Não há cristão neste mundo que um
dia não tenha indagado sobre o que seja a vida eterna.
"O céu
pode esperar" era o nome de um filme anos atrás. Pode mesmo? Não
pode, porque, dependendo do que entendemos por "vida eterna", é
que vivemos a vida no tempo presente.
"Mestre, o que farei para alcançar
a vida eterna" (Mt 19,16) foi o pedido do jovem rico. E Jesus ensinou como,
mas o jovem achou que "o céu podia esperar...". Aos outros, Jesus
disse que aguardassem a vida eterna no fim da história, isto é,
no fim do tempo, nossa atual dimensão de existência (Mt 25,46).
Para
merecer a vida eterna, é preciso crer em Jesus (Jo 3, 15;4, 14;5,24; 6;
40.47), porque Jesus ensinou que esta vida eterna não é outra coisa
que a salvação de quem na morte perde a vida. Ora, se salvação
é vida, não faz sentido que a morte possa acontecer de novo. Por
isso, a salvação verdadeira consiste numa vida que nunca mais termina.
O
Filho de Deus sempre teve a vida eterna. E, encarnado, pôde dá-la
a todos pela Ressurreição (1 Jo 1,2), pela Eucaristia: quem comer
de sua carne e beber de seu sangue terá a vida eterna (Jo 6, 54).
A
vida eterna é "amar a Deus e ao Filho de Deus" (Jo 17, 2-3).
Somente quem sabe o que o amor significa pode entender o que é a vida
eterna: amor sem fim, eternamente, por Deus e pela comunidade humana toda, por
todas as criaturas de Deus. São Paulo diz que na vida eterna só
restará uma virtude: o amor (1 Cor 13, 13).
E a vida que vivemos
no tempo, não ainda na eternidade?
Jesus ensina que é loucura
ocupar a vida presente com coisas que nos façam perder a vida eterna: Jo
6, 27; quem prefere a vida da terra à vida eterna vai perder as duas: Jo
12,25. Na nossa vida presente, só tem valor o que garante a vida eterna.
Tudo
o que a impede é inútil, desnecessário, inválido e
até proibido por Deus. Tudo passa, não volta mais. Tudo fica decrépito,
tudo se decompõe, tudo se corrompe: tesouros, dotes humanos, grandes vidas.
Afinal,
o que é a vida eterna?
"Eterna" porque superou o tempo
com a, chegada da eternidade.
É a nova e definitiva dimensão
da existência. A que somente Deus teve sempre.
Agora ele
a dá a seus filhos, porque mandou seu Filho trazê-la da eternidade
para nós.
Consiste na caridade, isto é, no amor por Deus
e suas criaturas.
O amor de Deus é infinito. Portanto, jamais se
esgota; o tempo não basta para o saborearmos, a eternidade é necessária.
A Trindade toda age para nos dar a vida eterna: O Filho, sendo encarnado
como homem e ressuscitado como Deus e homem, nos dá a vida eterna que agora
ele tem enquanto homem, semelhante a nós.
O Pai nos vê como
imagens de seu Filho (Rm 8, 29), nos adota como seus filhos (Ef 1, 5).
O
Espírito dado no Batismo nos dá a consciência e percepção
da filiação divina (Gl 4,6; Rm 8, 15ss; Ef_1,5.13).
Como
viver na terra em função da vida eterna? Não dar
valor absoluto aos bens desta vida: tudo passa com o tempo. "A vida passa,
a eternidade nos espera", dizia Santa Teresa de Jesus.
Não
se impressionar com o que nos acontece de mal: ofensas, calúnias, menosprezo,
furtos, desenten-dimentos, aversões etc. Nada disso tem o poder de
nos afastar de Deus se temos fé (Rm 8, 35).
Abandonar tudo o que
for impedimento: todas as formas de mal, de pecado, vaidade, soberba, ódio.
Viver
e fazer tudo o que nos leva a alcançar a vida eterna: fé, esperança,
caridade, humildade, oração, vida sacramental, vida eclesial, comunitária,
pastoral etc. O primeiro mandamento é amar a Deus. Se Deus exige isso,
é porque ele nos amou primeiro; valorizar tudo o que a caridade fraterna
ensina: amar o próximo, com tudo o que 1 Cor 13 nos ensina, isto é,
valorizar a humildade contra as formas de vaidade, orgulho, soberba, ódio,
ressentimentos, menosprezo,. esquecimento, falta de perdão, impaciência,
avareza, coisas que passam e deixam um rastro de males, pecado e morte, ou seja,
o oposto à vida eterna.
O céu não pode esperar por
nosso descaso no tempo presente. Comecemos a viver desde já em vista
da vida eterna.Padre Valdir Marques SJ - professor de Teologia Paulina no
ISI (Instituto Santo Inácio)
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