"Levanta-te, vem para o meio!"
A frase nos acompanha desde o início do ano. É o slogan da Campanha da Fraternidade que nos convida à reflexão e ação em tomo do tema "Fraternidade e pessoas com deficiência".
Sem ser repetitivo, queria colocar a cena descrita no evangelho de Marcos (Mc 3, 3) "um outro olhar":.
O cenário é a sinagoga da aldeia de Cafarnaum.
Um salão amplo, fracamente iluminado por um candelabro de sete velas. Uma simplicidade quase rústica. Jesus entra. Olha a cada um que ali está e é, ao mesmo tempo, olhado por todos. No centro está o ambão, o pedestal onde ficam os rolos da Torá, a Lei que era lida, proclamada e devia ser seguida e cumprida por todos. Essa era a ordem estabelecida.
A presença, a ação de Jesus, subverte a ordem daquele lugar.
Seu olhar sensível percebe, entre aquele grupo de mais ou menos umas quarenta pessoas, um homem que tinha a mão atrofiada.
Afetado, Ele o chama e o coloca no meio, bem ao lado do ambão onde está a Palavra que devia ser lida.
Uma nova leitura é agora proposta. Uma página da vida está ali, diante de todos. Provavelmente, aquele homem ficava sempre no fundo, anônimo, escondido, envergonhado pela sua condição diferente. Ninguém lhe dera, até então, a devida atenção.
Jesus pede ao homem que estenda a mão.
Murmúrios de constrangimento e reprovação. Expor ali, assim, aquela mão seca, desfigurada, agride a dignidade do ambiente, perturba a cerimônia em que tudo está planejado para não haver falhas ou surpresas.
Mas o gesto de Jesus não é mero
exibicionismo escandaloso da deformidade, nem exploração mórbida e sensacionalista da miséria física daquele homem. Ao pedir que ele estenda a mão, revela a dor, tira o manto da omissão que cobria o espaço para que um milagre aconteça
Duas mãos, na verdade, se estendem em direção uma da outra; a mão seca do homem, a mão fraterna de Jesus. No encontro entre elas, no toque que acontece, manifesta-se o poder da solidariedade que cura.
Essa cena nos convida a contemplar outros lugares onde também há ordens estabelecidas.
Imagine comigo, por exemplo, o meu lugar de trabalho. Olho em volta... Há um estrutura física, uma certa disposição de móveis, os equipamentos, as pessoas.
O que mais você vê...?
No meu caso, estou numa sala de aula. Há uma mesa, o quadro, as carteiras, o armário. As paredes em volta cobertas de cartazes, trabalhos...
Contemplo agora os alunos...
A algazarra alegre da adolescência. O colorido dos rostos sorridentes que se misturam, falando todos ao mesmo tempo. O grupo atento, na primeira fila.
A turma do fundão. Os próximos e os distantes. Os falantes e os silenciosos. Os brilhantes e os limitados. Mais ou menos, uns quarenta...
Entre eles, gente eficiente e atrofidos de todo tipo. Atrofias físicas, afetivas e até morais. Evidentes e anônimas
Há alegrias que secaram, sorrisos desfigurados, esperanças deformadas. Há de tudo, em meio à ordem que cobre e camufla o que eu, como pessoa e educador, sou chamado a ver, contemplar e me deixar afetar... ,
E, diante de tudo, no meio de todos, assumir a atitude que faz a diferença; estender a mão...
Jesus viu e trouxe aquele homem para o meio. Trouxe o homem inteiro, não apenas sua fragilidade. E, ao destacá-lo reconhecê-lo, revelá-lo, restaurou-o. No sentido mais pleno, estendeu-lhe a mão.
Olhe de novo o seu lugar, os lugares que compõem seu cotidiano. Vá além do ambiente de trabalho, contemple seu lugar familiar, seu lugar entre os amigos, seu lugar social, comunitário, eclesial...
O que você vê?
O que está atrofiado, seco, deformado. Esperando o toque fraterno, sensível, solitário, da sua mão estendida
Eduardo Machado
Prof. de Educação Religiosa
Do Jornal Opinião
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