É diante da morte que o enigma da condição
humana atinge seu ponto mais alto". Em certo sentido, a morte
corporal é natural; mas para a fé ela é na realidade
"salário do pecado" (Rm 6, 23). E para os que morrem
na graça de Cristo, é uma participação
na morte do Senhor, a fim de poder participar também de sua
ressurreição.
A morte é dolorosa como um fim de festa. Nossa dor seria diferente
se compreendêssemos que fim não precisa significar negatividade,
mas positividade. Ex: o estudante chega ao fim de seu curso e atinge
seu objetivo; a mulher grávida que abraça o filhinho
que acaba de nascer. Para o homem a morte é um fim plenitude
e um fim meta alcançada.
A morte sendo o fim normal da vida, recorda-nos que temos um tempo
limitado para realizar a nossa vida.
Graças a Cristo a morte cristã tem um sentido positivo.
"Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro"
(Fi 1, 21). "Fiel é esta palavra: se com ele morremos,
com ele viveremos" (2Tm 2, 11). A novidade essencial da morte
cristã está nisto: pelo batismo o cristão já
está sacramentalmente "morto com Cristo", para viver
de uma vida nova; e se morrermos na graça de cristo, a morte
física consuma este "morrer com cristo" e completa
assim a nossa incorporação a ele no seu ato redentor.
A morte é o fim da peregrinação terrestre do
homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus
lhe oferece para realizar a sua vida terrestre segundo o projeto divino
e para decidir o seu destino último. Quando tiver terminado
"o único curso da nossa vida terrestre", não
voltaremos mais a outras vidas terrestres. "Os homens devem morrer
uma só vez; depois do que, há o julgamento" (Hs
9, 27). Não existe "reencarnação" depois
da morte.
Na pessoa de Jesus ressuscitado Deus se revela aquele que ressuscita
os mortos. Da mesma forma como ressuscitou Jesus Deus nos ressuscitará
também. Toda a argumentação de São Paulo
se baseia nessa fé (cf. 1Cor 6, 14; 1Cor 15, 12-18.20-22).
No momento da morte, a pessoa humana é aquela pessoa que se
tornou tal pelo decorrer da própria vida.
No momento da morte, a pessoa humana conhece pela primeira vez todas
as dimensões e influências de sua própria vida.
A pessoa se encontra com Deus e julga sua própria vida vivida,
a partir dos parâmetros do agir de Deus que são o amor
e o perdão.
A morte não significa uma igualação global de
todos os seres humanos. As pessoas na morte serão o que fizeram
de si mesmas durante a própria vida.
Depois da morte, cada ser humano precisa de um processo de evolução
para reunir e completar os fragmentos de sua própria vida.
A doutrina católica propõe um passo à frente,
um processo evolutivo qualitativamente chamado "Purgatório".
O Purgatório é o estado de purificação
por que passam os que morrem na graça e na amizade de Deus,
mas que não estão completamente purificados, embora
tenham garantida a sua salvação eterna. A Igreja formulou
a doutrina da fé relativa ao Purgatório, sobretudo no
Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência
a certos textos da Escritura (1Cor 3, 15: lPd 1, 7), a tradição
da Igreja fala de um fogo purificador.
O Céu é o estado de perfeita união e comunhão
com Deus. E a comunidade bem-aventurada de todos os que estão
perfeitamente incorporados a Jesus. Este mistério de comunhão
dos bem-aventurados com Deus e com os que estão em Cristo supera
toda a compreensão e imaginação (1Cor 2, 9).
A Escritura fala-nos dele em imagens: vida, luz, festa de casamento,
vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém Celeste, Paraíso,
etc.
O Inferno é o estado de auto-exclusão definitiva da
comunhão com Deus e com os bem-aventurados. A pena principal
do Inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único
em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado
e às quais aspira.
Para ir para o Inferno é preciso uma aversão voluntária
a Deus e persistir nela até o fim da vida.
"Caro salutis est cardo" ("A carne é o eixo
da salvação"). Cremos em Deus que é o criador
da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos
na ressurreição da carne, consumação da
criação e da redenção da carne.
Pe. Arthur do Couto Monteiro |