Meus caríssimos irmãos no Cristo Jesus,
a Paz!
Em primeiro lugar vamos ver o que significa vaidade na nossa língua
portuguesa. Vaidade, segundo o dicionário Aurélio, é a qualidade
daquilo que é vão (fútil, insignificante, que só existe
na fantasia, falso, ilusório e inútil), pode ser também um
desejo imoderado de atrair a admiração; presunção.
Aqui no nosso caso o que iremos tratar é do primeiro sentido da palavra
sem entrarmos no mérito do segundo, que realmente não tem ligação
com o que o autor nos quer dizer.
O livro de Eclesiastes foi escrito pelo
rei Salomão quando ele já estava com uma idade avançada,
no final de sua vida. O propósito do livro é o de remover o escândalo
causado com a sua idolatria e o seu afastamento de Deus (I Reis 11), e para advertir
aos mais jovens que não cometessem os mesmos erros que ele houvera cometido
(Ecl 7, 29). Antes de entrarmos na nossa reflexão, observemos alguns aspectos
da vida de Salomão que nos ajudarão a entender o que o rei quis
dizer quando escreveu o Eclesiastes: Filho do rei Davi com Betsabé (II
Sam.12, 24); era amado de Deus (II Sam 12, 25); o seu nome significava "pacífico",
em hebraico SHELÔMÕH, exatamente pela sua característica de
pacificador e não de guerreiro conquistador, como foi Davi; foi criado
num lar cheio de problemas morais, tais como: o incesto entre seus irmãos
Tamar e Amnom (II Sam.13, 1-17), o assassinato de Amnom por Absalão (II
Sam.13, 23-29), Absalão toma o trono do pai Davi (II Sam.15, 1-8), o escândalo
criado por Absalão ao deitar-se com as concubinas de seu pai (II Sam.16,
20-23) e outros escândalos que envolveram a vida do rei Davi, como o próprio
casamento de Davi e Betsabé (II Sam 11, 26-27). Apesar de seu pai ter sido
um ótimo rei, ele foi um péssimo pai que acabou por deixar sua família
seguir para um fim trágico. Foi ungido rei e aos vinte anos de idade começou
a reinar sobre Israel. (I Reis 1, 23-40); começou muito bem o seu reinado
pedindo a Deus sabedoria para que julgasse o povo (I Reis 3, 3-28); edificou o
Templo ao Senhor (I Reis 6); fez aliança como Senhor (I Reis 9, 1-9); cometeu
idolatria (I Reis 11, 1-8); experimentou e manifestou da irritação
de Deus (I Reis 11, 9-13). Baseados nestes aspectos, podemos notar que uma boa
parte da vida de Salomão, principalmente a partir de sua idolatria, ainda
na mocidade, foi vivida longe dos desígnios de Deus, fato que nos ajudará
a entender o que o Eclesiastes quer dizer com respeito à vaidade. A palavra
vaidade é a chave deste livro e aparece 37 vezes recebendo aqui o sentido
de vapor, sopro, bolha, ou seja, coisa passageira de aproveitamento nulo. E era
exatamente isto que Salomão estava sentindo quando escreveu este livro,
ele sentia que toda a sua vida tinha sido uma corrida atrás do vento, ou
seja, sem sentido algum. Salomão classificou algumas obras suas como sendo
vaidade, mostrando assim a sua profunda depressão momentânea que
não o permitia ver nada de bom naquilo que houvera feito. Até então,
e aí podemos elencar, a vaidade da possessão (Ecl 2, 1-11); a vaidade
da sabedoria (Ecl 1, 17-18; 2, 12-17). O saber tornou-se um enfado, pelo fato
de não Ter sido aplicado como devia, o que trouxe condenação;
e finalmente a vaidade do trabalho (Ecl 2, 18-26). O sábio havia perdido
a esperança quanto ao futuro de sua posteridade. Ele não havia dado
bons exemplos.
Irmãos, se formos observar o escrito de Salomão
sem contudo atentarmos para os fatos que o levaram a escrevê-lo, diremos
que realmente tudo o que acontece nas nossas vidas, e até o nosso próprio
viver é vaidade, é correr atrás do vento?
A resposta
a esta pergunta é não, nem tudo é vaidade. Salomão
escreveu o que escreveu devido ao seu distanciamento de Deus durante sua mocidade,
até aos dias de sua velhice. Não obstante toda a sua sabedoria para
reinar e julgar as questões entre o povo, e a sua incalculável riqueza,
o sábio "não soube aplicar devidamente sua sabedoria"
no que diz respeito ao seu próprio viver, notando apenas, muito mais tarde,
que sua vida não tinha valor algum distante de Deus. Ele chegou à
sua velhice com um sentimento de vazio muito grande, causado por uma vida desregrada
e sem compromisso com as verdades divinas que houvera aprendido. A vaidade da
vida não é a vida em si, mas a maneira com a qual se vive a vida.
Se vivermos segundo os propósitos de Deus, ainda que sejamos pobres ou
incultos em certas áreas , teremos uma vida abundante, do tipo que vale
a pena ser vivida, pois é uma vida com Deus. Já, se porventura,
optarmos pelo contrário, provavelmente chegaremos ao fim de nossa vida
com o mesmo sentimento de vazio que sentiu Salomão, e a vida para nós
terá se tornado realmente vaidade das vaidades, um correr atrás
do vento. Já vimos o que levou Salomão a sentir-se vazio e agora
veremos como nós podemos fazer para vivermos abundantemente sem que nossa
vida seja uma profunda vaidade de viver. A palavra de Deus nos ensina que vida
abundante é só em Jesus (Jo 10, 10), e este privilégio todos
nós já gozamos, porém devemos colocar em prática esta
abundância de viver. Em I Cor 10, 31 encontramos uma fórmula de viver-se
abundantemente, que é o dar graças em tudo. Em Ecl 12, 1 a Palavra
nos exorta a lembrarmo-nos de Deus nos dias da nossa mocidade, e este lembrar
significa viver constantemente na presença de Deus. Orar, ler a Bíblia,
jejuar e testemunhar são as melhores maneiras de se viver na presença
do Senhor.
Sinceramente meus amados irmãos, que tipo de vida temos
vivido hoje, uma vaidade de viver ou uma vida abundante em Deus? Apesar de
não sermos tão sábios quanto o rei Salomão, é
necessário que saibamos aplicar nossa sabedoria para vivermos abundantemente
uma vida com Deus, de tal forma que possamos, futuramente, ou hoje mesmo, olharmos
para trás e vermos que não corremos atrás do vento e sim
termos a certeza de que o nosso viver valeu e vale a pena em Deus.
Ricardo
da Liturgia das 10h ricardomoyses@globo.com |