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Fé e Política|NOVEMBRO

"Paulo Freire: Um grande exemplo de construtor da Cidadania”

Escrever sobre Paulo Freire é algo que me agrada muito. O que mais me motiva na oportunidade de aprofundar um pouco sobre a história desse homem é o paralelo que podemos fazer entre o seu exemplo e a nossa atitude de Cristãos no mundo de hoje. Ele foi, sem sombra de dúvidas, um dos maiores brasileiros que já pisaram neste solo. Aliás, ele não era apenas brasileiro. Era um cidadão do mundo.

Paulo Freire nasceu em Recife (PE) em 1921. Teve uma infância muito pobre onde passou fome e miséria. Contra a sua vontade, viu-se obrigado a parar os estudos aos treze anos em função da morte do Pai. Volta alguns anos mais tarde para concluir o antigo "ginasial". Ingressa no ensino superior e lá conhece a sua primeira esposa com quem tem 5 filhos e uma vida de luta pela educação até o momento em que se torna viúvo. Pessoa fundamental em sua formação, a professora Elza Maia Costa Oliveira foi quem o incentivou a não somente concluir o curso de Direto, como também a dar prosseguimento de maneira sistemática aos seus estudos. Torna-se Mestre, em 1958, pela Universidade do Recife.
Lá, se torna professor de História e Filosofia da Educação.

Talvez o sofrimento de uma infância marcada pela pobreza tenha sido o grande inspirador de uma de suas maiores obras da área educacional: "Pedagogia do Oprimido". Utilizando as primeiras idéias deste método, Paulo Freire alfabetiza no início da década de 60 os pobres trabalhadores rurais do interior do Nordeste em um projeto piloto em Angicos-RN, onde utilizou a realidade sofrida e oprimida dessa gente como o principal instrumento da alfabetização. A substituição de frases como "Vovó viu a uva" por "O povo tem o voto", faz com que o método se molde em uma espécie de instrumento bilateral: Alfabetização através da conscientização política participativa. O sucesso deste projeto fez com que o Ministro da Educação do governo João Goulart convidasse Paulo Freire para conduzir um projeto de erradicação do analfabetismo no Brasil, trazendo essa população excluída e marginalizada para o seio da sociedade através de uma inclusão plena fomentada pela cidadania ativa. Infelizmente, após o Golpe de 1964, o projeto é interrompido pelo governo militar recém-empossado sob o argumento de representar uma "ameaça ao projeto revolucionário do novo Brasil". Com isso, Paulo Freire é cassado, preso e exilado.

Impedido de realizar esse projeto no Brasil, Paulo Freire vai para o Chile onde, durante 5 anos, desenvolve programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (ICIRA). Foi aí que aperfeiçoou o seu método e escreveu a sua principal obra literária que é até hoje uma das maiores referências na área de educação no mundo (O livro já citado acima, "Pedagogia do oprimido").

Com sua participação, o Chile recebe uma distinção da UNESCO, por ser um dos países que mais contribuíram à época, para a superação do analfabetismo. Talvez isso explique um pouco a diferença considerável entre indicadores educacionais do Chile e do Brasil.

No exterior, o seu trabalho na área de educação ganha repercussão e força em diversas universidades. A "Pedagogia do Oprimido" se torna um importante instrumento para o combate à miséria e a fome no mundo, em especial na África. Foi professor da Universidade de Genebra, na Suíça, em Harvard e Consultor Especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra.

Doutor Honoris Causa em mais de 27 universidades no mundo, Paulo Freire foi um incansável e humilde lutador em busca de um mundo melhor, mais humano e menos capitalista. De um mundo onde a lógica da opressão é trocada pela práxis da inclusão e da partilha. Ele despertou nas pessoas a crença de que era possível mudar esse mundo injusto e egoísta. E isso o distinguiu como educador. Há na obra de Paulo Freire uma imensa reserva de bondade, generosidade e altruísmo.

Entre todos os prêmios que ganhou (foram tantos que o espaço de nossa coluna me impede de escrevê-los) destaco o que foi concedido pela Unesco em 1986: "Prêmio UNESCO da Educação para a Paz". Durante a entrega deste prêmio e discursando em português (falava fluentemente o francês e o Inglês, mas raramente discursava em outra língua que não fosse o português) ele disse que não era possível acreditar em paz sem a superação de realidades sociais perversas. Sem justiça, definitivamente, não há paz.

Tudo o que Paulo Freire escreveu e fez para a construção de um mundo mais justo encontra eco não somente na Doutrina Social da Igreja mas no próprio Evangelho. O seu exemplo e a sua prática são, sem sombra de dúvidas, um modelo a ser seguido por todo e qualquer Cristão que trabalha e sonha com a instalação do Reino do Pai.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br

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