2ª Carta aos Coríntios (2)
Temas
de Doutrina
O conteúdo doutrinal, embora não tão
rico como em outras epístolas, apresenta todavia não poucos e importantes
elementos de doutrina revelada.
Doutrina Trinitária - A ação
do Espírito e a ação do Cristo são muitas vezes associadas
(1,21; 3,18). De maneira particular se fala no Espírito Santo e na sua
missão de santificação, inabitação e iluminação
íntima das almas (1,22; 5,5; 13,13; cap 3): é por Ele que os cristãos
são transformados de glória em glória (3,18). Assim, Cristo,
o Espírito, Deus são postos numa relação muito estreita
como em 3,3 "Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério,
escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não
em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações",
e 13,13 "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão
do Espírito Santo estejam com todos vós". Essas fórmulas
esboçam o que, nos séculos posteriores, se chamaria de Trindade,
mas elas o fazem insistindo sobre a diversidade e a unidade de ação
dos três: Cristo, Deus e o Espírito intervêm na vida dos crentes
e da comunidade para conduzir a obra da salvação à sua realização.
Cristologia
e Soteriologia - Também aqui Cristo se acha no centro do pensamento
Paulino. A abundância das notações "em Cristo" sublinha
a relação de comunhão atual, e a fórmula "com
Cristo" afirma uma comunhão futura mais estreita após a passagem
pela morte e ressurreição. Em 4,4 ele afirma "Cristo é
a imagem de Deus" Em uma fórmula única: "Imagem de Deus",
o apóstolo exprime o caráter particular da pessoa de Cristo. O Cristo
é homem verdadeiro como Adão, imagem de Deus. O Cristo é
aquele que revela Deus sobre a terra; Ele é imagem de Deus, isto é,
aquele no qual todo homem pode encontrar a Deus. Cristo é essencialmente
Redentor e Reconciliador por missão divina (5,18s "Tudo isso vem de
Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério
da reconciliação. Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo
consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós
a palavra de reconciliação").
Os cristãos formam
agora com ele uma unidade mística, de modo que se pode afirmar que deveras
com ele todos estão mortos e todos por ele devem igualmente viver (5,15
"Ora, ele morreu por todos a fim de que aqueles que vivem não vivam
mais para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por ele").
Escatologia
- Importante também é a doutrina escatológica desenvolvida
aqui por Paulo. Diversamente das outras cartas (1 Cor 15; as duas epístolas
aos Tessalonicenses), aqui ele considera de preferência a sorte de cada
alma individual diante do tribunal de Cristo, depois de sua morte, antes ainda
da última Parusia do Senhor (3,1-10). Encontram-se, porém, igualmente
notáveis referências à escatologia coletiva (5,17 "Se
alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas
antigas; eis que se fez uma realidade nova"; 5,10 "Porquanto todos nós
teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que
cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida
no corpo, seja para o bem seja para o mal"). Paulo confessava suas angustias
diante da morte para mais altamente proclamar a sua esperança na ressurreição;
o definhar do velho homem seria a condição para o desenvolvimento
do homem novo; ressurreição e vida nova constituem um processo que
opera paralelamente com definhar e morte (4,11-16) Por isso a vida do cristão
tem duas faces: uma exterior, visível, um tanto ilusória, e outra
interior, oculta, que é mais verídica, porque derivada da posse
da eternidade. Observe-se o paradoxo com que Paulo caracteriza a vida do cristão:
"somos considerados como moribundos, e eis que vivemos... somos considerados
como quem nada tem, embora tudo possuamos (6,9s).
Antigo e Novo Testamento
- Em torno da figura de Cristo se delineiam a harmonia e, ao mesmo tempo, o contraste
entre os dois Testamentos. Cristo é o sim de todas as promessas do Antigo
Testamento (1,20 "Todas as promessas de Deus encontraram nele o seu sim:
por isto, é por ele que dizemos"Amém" a Deus para a glória
de Deus"), no sentido que ele é que as cumpre todas. Paulo considera
que a nova aliança anunciada pelo profeta Jeremias (Jr 31,31-33) foi realizada.
Portanto, o Antigo Testamento recebe toda a sua significação
no Novo, que não é mais o Testamento da letra, mas do Espírito
(3,6). A glória do Antigo Testamento nem mesmo se pode chamar de glória
em comparação com a do Novo: Pois, se o transitório foi de
certa forma glorioso, muito mais glorioso ainda há de ser o permanente
(3,11). É necessário sempre ver esta funcionalidade preparatória
e dispositiva do Antigo Testamento em relação ao Novo: de outra
forma, faremos como os hebreus que têm como que um véu sobre os olhos
quando lêem o mesmo (3,14s). A nova aliança não mais se limita
a Israel: dá acesso a todos aqueles nos quais opera a ação
do Espírito Santo. Para bem mostrar como essa aliança é verdadeiramente
nova, Paulo bosqueja uma comparação impressionante entre a aliança
concluída outrora com Moisés e a nova aliança. É a
primeira vez que a aliança de Moisés é chamada de Antiga
Aliança e os livros sagrados do judaísmo são designados pela
expressão: Antigo Testamento (3,14). Ao ter que defender o seu apostolado
contra os judaizantes que se tinham infiltrado em Corinto, Paulo ressalta a grandeza
da Nova Aliança, da qual é ministro, em comparação
com a Antiga, mediante uma série de antíteses: a Antiga é
letra que "mata", a Nova espírito que "vivifica"; aquela
produz a morte e a condenação, esta dá vida e justiça;
aquela é passageira, esta permanece para sempre (cf. 3,6-11). Doravante
Deus age nos corações, a era do Espírito começou.
A nova aliança não se pode mais petrificar em uma letra (3,6) como
foi o caso para a antiga, pois o Espírito vivifica (3,6).
Continua
no próximo número
Jane do Térsio |