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Lembro-me bem, parece que foi ontem. Acordamos cedinho por causa do barulho lá na rua. As pessoas falavam em voz alta, discordavam umas das outras, enfim, não entendíamos nada... Apenas ouvíamos palavras como: "não está mais onde o colocaram", "é mentira destas mulheres"; "precisamos averiguar..." Ao mesmo tempo, o dia amanhecia como nunca havia amanhecido antes. Era um dourado vindo de sua aurora mesclado de vermelho, acompanhado de todas as cores do arco-íris. O azul do céu cintilava fagulhas de seu próprio azul. Espantávamos com o céu, com o sol e com aquela gente...
Aos poucos, com o clarear do sol, pudemos entender o que se passava, mesmo sem entender o que havia se passado. As mulheres diziam que o corpo de Jesus de Nazaré havia desaparecido do lugar onde o haviam depositado. Uma outra, correndo, gritava que o havia visto, que ele estava vivo e que a mandou falar a nós. O azul do céu incomodava os olhos de tão azul. (Se o poeta vivesse neste tempo, eu saberia que teria sido nesta manhã que ele havia se inspirado para escrever as manhãs de Abril). Como poderia ser, estar vivo depois de tamanha morte? A idéia daquelas mulheres nos fazia arrepiar de medo. O que fazer? O que todos fizeram... Correr até lá.

Muita gente correu até o jardim, onde havia sido enterrado o corpo do Nazareno. Homens, mulheres, crianças, soldados, sacerdotes, fariseus, escribas e outros mais. O interessante foi que durante a corrida todos éramos iguais. Não havia motivo para diferenças, pois o que nos movia era uma só coisa: a vontade - preciso ver onde colocaram o corpo; preciso apalpar o lugar, enxergar os lençóis. Onde será que o colocaram? Um vento leve passava por nós, como o a nos sussurrar algo que não dávamos conta de ouvir, apenas seu zunido leve e solto.
Aquela manhã pensava em meu coração, não poderia ser esquecida jamais. Mesmo se encontrássemos seu corpo desfalecido. A vida naquela manha era diferente e impulsionava-nos a correr. Correr para ela mesma, correr para a vida. O Nazareno, há poucos dias, nos fez correr para ver a sua morte, e agora, segundo aquelas mulheres, nos fazia correr para ver a sua vida. Alguns correram mais depressa e chegaram primeiro... Outros nem quiseram chegar, nem que outros chegassem. Os sacerdotes e alguns soldados, de longe, viram a pedra grande removida e o buraco aberto. Tiveram medo, isto sim! E nos atacaram... Queriam deter os que ainda corriam para ver a vida. Bateram em alguns, empurraram outros... Tudo em vão.
Chegamos e vimos; silencio, simplicidade, vazio... Nada mais. Ah, vimos também olhos espertos cruzando-se num profundo diálogo de olhos absortos pelo que constatavam. Muitos temeram aquela manhã. Poucas sentiram todo o ser se transformar, como o céu se transformara da chuva e trovões dos últimos dias, ao céu azul de sol dourado e límpido daquela manhã de abril. Sem planejar nada, as pessoas visitaram umas as outras naquele dia, e conversavam baixinho sobre o que acontecera. Até que mais à tardinha, dois dos nossos chegaram mais exaltados que as mulheres da manhã e nos disseram tê-lo reconhecido.

Ele verdadeiramente vivia. Onde? Como? O Mistério d'Aquele Pai de quem Ele nos falara, agora clareava nossas mentes e abria nossos corações. Ah, ardia como que em chamas todo o meu ser! E igual a mim, meus irmãos, da casa de meu pai e os demais que se encontravam conosco, também sentiam. Queimava tudo o que nos prendia a nós. Queimava todo medo. Queimava toda a covardia. E iluminava tudo o que ainda se encontrava escuro. Nossos olhos se abriram e pudemos vê-lo. Desejava-nos a paz, ao mesmo tempo que soprava sobre nós. Naquele desejo e naquele sopro, soprava em nós novamente a vida, como se fosse nosso próprio Criador. E recebíamos tudo como se fôssemos suas próprias criaturas.

Extasiados, contemplávamos todo seu corpo. Era o mesmo, porém diferente do que havia sido enterrado. Possuía a vida e trazia em si uma luminosidade própria. Não falamos, nem perguntamos nada; tamanho susto e ao mesmo tempo, tamanho desmanchar de nós para o reconstruir d' Ele. Não tivemos mais dúvidas. Ele vive! Precisa viver conosco, em nós, na nossa vida! Precisa irrigar a graça de sua vida e fazê-la pulsar em nós, transformando-nos em verdadeiro sangue de seu sangue! Vidas de sua vida. É isso que eu jamais esquecerei.

Passarão mil, dois mil anos e a alegria será a mesma. A vontade de viver, de converter a morte em vida será a mesma no coração de todos os homens e mulheres que se deixarem vencer pelo ideal que Ele - o ungido de Deus, o esperado por nós - nos apresentou. Em outros tempos, teria medo dos poderosos abafarem este ideal. Agora, já não tenho mais. Poderoso é quem fez arder nosso coração. Poderoso é o Deus que o fez vencer a morte. E o seu poder há de fazer reinar o que Ele veio trazer: paz, justiça e fraternidade. Hoje e sempre...

Padre Carlos Henrique C. Senna-
Pároco de São Tiago Arquidiocese de BH
(texto retirado do Jornal Opinião)
 
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