Dia
16, o papa João Paulo II completa 25 anos no comando da Igreja
Católica. Em 2 mil anos de cristianismo, apenas quatro papas
tiveram um pontificado de mais de 22 anos. João Paulo II é
um deles.
Quando foi eleito, no conclave de 1978, o então cardeal Karol
Wojtyla tinha 58 anos. As esvoaçantes vestes brancas que revestiam
sua figura atlética acompanhavam a agilidade do corpo que se
comunicava de maneira imediata e feliz com as multidões que
iam ouvi-lo. Por seus passado de ator, conhecedor dos segredos do
palco e da dramatização, o recém-eleito João
Paulo II impressionava e levantava massas no final dos anos 70.
Agora, já avançado o milênio que muitos pensavam
que ele não chegaria a ver, sua figura idosa e alquebrada continua
levantando-se quando todos pensam que vai cair e comunicando-se pelo
avesso daquilo que foi seu maior trunfo durante boa parte de seu largo
pontificado. Ao corpo ágil e flexível dos inícios
substitui-se um corpo fraco, golpeado por um atentado e diminuído
pela doença.
Apesar de sua visível limitação, João
Paulo II continua transmitindo ao mundo a imagem de uma fé
e inquebrantável e de um pastor que não deixa cair o
cajado enquanto lhe restar um sopro de vida.
Às especulações sobre sua saúde energicamente
caladas pelo Vaticano, é tempo de fazer balanço desses
25 anos em que governou a Igreja e se firmou como único líder
mundial em um período conturbado e difícil de transição
de século e de milênio.
O legado é certamente de grande importância sob todos
os pontos de vista. Alguns aspectos merecem ser ressaltados:
1. João Paulo II é certamente o papa mais carismático.
Sua figura atraiu jovens e adultos, crianças e velhos, convertendo-se
no líder mundial de que a humanidade necessitava , combalida
por guerras e divisões de todo tipo.
2. Desde que iniciou seu pontificado, João Paulo II nunca foi
homem de meias palavras, destacando-se por extrema transparência.
Deixou muito claro quem era, como entendia sua missão, o que
pretendia. Essa transparência lhe valeu não poucos inimigos,
mas em contrapartida lhe outorgou a admiração e o apoio
de muitos que se renderam ao seu estilo de papa.
3. Além de dedicado pastor, João Paulo II foi também
um hábil político. A queda do Muro de Berlim em 1989,
mostrou claramente ao mundo que boa parte daquele fato se devia à
grande influência do polonês, que se sentara no trono
de Pedro 11 anos antes. Marcado pelo regime totalitário que
oprimia seu povo, João Paulo II nunca escondeu que considerava
o comunismo um grande inimigo da Igreja e que faria o que estivesse
ao seu alcance para derrubá-lo. E assim foi feito.
4. Figura de grande coragem, o papa que veio do Leste jamais recuou
diante de qualquer situação espinhosa ou circunstância
difícil. Nem sequer após o atentado que sofreu em 1981.
Disse verdades a temidos ditadores e denunciou situações
que punham obstáculo à paz pela qual tanto lutou.
Com sua tão forte personalidade, não poderia agradar
a todos. Tendo pouca simpatia pela Teologia da Libertação,
deixou extremamente desoladas as bases da Igreja que ansiavam ser
por ele compreendidas na sua opção preferencial pelos
pobres. Ao lado de documentos sociais muito abertos, trouxe de volta
normas disciplinares que pareciam superadas com o Concílio
Vaticano II.
Por isso, sua figura provocou adesões apaixonadas ao mesmo
tempo que decepções. No entanto, agora é celebrar
os 25 anos de seu pontificado, lançar um olhar de fé
sobre esse longo período em que o tivemos como papa, contemplar
sua figura sofrida e alquebrada, e crer que o Espírito Santo
o assistiu na condução dessa Igreja sacudida pelos ventos
da modernidade e secularização.
O que não se entende agora se espera entender depois. Agora,
é o momento de ação de graças a Deus Pai
que suscitou neste momento da história da Igreja a vida e o
pontificado de João Paulo II.
Maria Clara Lucchetti Bingemer
TEÓLOGA
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