Finados é o momento de robustecer a fé no Cristo que assumiu nossa morte.
O dia de Finados, como é vivido em nossas grandes e pequenas cidades encerra um valor e um significado muito maior do que parece. Não se trata do lucro especial do comércio de flores ou velas ou da oportunidade de se fazer propaganda ou promover campanhas aproveitando a afluência das pessoas nos cemitérios.
Finados nos desperta a consciência para a realidade da morte, redescobre nossa identidade e nos abre para o mistério da existência humana.
É próprio da fé cristã, já em suas raízes bíblicas, olhar a morte com realismo, sem acalentar no homem sonhos ilusórios ou disfarçar de modo alienante um fato do qual ninguém pode fugir.
O homem "verá a morte" (Salmo 39,49; Lucas 2,26; João 8,51), "provará a morte" (Mateus 16,28; Hebreus 2,9). Para quem quer somente desfrutar os bens da vida terrena, o pensamento da morte será certamente amargo, mas poderá ser, na óptica do realismo bíblico, uma perspectiva atraente para quem vive no desespero. O Rei Ezequias chorava vendo a morte se avizinhar (2 Reis 20,2...); o livro de Jó registra o grito do grande sofredor na esperança de morrer logo e assim se libertar de sua dor (Jó, 7,15).
O Padre Antônio Vieira, no final do seu célebre Sermão da Quarta-Feira de Cinzas pregado em Roma na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses, mostra que a morte tem duas portas: por uma se sai da vida; por outra se entra na eternidade.
Importante é a primeira porque no seu umbral está registrado o que fomos na vida pelo uso de nossa liberdade. Algo que só depende de cada um, embora com o auxílio da graça de Cristo. A segunda porta será conseqüência inevitável e irrecorrível da primeira. Por isso, o pensamento da morte tem o dom de nos desvendar a verdade sobre nós mesmos. Ela nos mostra o sentido e o valor da vida, como um momento único e intransferível para o homem se realizar e cumprir sua missão.
Durante o tempo, o antes e o depois nos possibilitam a mudança, o poder fazer ou corrigir o que se fez, a construção da própria personalidade pelos atos externos e as posturas interiores. Com a morte surge uma nova situação, que não tem mais o antes e o depois, que se toma um agora imutável, "posse totalmente simultânea e perfeita de uma vida sem limites”, como os antigos definiam a eternidade.
Precisamente este é o valor da vida do homem no tempo, como o estágio singular e irrepetível de ele se realizar. Depois, não haverá mais retomo ou possibilidade de mudança. Por isso é totalmente alheia à fé cristã e a uma análise cuidadosa da experiência humana da morte a idéia tão vulgarizada da possibilidade de uma nova vida terrena, de uma reencarnação.
Assim como Cristo se ofereceu uma única vez para nos libertar do pecado, também o homem, ensina-nos a Carta aos Hebreus (9,27), morre uma só vez para ser logo submetido ao julgamento do que foi sua vida terrena.
É bom cultuar a memória dos mortos, dos antepassados, daqueles cujas vidas muito representaram para cada um de nós e cuja experiência nos pode esclarecer, bastante nossa condição cultural, espiritual, fazer-nos voltar a nossas raízes. As flores de Finados expressam a saudade que deles temos. Mas não basta ficar na lembrança, na homenagem ou mesmo na oração por eles.
Ao acender velas para nossos mortos, mostramos nossa fé; em Cristo, luz do mundo. Finados é o momento de robustecer nossa fé neste Cristo que, na cruz, assumiu nossa morte, que por nós aceitou morrer e em sua Ressurreição triunfou do poder da morte. A Liturgia Pascal, em um dos seus hinos, recorda que "mors et vita duellum conflixere mirandum" a morte e a vida se enfrentaram num duelo admirável; "dux vitae mortuus regnat vivus" o Rei da vida que morreu reina vivo. Em Cristo, o mistério da morte encontra, para quem crê, a luz do seu significado maior: o final da condição presente transitória e contingente e a passagem à realidade definitiva de uma vida tornada um ato eterno de amor diante de Deus.
Dom José Carlos de Lima Vaz
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