realeza na vida dos seus discípulos. Ele ensina e pede dos seus que ganhem a condição da nobreza e da realeza pelo serviço generoso a todos, particularmente aos que precisam mais, como oferta corajosa de si.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte |