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Fé e Política | NOVEMBRO


“Eleições 2004: A triste vitória da venda de votos”

“... Constitui captação de sufrágio, vedada por esta lei, o candidato doar, oferecer, prometer ou entregar , ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de 1.000 a 50.000 UFIRs, e cassação do registro ou diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei complementar no. 64/90..."

Tomei a liberdade de iniciar a coluna deste mês com o belo texto da Lei 9840/99 que trata da corrupção eleitoral. Primeira Lei brasileira criada através da Iniciativa Popular, ela é, sem sombra de dúvidas, uma das mais belas conquistas dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada que lutaram por um processo eleitoral mais limpo e transparente. Porém, infelizmente, ela ainda não funcionou como deveria, principalmente nas eleições deste ano.

Se tomarmos como parâmetro os candidatos a Vereador que usaram os "Centros Sociais de Saúde" para obtenção de votos, o resultado foi decepcionante: Aumentou significativamente em nossa cidade o número de vereadores fisiológicos que utilizaram deste instrumento para trocar votos por favores. E, aqueles que ainda "resistiam" a este ato ilícito e claramente proibido pela lei em questão, simplesmente não foram reconduzidos à Câmara Municipal.

Outra triste vertente anti-ética e com total tipicidade na lei acima foram as trocas do "cimento, luz, asfalto e empregos temporários em alguns órgãos públicos" por votos. Inclusive, vale registrar que isso foi feito por candidatos que se diziam "católicos" e com atuação em algumas pastorais e movimentos da nossa Arquidiocese. Esse foi, sem sombra de dúvidas, o triste e decepcionante cenário que marcou a "resposta" dos católicos aos evangélicos nestas eleições. Preocupados com o crescimento das "bancadas evangélicas" nas Câmaras Municipais, muitos católicos utilizaram o mero critério da confessionalidade para escolher o seu candidato, deixando de lado outros pontos fundamentais como: Um passado comprometido com as principais causas sociais e populares da nossa cidade; uma vida regressa acima de qualquer suspeita de atitudes ilícitas e anti-éticas; propostas claras e transparentes que estejam de acordo com os princípios cristãos e éticos além do firme propósito de transformar o seu mandato em um instrumento de melhoria do bem comum.

E agora, o que podemos fazer frente a esta nova e desanimadora realidade da nossa Câmara Municipal para os próximos quatro anos? Talvez essa seja a grande pergunta que angustia a muitos eleitores que estejam lendo essa coluna. A minha resposta é bem simples: Arregaçar as mangas e ir para as bases. Trabalhar de forma estruturada na formação política dos fiéis sem se preocupar com nomes e pessoas para se candidatarem nas próximas eleições. O processo de politização não pode começar de cima para baixo, mas de baixo para cima. Foram as nossas bases que conseguiram piorar o que já era ruim, mesmo tendo excelentes nomes como opções para a nossa Câmara Municipal. Precisamos contribuir de alguma forma com a formação política desta base. Onde estão os grupos de Fé e Política? Onde estão os Conselhos Municipais para atuarem como instrumentos de cobrança e acompanhamento dos neo-mandatários?

Esse é o papel: Acompanhar, fiscalizar e principalmente formar o Povo de Deus. Discutir política nos corredores da igreja e nas nossas pastorais não é pecado. Pecado é, sem sombra de dúvidas, praticar a venda de votos. E, se existem pessoas que fazem dessa prática meio de vida sem saber que estão fazendo algo ilícito, está mais do que na hora de ensinarmos o que é correto. Em outras palavras, se continuarmos assistindo a esse triste cenário de braços cruzados ficará cada vez mais distante de nós a justiça, a paz e conseqüentemente uma sociedade mais fraterna, humana e Cristã.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email: feepolitica@terra.com.br

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