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JOÃO - PARTE 5
Doutrina e Mensagem Teológica
O Evangelho de João é certamente o mais teológico
de todos. Como João escreveu seu Evangelho já adiantado
em anos, ele une suas reflexões teológicas às
palavras de Jesus. Destaco alguns temas:
O Verbo Encarnado
O Verbo Encarnado é o princípio, o centro e o fim
de todo o Quarto Evangelho. Já no Prólogo se diz que
o Verbo é Deus. A perspectiva da preexistência e da
criação em Cristo de um lado, e da Encarnação,
de outro, tem certamente um destaque extremamente significativo:
o discurso parte do Verbo que "estava com Deus" e que
"era Deus" (v 1). Afirma-se que é consubstancial
com o Pai ao dizer que estava junto de Deus. Afirma-se que "tudo
foi feito por meio dele" (v 3) para passar através do
seu " fazer-se carne" (v 14), até retornar ao "
Unigênito que esta no seio do Pai" (18) .
Divindade e humanidade
A divindade de Jesus fica fortemente destacada desde o Prólogo,
ao longo do discurso e até o final. Jesus é o unigênito
e eterno de Deus, encarnado na realidade de uma existência
humana concreta. Nele se realiza o encontro de Deus com o homem:
Ele é a comunicação da vida divina. João
acentua igualmente a divindade e a humanidade do Salvador: a verdade,
a luz e a vida de que os homens precisam, foram trazidos do alto
pelo Filho, mas são outorgados porque Ele é um com
a humanidade, que por seu intermédio pode ingressar na esfera
divina.
É verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como homem, cansa-se
e senta-se à vontade na borda do poço de Sicar (4,6);
cultiva a amizade com a família de Betânia e chora
pelo seu amigo morto (11). Como Deus, é Um com o Pai: Eu
e o Pai somos um (10,30), o Pai está em mim e Eu no Pai (10.38)
quem me vê, vê o Pai (14,9). Por isso, os judeus procuravam
matá-lo, porque se fazia igual a Deus(5,18), acusação
que jamais foi feita contra um homem na história do judaismo.
Santíssima Trindade
Este evangelho é o mais rico de todos no que se refere à
revelação do mistério do ser divino uno e trino,
e ele o faz de modo muito claro: há um único Deus
em três Pessoas iguais e distintas.
Com efeito, Jesus é o Filho preexistente no seio do Pai,
consubstancial com o Pai, Filho por natureza, não por adoção.
Deus é seu Pai de modo diferente de como é dos homens
"Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai....Subo
a meu Pai e vosso Pai"(20,17).
Ao rezar ao Pai, vemos que é distinto do Pai, uma outra Pessoa.
Mas Jesus mostra a total intimidade recíproca entre Ele e
o Pai ao dizer "Eu e o Pai somos um" (10,30) Se O conhecessem
, conheceriam também o Pai ( 8,19;14,8-11), que o Pai está
nEle, e Ele no Pai (10,34-39) "O Pai está em mim e Eu
estou no Pai (10,38), O fato de terem tudo em comum "Tudo o
que é meu é teu e tudo o que é teu é
meu"(17,10), a sua perfeita e absoluta unidade" Eu e o
Pai somos Um"(10,30) mostra a identidade de natureza entre
os dois.
Jesus é o enviado do Pai: assim não só Ele
e as Suas palavras são manifestação do Pai
mas toda a Sua vida, todas as suas obras e especialmente Sua Morte
e Ressurreição. Jesus Cristo crucificado é
a manifestação suprema do amor salvífico de
Deus.
A Missão de Jesus é revelar o Pai, para isso Ele foi
enviado. Ele não fala em nome próprio, nem busca a
sua própria glória, mas a de Deus, com cada uma das
suas palavras e ações, mas esta glória reverte
em sua pessoa, a qual é necessário tributar a mesma
honra ["a fim de que todos honrem o Filho, como honram o Pai"
( 5,23)] amor ["Se Deus fosse vosso pai, vos me amaríeis,
porque sai de Deus e dele venho"( 8,42)] e fé [ "credes
em Deus crede também em mim"( 14,1)] que a Deus.
Os ensinamentos contidos na pregação de Jesus não
são nem o reino, nem as parábolas nem nada semelhante,
como nos Sinóticos; o ensinamento teológico central
de João diz respeito à revelação de
Deus de si mesmo neste Filho completamente singular, Jesus de Nazaré,
que em suas alocuções à multidão vai
paulatinamente revelando a sua pessoa: Jesus é aquele que
é uno com o Pai, veio do Pai, se encarnou e desse modo esteve
durante certo tempo entre os homens para tornar-se a sua luz salvadora,
o mediador do Pai. É o único enviado de Deus ao mundo
com uma missão salvífica. Só Ele pode falar
das coisas de Deus e dos seus planos com relação ao
homem. Ele é o revelador do Pai: Ele anuncia, proclama e
se identifica com o Pai. Conhecer Jesus é conhecer Deus.
A expressão "EU Sou" (egò eimi) é
uma formulação deliberada do evangelista, de profundo
significado e de grande importância teológica. Mateus
usa 5 vezes, Marcos 3, Lucas 2 e João 29, sendo 26 por parte
de Jesus. Eu Sou lembra o Santo nome de Deus : Javé: "Eu
Sou Aquele que É (Ex 3,14-16) Este é um dos termos
veterotestamentários que João rele em clave cristológica.
É em Jesus que o"Eu Sou" do Antigo Testamento encontra
a sua realização máxima.
Em João o Espírito é apresentado como o poder
divino que continua e completa o ministério de Jesus: o Espírito
é a perpetuação da presença de Jesus
entre os seus seguidores. O Espírito é o princípio
da filiação divina que Jesus pos ao alcance dos homens.
É vivificador e princípio da vida do cristão,
iluminando-a. Jesus promete o Paráclito para recordar sua
obra e ensinamentos e para conduzir a comunidade na verdade plena.
A atividade do Paráclito (designação joanina
do Espírito) é revelar a mente de Cristo. Ele é
a presença pessoal de Jesus no cristão enquanto Jesus
está no Pai, como Paráclito, o Senhor glorificado
está sempre presente na sua Igreja.
João Batista dá o testemunho a favor de Jesus como
filho de Deus pelo sinal da pomba vinda do céu (1,32-34)
sobre o Messias, aquele que batizará no Espírito.
Depois na conversa com Nicodemos volta a aparecer a relação
entre a água e o Espírito (7,37-39).
O Espírito aparece quando Jesus sai, é entregue quando
Jesus morre na cruz, soprado sobre os discípulos na primeira
aparição de Jesus ressuscitado, lhes dando o poder
de perdoar os pecados, enviado do alto quando Jesus volta ao Pai.
O Espírito Santo procede do Pai e do Filho. O Espírito
é o consolador que estará sempre com os que crêem
em Cristo, morando neles e é também quem lhes recordará
tudo que Jesus lhes tinha ensinado e lhes dará luzes para
compreender o verdadeiro sentido daquelas palavras (14,26). Será
testemunha de Cristo para os apóstolos que, por sua vez,
serão testemunhas do Senhor diante de outros homens.
Fé e Amor
A fé desempenha uma parte de suprema importância na
teologia de João. Ele assinala que escreveu seu Evangelho
"para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de
Deus e, para que crendo, tenhais a vida em seu nome" (20,31),
quer dizer, a fé em Jesus conduz à vida eterna porque
Ele venceu o pecado e a morte e, pela fé, nos unimos a Ele.
João mostra que o próprio Jesus proclama a fé
como aquela única coisa necessária à salvação
e deixa claro que a fé é fé em Jesus, no qual
reconhece aquele em quem Deus se revelou.
Para os que não conheceram diretamente Jesus, a fé
nele encontra o seu fundamento razoável no testemunho daqueles
que o ouviram e o viram (21,24) e nos transmitiram fielmente o que
ele fez e ensinou.
João utiliza outros termos que se relacionam com a fé,
a saber: crer em Jesus é ir a Ele: "eu sou o pão
da vida, quem crer em mim, nunca mais terá fome". A
fé pode ser descrita como "ouvir" a voz e as palavras
de Jesus: ouvir e obedecer. Crer é, também, ver; a
fé é uma visão.
A fé é um dom gratuito de Deus (a fé enquanto
virtude) e também uma resposta livre do homem. O ato de fé
do homem é muito meritório pois é a resposta
agradecida ao amor de Deus manifestado em Cristo. A fé vem-nos
através da pregação apostólica e é
uma graça divina que espera a resposta livre do homem.
A caridade é outro termo importante para João que,
por ser o discípulo amado (20,2;21,20) pôde ensinar
por experiência própria o que é ser amado por
Jesus e amá-lo. Deus é quem toma a iniciativa no amor.
A grandeza do amor pode medir-se pelo valor do dom entregado, e
Deus entrega-nos o que para Ele vale mais, o que mais ama, o Seu
próprio Filho. A prova mais evidente do amor supremo a Jesus
e de Deus Pai culmina no sacrifício da Cruz "Deus amou
de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito"
(3,16). Jesus, com efeito, entrega-se à morte como o "Bom
pastor que dá a sua vida pelas suas ovelhas (10,11). Com
razão afirma que ninguém tem maior amor que aquele
que dá a vida pela pessoa amada"15,13). O amor de Jesus
mostra-se também na fidelidade indefectível até
o fim (13,1) "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os
até o fim" este é o extremo do amor.
João põe em realce de modo especial em Jesus esse
traço tão divino e tão humano que é
o amor. Assim vemos como Jesus amava seus amigos Lázaro,
Maria e Marta.
Cristo que deu o exemplo do seu amor a todos os homens, pode pedir
que nós nos amemos também, uns aos outros, como Ele
nos amou: esse é precisamente o mandamento do Senhor (13,34-35;
15,12) Esta será a nota peculiar do verdadeiro discípulo,
o que distingue o cristão.
(CONTINUA)
Jane do Tércio
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