Aos 8 de dezembro de 2004, a Igreja celebrará
150 anos da definição do dogma da Imaculada Conceição
de Maria
Que
significa esse dogma?
Ele professa que Maria Santíssima foi concebida, no seio de
Santa Ana, sem o pecado original.
E que é o pecado original?
Na criança, não é um pecado propriamente dito
(pois todo pecado propriamente dito é consciente e voluntário,
mas é a ausência dos dons que os primeiros pais receberam
no paraíso e perderam.
Pois bem, a fé ensina que Maria não foi concebida como
as demais criaturas, privada da graça, mas recebeu-a desde
o início de sua existência, pois era chamada a ser o
tabernáculo de Deus feito homem. Convinha que a Mãe
do Verbo encarnado jamais tivesse experimentado o jugo do pecado.
E quais os fundamentos de tal afirmação?
Não a encontramos explicitamente na Bíblia, pois esta
não foi escrita para tratar de Maria Santíssima e
sim de Jesus Cristo e sua obra salvífica. Maria só
entra ai como a Mãe de Jesus. São João nos
diz que mesmo a respeito de Jesus nem tudo foi escrito, pois o mundo
não conteria os livros daí resultantes (ver Jo 21,24s).
De qualquer forma, a Bíblia afirma que Maria é cheia
de graça e a enaltece acima de todas as mulheres (ver Lc
1,28.47s)
E a história?
O povo de Deus em sua piedade, e a Liturgia, tanto no Oriente como
no Ocidente, desde os primeiros séculos se compraziam em
celebrar a santidade e pureza de Maria.
No século VIII celebrava-se a festa litúrgica da Conceição
de Maria aos 8 de dezembro ou nove meses antes da festa da Natividade
de Maria (8/9). No século X a Grã-Bretanha celebrava
a Imaculada Conceição de Maria. Os teólogos
porém ficavam à margem dessa propagação
da piedade; parecia-lhes que a tese da Imaculada Conceição
de Maria era incompatível com a da universalidade da Redenção
e a da santidade singular de Jesus. Daí as declarações
em contrário, de Santo Anselmo de Cantuária (+1109),
São Bernardo (+1153) e Santo Tomás de Aquino (+1274).
Finalmente no século XIV o franciscano João Duns Scotus
(+1308) formulou a solução do impasse: pela aplicação
antecipada dos méritos de Cristo, Maria foi preservada das
conseqüências do pecado original; ela nasceu portadora
da graças santificante, mas não dos demais dons paradisíacos.
Desta maneira foi remida e salva por Cristo; tudo que ela tem de
bom e belo lhe vem do Senhor Jesus; a santidade de Cristo fica incólume
e proclamada pela santidade de Maria.
Após Duns Scotus foram-se dissipando as hesitações
acerca do privilégio mariano da Imaculada Conceição
a ponto que, no século XIX, foi solicitada ao Papa Pio IX
a definição solene do dogma.
Pio IX atendeu, não para criar mais um dogma (a Igreja não
cria dogmas) mas para reafirmar no mundo materialista do século
XIX a presença do Sobrenatural.
Ao dogma da Imaculada Conceição está associado
o da Assunção corporal de Maria aos céus. Esta
é conseqüência daquela; com efeito, se Maria nunca
esteve sujeita ao pecado, não terá ficado sob o império
da morte; seu corpo não se decompôs no sepulcro, mas
foi elevado a glória dos céus. Esta verdade professada
desde antigos tempos foi solenemente definida por Pio XII em 1950
não como novo dogma, mas para enfatizar a dignidade do corpo
humano após a Segunda Guerra Mundial, que tanto humilhou
e pisoteou esse mesmo corpo. A Assunção nada tem a
ver com o título de Co-Redentora; há um só
Redentor e Mediador: Jesus Cristo, que quer servir-se dos homens
para realizar sua obra salvífica.
Em conclusão, observamos:
1.Se alguém quer ser fiel a Bíblia, deve considerar
também a Palavra de Deus que não foi redigida por
escrito mas passou de geração em geração
como Tradição (transmissão) oral. (ver Jo 20,30s;
21,24s e 2Tm 2,2)
2.Para distinguir o que, nessa Tradição oral, haja
de válido e não válido, a Igreja goza da infalível
assistência de Cristo e do Espírito Santo (ver Mt 28,19s;
Jo 14,26; 16,13-15)
3.A exaltação de Maria não derroga à
grandeza singular de Cristo, mas é fundamentada na Bíblia
e canta o louvor de Cristo como todo belo artefato canta os louvores
do seu artesão.
Estêvão Bettencourt, OSB
Arquidiocese do Rio de Janeiro
|