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Campanha da Fraternidade |MARÇO

Programa de índio
E de uma luta pela cidadania dos excluídos


À primeira vista, a próxima Campanha da Fraternidade será um programa de índio": que fazer com tema tão distante? "Fraternidade e Povos Indígenas" visa a despertar a responsabilidade das comunidades cristãs e da sociedade civil para a luta dos povos indígenas por seus territórios, por sua identidade e vida digna. Mas isso será pouco, se não acordarmos para a tarefa mais ampla - na qual os povos indígenas podem ajudar - da reconstrução do projeto global de sociedade, em bases mais participativas e integradoras.

O Brasil conta atualmente com 225 povos indígenas. época da conquista eram mais de mil povos com uma população de aproximadamente cinco milhões. Os 225 povos de hoje somam uma população de 550 mil, dos quais vivem 359 mil em Terras Indígenas e 191 mil nos centros urbanos. São os herdeiros despossuidos de uma "terra de males sem fim", devido à exclusão dominadora que o projeto colonial deflagrou. Esses povos lutam atualmente contra o mito de que sua história começou com a conquista branca e contra o mito de que a globalização neoliberal significaria o "fim da história".

O que é "ter história"? Saber ler e escrever?! Então, 20% da população brasileira não teria também história. Sua vida ficaria como a maior parte da saga dos povos indígenas, que não compõe a história do Brasil porque os livros oficiais consideram o tempo antes de Cabral como "pré-história". Mas há registros da vida dessa gente há 50 mil anos por aqui, construindo culturas que ainda agora demonstram amor pelo meio ambiente e pela vida comunitária, valorizam as crianças, os adolescentes e os idosos, sabem escutar uns aos outros e desenvolvem uma economia de parilha.

O jesuíta Bartolomeu Meliá afirma que: " Os guarani usam a palavra jopoi, que quer dizer 'mãos abertas reciprocamente'. Semelhante conceito é encontrado em quase todos os povos indígenas. Faz parte da mitologia [guarani], onde o primeiro Deus é o próprio ser na medida em que se doa". Por isso, entre esses povos não há ricos e nem pobres. Uma das regras básicas é o direito que uma pessoa tem de pedir ao outro o que deseja. As festas são aí momentos privilegiados de se praticar a economia do dom, a reciprocidade grupal. A generosidade é, então, um sinal de poder: bom chefe é aquele que sabe dar.

Se ajudarmos o que resta dessa gente "selvagem" a encontrar dignidade, está bom. Mas ótimo seria se nos deixássemos auxiliar por eles em nossa compreensão de gente e até de Deus. Pois o neocolonialismo liberal seduz as massas populares com a promessa de consumo e de uma vida longa e light: a esse "fim da história" a "Mão Invisível" do deus mercado nos conduziria - as custas da exploração social e ecológica. A nossa burguesia, então, vive num mundo insosso e sem destino, sem vinculação com a vida de todos. Nós é que precisamos mais de encontrar uma identidade e redesenhar os nossos "territórios".

Quem sabe um "programa de índio" ajude a perceber que o projeto político dominante é ecologicamente inviável e antropologicamente regressivo. Quem dera aprendêssemos com os guarani, por exemplo, a dançar a esperança de uma "Terra sem Males"! Essa Campanha pode ser ocasião para encontrarmos o índio ancestral que em nós foi sufocado na liturgia da Conquista, que ainda não terminou. E para escutarmos o chamado místico da sua Mãe-Terra, que nos torna bem mais fraternos.

Gilbraz Aragão - Professor de Teologia de Informativo do Centro Loyola

GESTO CONCRETO - CF/2002
A Prelazia de Paranatinga, para onde está destinado o nosso gesto concreto de Quaresma e Campanha da Fraternidade, foi criada em 1997 e abrange seis municípios, com uma população aproximada de 48 mil habitantes, em uma área aproximada de 62 km2, correspondente a cerca de 48 vezes o território do Rio de Janeiro. Atualmente, trabalham na Prelazia oito padres e quatro congregações femininas.
 
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