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Em um destes últimos domingos, o primeiro da quaresma se não
me engano, a liturgia nos propunha o evangelho das tentações
de Jesus. Pude, então, perceber que tudo aquilo que o demônio
um dia propôs a Jesus, nos é proposto hoje diariamente.
Superar estas tentações é possível para
nós como foi para Jesus, mas exige que sigamos seu exemplo
de uma forma que muitas vezes é contrária a nossos instintos
e desejos naturais. Entender a natureza destas tentações
é o primeiro passo em direção a sua superação.
Se analisarmos direito as três tentações feitas
ao Senhor (transformar a pedra em pão, pular da parte mais
alta do templo para que anjos o resgatem e ajoelhar perante o demônio
para ganhar todo o poder e riqueza sobre os reinos da Terra) poderemos
ver que em duas delas o tentador começa dizendo: "Se tu
és filho de Deus...". Trata-se de um apelo inegável
à vaidade. Até mesmo os meninos já conhecem este
mecanismo implícito em todos nós, pois, quando desejam
se provocar, o fazem dizendo: se você for homem, vai fazer tal
coisa. Na última tentação (segundo o evangelho
de São Mateus), o apelo ao orgulho e à vaidade se torna
ainda mais claro com a oferta de poder e riqueza, caso aceitasse todos
o respeitariam por aquilo que podia e possuía. Em todos os
casos o demônio busca atingir aquilo que talvez seja o que há
de mais precioso para nós: nossa imagem perante os outros.
Muitos afirmam não se importar com o que os outros pensam,
mas isto parece contradizer a própria natureza humana, que
busca e tem necessidade de aprovação. Creio que o homem
tem a capacidade de enfrentar quase todo tipo de desafio e privação,
sem se abalar ou perder a fé. Porém, quando estes envolvem
a humilhação e exposição ao ridículo,
tudo muda. Só revestido da graça de Deus o homem pode
suportá-los sem partir instintivamente para o ataque, em defesa
de seu prestígio e de sua imagem.
Pode parecer exagerado, mas em minha vida é uma realidade que
devo enfrentar com a preciosa ajuda do Senhor. Já senti na
pele como é insuportável ir ou ficar em um lugar em
que todos tinham uma imagem negativa de mim. Os olhares de reprovação,
os comentários de pé de ouvido acompanhados de risadinhas
abafadas, tudo colabora para ridicularizar, colocar para baixo, e
mesmo tornar insignificante, aquele que não é aprovado.
Tendo conhecido esta realidade insuportável, me utilizo de
todos os recursos disponíveis para me defender de qualquer
coisa ou qualquer um que possa causá-la, utilizando todas as
armas necessárias para isso. Não faço por mal,
é instintivo. Todo meu ser clama pela defesa de minha imagem,
e cada vez que supero este clamor é por pura graça do
Senhor que me faz tirar o foco de atenção de mim e passá-lo
para Ele.
Desejo, e sempre desejei, ser respeitado, querido e, se possível,
admirado por todos que me cercam. Não há como negar
que quero ser grande e não pequeno perante os outros. E é
muito doloroso perceber que isto é minha maior tentação.
Cristo, meu Senhor e modelo, tinha tudo para se mostrar como o maior
entre os homens, e de forma contrária se apresentou como o
menor e mais humilde dos servos. Não consigo imaginar um cenário
com maiores e mais injustas humilhações do que aquele
que antecedeu a crucificação. Deboche, zombaria e ridicularização
do Filho de Deus, quem eram aquelas pessoas para fazerem isto? Se
fosse comigo, certamente teria contra-atacado, respondido e humilhado
àqueles que lutavam para me humilhar. E o que fez meu Mestre?
Permaneceu calado e pediu que o Pai os perdoasse pois não sabiam
o que estavam fazendo.
Creio que se hoje, qualquer um de nós, for motivo de uma piada
maldosa do porteiro de nosso prédio - num exemplo certamente
iria reagir de forma a colocá-lo em seu lugar, humilhando-o
mesmo sem ter esta intenção. Confundimos a imagem que
queremos criar para nós com o que somos por essência,
por termos mais que o próximo ou por estarmos em posição
superior a sua nos fazemos maiores do que o irmão, achando
que merecemos maior consideração. Se temos mais hoje
é porque o Senhor nos concedeu através de oportunidades
e dos dons que nos confiou. Achar que temos mais por nosso mérito
e que por isso merecemos mais do que os outros é uma ilusão
e um desrespeito com aquele que tudo nos concedeu. Cristo que era
maior do que qualquer homem que já pisou nesta Terra, não
humilhou ninguém ou sequer reagiu às humilhações
que recebeu. Quanto maiores nos achamos mais difícil fica servir,
amar e respeitar o próximo. Se acho que mereço mais
consideração do que o meu irmão, pela posição
que ocupo ou pelo que tenho, me vejo como maior que ele, como então
poderei servi-lo? Como poderei oferecer a outra face quando me bater?
Se sou maior devo revidar.
O que é grande impõe respeito por si mesmo, o desafio
é respeitar e amar o que é pequeno. Não adianta
irmãos, para mim e para qualquer um que quiser seguir os passos
de nosso Senhor Jesus Cristo, o único caminho é fazer-se
pequeno. Tenho que me considerar o menor entre todos, pois só
assim poderei servir de bom grado todos aqueles que estão a
minha volta, pois os considerarei maiores do que eu. Da mesma forma
que meu Senhor, poderei amar e perdoar sem hesitar, poderei enfrentar
humilhações e zombarias, serei o menor, sem merecer
ou ter direito a nada. Rogo ao Pai que dê forças a todos
nós para superarmos a tentação da vaidade e do
apego a imagem, para que seguindo o exemplo de seu filho possamos
nos fazer os menores dentre os homens, apesar de tudo que Ele nos
tenha concedido, amando servindo e principalmente testemunhando que
só Deus é digno de louvor.
Fabio Miranda (fabio@sinergiaonline.com.br)
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VEJA NESTE MÊS DE MARÇO/2002:
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