A
nossa fé cristã se baseia em um acontecimento: Jesus
Cristo morreu e ressuscitou. Tal acontecimento nos foi narrado e transmitido
por testemunhas oculares, os apóstolos, e continuará
sendo narrado e transmitido até o fim dos tempos pela Igreja.
Este é o significado originário da palavra evangelho
(eu - anghelion): boa-notícia. Uma boa notícia que ecoa
nas páginas do Novo Testamento desde o nascimento de Jesus,
conforme nos atesta Lc 2,10. A Páscoa leva esta boa noticia
à plenitude do seu significado.
Os apóstolos, medrosos e fujões quando da paixão
e morte do Senhor, foram inebriados por esta boa-nova e por isso recuperaram
a coragem e esperança perdidas. Anunciaram com destemor, enfrentando
todas as vicissitudes, esta força operante do Senhor glorificado
na Igreja e no mundo. Foram tomados de uma alegria tal que chegou
a ser identificada como loucura ou embriaguez. Na verdade, não
é só uma noticia ou mensagem codificada em palavras
escritas ou orais, mas uma experiência profunda que, através
desta palavra ouvida e proclamada, brota na intimidade de quem a acolhe
na força do mesmo Espírito do Ressuscitado. Ele continua
conosco ou como proclamamos com entusiasmo na Liturgia: "Ele
está no meio de nós".
Esta presença do Ressuscitado no mundo pela Igreja é
o significado real da fé e da esperança cristãs
que nos impelem à caridade. E a essência do cristianismo
e nossa grande riqueza a oferecer ao mundo. "Nem ouro nem prata
possuo (At 3, 6)", diz Pedro ao aleijado das escadarias do templo
de Jerusalém, e Paulo completa em 1 Cor 1, 23 "Nós
porém anunciamos Cristo crucificado". Cristo está
entre nós e em nós. Não uma mera presença
passiva. Mas uma presença que fecunda nossa vida imprimindo-lhe
um sentido luminoso muito bem expresso por Paulo: "Pois estou
convencido de que nem a morte nem a vida... nem presente nem o futuro...
nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus.
A força e a riqueza desta experiência pascal é
ainda muito desconhecida pelos cristãos. Por isto falta entusiasmo
e fecundidade na fé professada e vivida por nós. Pois
ela é uma experiência sempre renovada e sempre possível
de recriar e reorganizar as nossas energias espirituais mais profundas,
capazes de nos tornar homens e mulheres sempre novos, sempre jovens
seja qual for a nossa idade. A experiência pascal, quando vivida
por nós, tem a força de atrair as pessoas, os jovens,
para uma vida luminosa e cheia de graça. Pois quando o modo
de vida dos cristãos parecer sem graça e sem sabor,
é porque não foi ainda penetrado pela luz do círio
pascal: uma experiência muito semelhante a de um fogo abrasador
que Jesus sonhava ver espalhado por toda a terra.
Disto decorre que a experiência cristã não é
da dor e da morte. Não cultua o sofrimento e o pessimismo.
Não se deve procurar na fé cristã a morte, mas
a vida. A dor e a morte, conseqüências do pecado, são
percebidas como desafio a ser vencido e não como ideal a ser
atingido. Quanto mal fez e faz à fé cristã uma
espiritualidade na qual o bem a ser conquistado é a renúncia
e o sofrimento. É claro que Jesus usou as mesmas armas para
conseguir a vitória sobre o mal, o sofrimento e a morte. Muitas
vezes renuncia-se para uma felicidade maior, sofre-se para conquistar
uma alegria mais purificada, morre-se para viver plenamente. No entanto,
o objetivo final é a alegria, o gozo, a vida. Pois não
se renuncia ao prazer, mas ao egoísmo, à alegria, mas
à desordem, à vida, mas ao pecado. Jesus Cristo ressuscitou
e vive entre nós. Explode coração!
Padre José Cândido da Silva - professor de Teologia
e pároco de São Sebastião, em BH
|