1º Domingo - 27/11
Em toda a história
bíblica, os profetas sempre foram figuras de primeira importância.
Homens possuídos por Deus, inovadores éticos e morais, suas visões
configuraram decisivamente a vivência e a reflexão religiosa posterior,
tanto judia quanto cristã.
A compreensão da profecia bíblica
hoje tende a rejeitar o lugar-comum que considera o profeta um adivinho do futuro,
para vinculá-lo bem fortemente ao presente. Assim, foi com os profetas
de Israel, assim é com os profetas atuais, O fenômeno da profecia
é feito de uma experiência de Deus que impulsiona um ser humano a
enfrentar todos os perigos, a fim de comunicar uma mensagem divina. É,
portanto, inseparável da consciência que tal mensageiro tem das características
de seu tempo e de seu espaço.
Os profetas só podem ser entendidos
quando a relação dinâmica entre eles e a sociedade onde vivem
é plenamente compreendida e levada em conta.
Assim, cada profeta
é diferente, pois cada um responde a uma determinada situação
na qual Deus o chama a abrir a boca e falar em Seu Nome.
Neste tempo do
Advento, a figura profética de João Batista é posta pela
Igreja diante de nossos olhos. Sua pessoa dá testemunho de um aspecto essencial
na vida humana: o amor e a luta pela verdade acima de tudo. Coerente e destemido,
João não cessa de chamar os homens à conversão, advertindo:
"Arrependei-vos e convertei-vos, pois o reino de Deus está próximo".
Sua
língua de fogo não permite que o povo se acomode na mediocridade
de uma vida que tem secretos compromissos como a iniqüidade. Mas denúncia
a condição pecadora de todos, inclusive a sua própria, e
diz não haver outro caminho senão a total verdade e transparência
na busca da vontade de Deus.
Neste tempo do Advento, vamos vê-lo
e ouvi-lo fazendo acontecer a profecia de outro profeta, Isaías, que já
anunciava: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Toda ravina
será aterrada, toda montanha e toda colina serão rebaixadas, as
passagens tortuosas serão retificadas, os caminhos ásperos serão
aplainados, e todos verão a salvação de Deus.
Nada
nem ninguém detinha João quando se tratava de aplai-nar caminhos
ásperos e retificar passagens tortuosas. Nem mesmo o poder do rei Herodes.
Olhando-o nos olhos, João gritou-lhe a verdade sem concessões: "
Não te é lícito ficar com Herodíades, pois é
mulher de teu irmão."A corrupção e a mentira não
gostam da transparência. Não aceitam que seus torcidos desvios sejam
trazidos à luz. E João perdeu a vida, aplainando com seu sangue
a aspereza dos caminhos da maldade e os tortuosos descaminhos da mentira.
Sua
palavra e sua vida de profeta prepararam o caminho para que pudesse chegar e ser
reconhecido Aquele que permitiria a todos ver a salvação de Deus.
Neste Advento, o profeta João Batista pode dar-nos algo de sua coragem,
para que, ao mesmo tempo em que celebramos com alegria o Novo que vem, não
recuemos diante do compromisso de abrir a boca e dizer a verdade, aplainando os
ásperos caminhos da mentira e da corrupção, da injustiça
e da violência, do terror e da iniquidade.
Em suma, das velhas coisas
que se recusam a deixar o campo livre para a celebração da verdade
e da luz do Natal.
Maria Clara Lucchetti Bingener teóloga,
do Jornal do Brasil |